[[legacy_image_283117]] Nessa semana em que fomos invadidos por uma onda rosa que nos inundou de glitter, fui magicamente transportada para os tempos de cinemas lotados, em que muitas vezes acabávamos sentados nas escadarias das gigantescas salas — isso bem antes de compras de assentos on-line. Eu ainda não assisti ao fenômeno Barbie, que estreou arrastando novamente multidões para a frente das telonas, mas já gosto do filme só pelo fato dele ter conseguido esse feito. Fazia tempo que eu não via aglomerações tão grandes na calçada em frente ao Roxy e também nos shoppings. E, todos vestidos a caráter: o pink invadiu as ruas e deixou a semana que estava cinza mais colorida. Eu sei que o marketing bem feito e agressivo, somado ao ícone que é a própria boneca, tiveram esse efeito de atração avassalador em um público que já se acostumou aos streamings e à comodidade de ter os lançamentos da indústria cinematográfica dentro de casa. Espero que o efeito seja duradouro e que essa geração que nasceu com o poder do on-demand possa ver que nem sempre comodidade é tudo. Pode ser saudosismo barato, mas ir ao cinema é um pacote completo. Desde a escolha dos lugares para ter a melhor visão, os trailers que já te deixam com vontade de voltar, a ginástica de equilibrar refrigerante e pipoca (de preço exorbitante, porém com sabor diferente da de casa). Tem sempre um vizinho de poltrona que insiste em comentar as cenas nas horas mais impróprias, as risadas nas melhores piadas e os soluços quando a película é um drama. A interação, mesmo que nem sempre bem-vinda, faz parte desse pacote. Fiquei tentando me lembrar da minha primeira ida ao cinema. Infelizmente, não consegui e não tenho mais meus pais aqui para perguntar. Devia ser muito nova, já que esse sempre foi um dos passeios preferidos da família. Porém, tenho recordações vivas e com pequenos detalhes de vários programas, como quando fomos ver a aguardada estreia do Super-Homem. Eu tinha uns 10 anos e minhas irmãs eram ainda menores. Era a icônica Sessão Coca-Cola, no Roxy, que animou muitas das nossas manhãs de domingo. A sensação daquela trilha sonora na acústica de uma sala de cinema e os efeitos especiais (na época extraordinários) naquela tela enorme (ainda maior para uma criança) ainda me causam deslumbramento hoje. Sou capaz de revivenciar a angústia que tive ao ver o Marlon Brando colocando aquele bebezinho lindo sozinho em uma nave com destino à Terra. Colecionei tantas outras lembranças boas. Como quando minha mãe saiu cedo do trabalho, em um dia de semana comum, para irmos só nós duas, eu pré-adolescente, para vermos Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Depois, fizemos disso uma coisa de mãe e filha mais velha, um momento para ficarmos só nós duas, e assistimos a muitos clássicos. O cinema era também o programa preferido dos casais de namorados, afinal uma sala escura ajuda quem está começando ou quer certa privacidade. Mas também era a pedida ideal de turmas de amigos. Andando pelo Gonzaga na última quinta-feira e vendo a onda rosa se avolumando em frente às salas de cinema, identifiquei casais de mãos dadas, mães e filhas, famílias inteiras e muitos grupos de adolescentes. Voltei no tempo. Se a pandemia reforçou a força da tecnologia em nos prender do lado de dentro, quem sabe toda essa ‘dopamina pink’ não seja um antídoto cheia de brilho para iluminar a vida lá fora. A temática cheia de nostalgia e conexão me parece a dose ideal.