Carregamento de veículo elétrico em garagem residencial (Arquivo pessoal) O Silêncio que revoluciona as ruas do Brasil Os carros elétricos estão mudando a paisagem urbana e o som das nossas cidades. O ronco dos motores está sendo substituído pelo silêncio dos veículos elétricos (VEs) e para mostrar que os VEs vieram para ficar, os números de emplacamentos no Brasil não deixam dúvidas: 155.724 veículos eletrificados foram emplacados até novembro de 2024, segundo a ABVE. Isso representa um crescimento de 80% em relação a 2023, sendo que 72% deste número refere-se a veículos plug-in (que precisam de uma estação de recarga). Com este crescimento, uma pergunta crucial precisa ser respondida: onde recarregar tantos carros elétricos? Para muitos, a resposta está nas ruas, nos postos de recarga pública. A lógica é compreensível, afinal, estamos acostumados com postos de gasolina em cada esquina. Mas será que precisamos mesmo seguir este modelo para os carros elétricos? Spoiler: não. Nos países mais avançados na mobilidade elétrica, como Noruega e Alemanha, a lógica é diferente: 90% das recargas acontecem em casa ou no trabalho, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA) e esta mesma tendência se aplica nos Estados Unidos e na China. A recarga pública é importante e ainda precisa crescer no Brasil, mas não será a protagonista na adoção massiva dos carros elétricos. Posto de recarga ou garagem do condomínio? Se perguntarmos a qualquer pessoa "onde você recarregaria seu carro elétrico?". A maioria responderia: "em um posto de recarga na rua”. Essa ideia faz sentido à primeira vista, já que estamos acostumados a abastecer carros a combustão em postos de gasolina. Mas o carro elétrico funciona de forma muito diferente. A lógica de uso é mais parecida com o seu celular. Pense bem: Quando você carrega o celular? À noite, enquanto dorme. Onde você carrega o celular? Na maior parte do tempo, em sua casa. Com os veículos elétricos, acontece o mesmo. Por que sair de casa para carregar algo que você pode carregar em casa? Nos países que já aderiram massivamente à eletromobilidade, a maior parte das recargas (90%) acontece em casa e não em estações públicas. E a explicação para isso é simples: É mais prático: Carregue enquanto dorme. É mais barato: A energia doméstica tem tarifas mais competitivas. É mais eficiente: O tempo ocioso do veículo (enquanto está parado) é aproveitado para recarregar. Aqui está o ponto central: os postos de recarga pública não são a solução principal — são uma solução complementar. Eles são essenciais para viagens longas e situações de emergência, mas, para o dia a dia, o verdadeiro “posto de recarga” está na garagem do seu condomínio ou do seu local de trabalho. E como transformar sua vaga em um ponto de recarga? "Se fosse simples, todo mundo já teria feito”. A frase acima pode até ser verdade, mas o fato é que transformar uma vaga comum em um ponto de recarga nunca foi tão viável quanto hoje. Os principais desafios são: Capacidade elétrica limitada: Muitos prédios antigos não foram projetados para a recarga de veículos elétricos. Aprovação em assembleia: Como o condomínio é uma entidade coletiva e precisa ser isonômico com todos os condôminos, o tema requer aprovação em assembleia. Quem paga a conta?: O medo de que a energia da recarga seja dividida entre todos os moradores, incluindo aqueles que não têm carro elétrico. Investimento inicial: Ninguém quer fazer obras caras no condomínio. Mas as soluções para cada um desses problemas já existem. Para superar a limitação de capacidade elétrica, os carregadores inteligentes utilizam um sistema de gestão de carga que distribui a energia de forma eficiente, evitando sobrecargas na rede do prédio. Além disso, o custo da energia utilizada para a recarga é cobrado de forma individualizada. Ou seja, apenas o morador que recarregar seu veículo paga pela energia consumida, eliminando a necessidade de dividir a conta entre todos os moradores. Outro ponto importante é a facilidade de aprovação pelos condôminos. Como o modelo de assinatura não exige investimento inicial do condomínio, a adesão é mais simples. A empresa fornece e mantém os carregadores, e somente o morador interessado arca com os custos do serviço. Dessa forma, não há impacto financeiro para quem não tem carro elétrico, o que facilita a aprovação em assembleias e evita conflitos entre os moradores. Caso de sucesso: O exemplo do Central Park Mooca (SP) Se você acha que "isso nunca vai funcionar no meu condomínio", o caso do Central Park Mooca, em São Paulo, pode mudar sua perspectiva. Com 9 torres, 1800 vagas e 564 apartamentos, o condomínio enfrentava o mesmo desafio de muitos outros: Como instalar carregadores sem fazer obras caras? Como não prejudicar quem não tem carro elétrico? Como evitar discussões eternas nas assembleias? A solução foi um modelo de assinatura com um plano diretor que permite que a infraestrutura elétrica para a recarga seja feita de forma padronizada e escalável e que nenhuma obra adicional de aumento de carga fosse necessária já que um sistema de controle de carga é implementado com carregadores inteligentes. Hoje, mais de 34 carregadores já foram instalados, sem obras e sem custos para o condomínio. Cada morador que quiser recarregar o seu carro, solicita a ativação do serviço. A energia consumida por cada carregador é medida individualmente e, claro, só quem usa, paga. Esse modelo está sendo replicado em outros condomínios de todo o país e pode contribuir muito para destravar a mobilidade elétrica no Brasil. O futuro não está na rua. Está na sua vaga No passado, o símbolo de status era ter uma vaga na garagem. Agora, o verdadeiro símbolo de status é ter uma vaga equipada para recarga de veículos elétricos. A boa notícia é que isso já está ao alcance de muitos condomínios no Brasil. Com soluções acessíveis, sem custo para o condomínio e sem burocracia, qualquer morador pode transformar sua vaga em um ponto de recarga particular. O futuro da mobilidade já chegou. Está na sua garagem. Para síndicos, moradores e gestores, a mensagem é clara: não espere o futuro, faça parte dele.