A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o quarto mandato presidencial demonstra uma grande mobilização em torno da candidatura do petista, mas também um temor de eventual radicalismo por parte do seu oponente, Flávio Bolsonaro (PL). Além disso, o capital acumulado na reta final do segundo turno deve ajudar o petista a lidar com um Congresso “hostil” e mais à direita. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o que pensam os cientistas políticos ouvidos por A Tribuna. Para Alcindo Gonçalves, professor da Universidade Católica de Santos (UniSantos) e responsável pela metodologia do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT), a queda na abstenção nacional (19,22% contra 21,08% no primeiro turno) ajudou na consolidação da virada de Lula. “Esse recuo mostra o sucesso da mobilização pelo voto de quem não foi às urnas no primeiro turno. Houve uma tomada de consciência sobre as consequências de um eventual governo Bolsonaro, assim como o aumento na aprovação do presidente, indicada pelas pesquisas”. Para Gonçalves, a força demonstrada por Lula para vencer a eleição no segundo turno será importante para lidar com um Congresso majoritariamente de direita. Mas não vai resolver nada sozinha. “É um momento histórico, o presidente conseguiu virar uma eleição, coisa que nunca tinha acontecido. Ele tem um trunfo importante, mas não é o suficiente. Vai ter que ter muita habilidade. Se não é o melhor dos mundos, uma aliança com o Centrão é bem melhor do que se render à extrema-direita. Então, eu acho que vai precisar muito trabalho, muita conversa”, pontua. Ele também pondera que os próximos quatro anos servirão para Lula e a centro-esquerda repensarem o futuro do chamado campo progressista. “A missão é fazer esse espectro emergir forte, unido e organizado para o pós-Lula”. Conservadorismo Já Fernando Chagas entende que a força conservadora do primeiro turno, que sinalizava uma vitória bolsonarista, foi sendo minada aos poucos na disputa presidencial, reforçada por gestos agressivos do candidato do PL. “As manifestações do Bolsonaro, com ataques às instituições, principalmente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao Estado Democrático de Direito, assustaram parte da população. O comportamento irônico nos debates também pesou nessa mudança”, avalia. Segundo ele, algumas propostas econômicas de Flávio Bolsonaro também desagradaram. “Falar que vai fazer ‘tesouraço’, cortar gastos e, ao mesmo tempo, aumentar programas sociais, soa incoerente. Os indecisos optaram por Lula nos últimos momentos”. O cientista político também elogiou a mobilização da esquerda, especialmente nas manifestações de rua. “Isso resgatou a antiga esquerda, principalmente puxada pelos jovens universitários. Porém, mais do que as manifestações de rua, as intervenções nas redes sociais, que era o ponto fraco dos progressistas da esquerda e do PT”, complementa o especialista. Na região Se, no primeiro turno, Lula venceu apenas em um município na Baixada (Cubatão), no segundo obteve maioria de votos em outras duas cidades: São Vicente e Mongaguá. Especificamente em Santos, o candidato do PL se saiu melhor nas Zonas Eleitorais 272 e 273, sendo derrotado na 118. Para a cientista política Clara Versiani, por mais que o Legislativo tenha ganhado destaque nos últimos anos, o Executivo ainda tem diversas prerrogativas que são importantes para o Congresso. “Querendo ou não, o Legislativo vai ter que se acertar com esse Executivo, para aquilo que depende dele, e vice-versa. Mas creio que haverá negociação”. Para ela, o momento é aguardar os próximos passos a serem dados por Flávio Bolsonaro e as lideranças da direita, em função dos problemas vistos durante o dia de votação. “Acho que pode gerar agora, num primeiro momento, mais algum ruído. Haverá questionamentos, mas, por outro lado, tem uma série de outras coisas acontecendo, porque há inquéritos abertos contra o candidato”, finaliza Clara.