[[legacy_image_290087]] E o mal afamado e injustiçado agosto chega na sua metade final. Nesse tempo distópico, até o mês que nunca termina parece que está voando. Em breve vem setembro, talvez o período do calendário que mais inspira os poetas. E este agosto está com um clima de dupla (ou múltipla) personalidade. Não se decide. A gente acorda e se agasalha e logo já está um calorão. O dia passa e uma chuva pega a todos de surpresa, para felicidade dos camelôs e lojas de guardas-chuvas. Até mesmo a névoa que costuma embrulhar as manhãs de outono em papel de seda tem sido mais rara. Agora o que impede a travessia de balsas ou o entra e sai de navios na barra é o vento, que tem soprado forte, de um jeito que não deixa nada parado, das copas das árvores ao mar, que se enche de marolas, daquelas que não são boas para surfistas e tão pouco para marinheiros. Até as flores, ludibriadas por esse agosto bipolar, decidiram abrir seus botões antes do tempo. Na minha varanda, elas já exibem todo seu colorido um mês antes da primavera. O bem-te-vi que me saúda todas as manhãs, empoleirado no telhado do vizinho, também tem se adiantado. Agora, lá pelas 6h já está todo empolgado, cantando a pleno pulmões, como se não estivéssemos em um mês que devia ser convidativo a ficarmos submersos no edredon. Eu me pergunto como será setembro depois desse mês imprevisível? Sinto falta de acordar e ver os prédios escondidos pelo nevoeiro, que vai caindo em orvalho, lembrando que aqui é úmido sim, porque o mar está logo ali. A paisagem do movimentar dos navios fica ainda mais bonita quando encoberta pela neblina, um tanto misteriosa. O tempo seco não tem sido forte o bastante para a insistente umidade a que nós, vizinhos do oceano, já somos acostumados. A chuva tem vindo constante estragando os programas de sábado e nos empurrando para a preguiça do sofá. Já disse aqui que agosto é como quarta-feira — aquele dia ainda no meio do caminho para o fim de semana —, enquanto setembro se apresenta como quinta, quando a animação volta, pois a sexta está chegando. E por sexta leia-se verão. Mas será que o inverno vai chegar em setembro, atrasado por algum compromisso de última hora? A imprevisibilidade climática é desafio até a poetas, que talvez terão de mudar o tempo de inspiração, assim como os agricultores estão tendo que adaptar seus métodos para atender às demandas (ou à vingança) do planeta. Até as flores, ludibriadas por esse agosto bipolar, decidiram abrir seus botões antes do tempo. Na minha varanda, já exibem todo seu colorido um mês antes da primavera. O bem-te-vi que me saúda todas as manhãs, empoleirado no telhado do vizinho, também tem se adiantado.