Dr.a Fabiana Addario (Divulgação) O sucesso das chamadas canetas emagrecedoras, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), tem transformado o tratamento da obesidade. Mas, nos consultórios de dermatologia, um efeito colateral tem aparecido com frequência cada vez maior: a queda acentuada de cabelos meses após o início da medicação. Para entender o fenômeno, conversamos com a Dra. Fabiana Addario, dermatotricologista e CEO da Clinicapelli, primeiro espaço de wellness da Baixada Santista. Segundo a médica, o problema é real, embora muitas vezes negligenciado. “Atendo pacientes que chegam ao consultório aflitas, mostrando fotos de antes e depois, com falhas difusas, ralamento do topo da cabeça e aumento da quantidade de fios no ralo do banheiro. Elas perderam peso, mas perderam também a densidade capilar. E a pergunta sempre é: isso tem a ver com a caneta? Sim, tem.” Choque metabólico e restrição nutricional A Dra. Fabiana explica que a queda de cabelo induzida por esses medicamentos não é uma reação alérgica direta, mas sim uma consequência indireta do rápido emagrecimento. O nome técnico é eflúvio telógeno agudo, uma condição em que grande número de fios entra prematuramente na fase de repouso e queda. “Quando você perde peso muito rápido, mais de 1,5 kg por semana, ou reduz drasticamente a ingestão de calorias, o corpo entende aquilo como um estresse metabólico. O cabelo é um tecido não essencial para a sobrevivência imediata. O organismo então ‘desliga’ o investimento nos fios para poupar energia para órgãos vitais.” Os danos colaterais das canetas emagrecedoras (Divulgação) Além do fator velocidade, a médica destaca outro ponto ignorado: a desnutrição relativa. Os análogos do GLP-1 causam saciedade intensa, reduzindo o apetite de forma tão eficaz que muitos pacientes deixam de consumir proteínas, ferro, zinco, biotina e vitaminas do complexo B, que são nutrientes-chave para a saúde capilar. “Já atendi pacientes que passaram dias sem comer carne, ovo ou feijão. Relatavam ‘enjoo de comida’ ou ‘falta de vontade’. O cabelo começa a cair de forma generalizada cerca de dois a três meses após o início da restrição alimentar severa. É justamente o intervalo do ciclo capilar.” Não é calvície, mas pode ser um gatilho Um alívio para muitos, segundo a dra. Fabiana: na maioria dos casos, a queda não é definitiva. Diferente da alopecia androgenética (calvície genética), o eflúvio telógeno tem potencial de reversão. “Se identificado cedo e tratado corretamente, o cabelo volta. O problema é quando o paciente ignora a queda, mantém déficits nutricionais por meses e ainda associa a medicamentos que continuam suprimindo o apetite. Nesse cenário, a queda cíclica pode evoluir para um afinamento crônico. Além disso, esse mecanismo pode desencadear uma alopecia androgenética “adormecida” e funcionar como gatilho para algo que talvez acontecesse mais tarde.” Prevenção e manejo: o que diz a especialista A boa notícia é que é possível usar as canetas emagrecedoras sem sacrificar os fios. A dra. Fabiana Addario lista medidas práticas: Avaliação nutricional e laboratorial pré-tratamento; Tratamento antes, durante e após o uso; Não acelerar além do recomendado: a perda segura é de 0,5 kg a 1 kg por semana; Manter aporte proteico adequado; Suplementar sob orientação, nunca por conta própria. Clinicapelli: abordagem integrativa À frente da Clinicapelli, a dra. Fabiana adota um modelo que une dermatologia, tricologia, reabilitação, nutrição e bem-estar – diferencial no cenário da Baixada Santista. “As canetas são tratamentos revolucionários contra o diabetes e a obesidade, mas é preciso fazer uso de forma responsável. Hoje vemos pessoas comprando em farmácias de manipulação ou na internet, sem acompanhamento, e depois chegam com queda severa, fadiga, náusea e perda de massa muscular.” A médica defende que qualquer terapia para emagrecimento deve incluir acompanhamento capilar preventivo e ganho de massa muscular, um dos outros problemas causados pelo uso indiscriminado e sem orientação das canetas. Conclusão: emagrecer sim, com cabelo no lugar “As canetas emagrecedoras são ferramentas extraordinárias para a saúde metabólica. Mas não são varinhas mágicas. O cabelo cai quando o corpo grita: ‘estou sendo privado’. Emagrecer com saúde é emagrecer nutrido – e com cabelo ainda preso no couro cabeludo.” E reitera que o que causa a queda não são as canetas em si, mas a perda de peso acentuada, especialmente quando acontece em uma velocidade acelerada. E acrescenta: “Acredito no poder do equilíbrio, por isso, aqui na Clinicapelli, acompanhamos esse processo de forma integrada, com protocolos capilares, faciais e corporais, respeitando o processo da medicação, mas prevenindo possíveis efeitos de maneira ativa, sem esperar o agravamento dos quadros de queda capilar, flacidez de pele e sarcopenia, que é a perda de massa muscular”, finaliza.