[[legacy_image_10030]] “Assim que caí, não consegui mais levantar. Não tinha forças e nem sentia mais as minhas pernas. Foi tudo muito rápido. Entrei em parafuso e achei que era o meu fim. Desde aquele dia, em que voltava de uma sessão de cinema, aprendi a conviver numa cadeira de rodas.” O relato emocionado da auxiliar administrativa Sandra Hellen de Figueiredo Félix, de 25 anos, resume uma epidemia nas ruas: o elevado índice de motociclistas com traumas, permanentes ou não, envolvidos em acidentes de trânsito. O alerta ocorre em meio à mobilização nacional Maio Amarelo, de conscientização para o crescente índice de mortos e feridos em acidentes automobilísticos. Dados locais do Centro de Reabilitação Lucy Montoro apontam que 85% das vítimas atendidas pela instituição estadual no ano passado conduziam moto (as demais foram atropeladas). O percentual de acidentados sobre duas rodas é o maior das 17 unidades paulistas da rede. Homens e com até 30 anos são maioria. “Notamos, contudo, nos últimos anos, aumento de pacientes mulheres em acidentes de trânsito por motos”, destaca o diretor da clínica local, Celso Vilella Matos. Pelo levantamento, metade dos motociclistas atendidos em Santos sofreu algum tipo de traumatismo craniano. Dezessete por cento dos pacientes teve algum grau de paralisia. É o caso de Sandra. Em junho de 2017, ela trafegava pela Avenida Ademar de Barros, em Guarujá, quando um veículo na contramão colidiu de frente coma sua moto. No impacto, ela foi arremessada e bateu a cabeça no meio-fio. Foi uma semana após ela completar 23 anos. “Nasci de novo. Descobriram depois que o motorista [que causou o acidente] estava embriagado. Por uma pessoa imprudente, tive meus sonhos paralisados momentaneamente. Para ele, a vida continua normal”, compara. Desde então, a rotina de Sandra se divide em sessões de fisioterapia e reaprender a conduzir a vida sobre uma cadeira de rodas. “As pessoas precisam entender a importância de seus atos. É preciso mais amor no trânsito”, aconselha. Sandra, porém, pensa que as limitações são provisórias. Profissionais da rede em Santos cogitam que ela volte a andar. “Tenho minha esperança de que, um dia, vou recuperar os movimentos das pernas”. Amputações A estatística regional também cita que um terço das vítimas atendidas na unidade por acidente de moto teve amputações – a maioria, membros inferiores. Em junho de 2016, o eletricista Pedro Serafim de Santana, de 62 anos, voltava do trabalho para casa quando teve a vida mudada completamente. Um veículo com faróis apagados atravessou a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. “Tentei desviar, mas foi tudo muito rápido. Eu me lembro apenas do carro passando por cima de mim. Depois, apaguei”, afirma. A colisão fez com que a perna direita fosse amputada dez centímetros acima do joelho. “Tive que aprender a andar de novo. Um passo de cada vez. Hoje, tenho uma vida quase normal. Até voltei a subir escadas. O ritmo é outro, mas posso fazer tudo que fazia antes”, comemora o eletricista. Ele faz parte daqueles que, ao todo, foram alvo de mais de 200 mil atendimentos nos cinco anos de operação da unidade santista.