[[legacy_image_259173]] Em menos de duas semanas, dois ataques a instituições de ensino, com a morte de uma professora e de quatro crianças pequenas, põem em alerta educadores, professores, pais e os próprios alunos. Os episódios são diferentes, mas com o mesmo cenário: a escola. No dia 27 de março, um adolescente de 13 anos esfaqueou quatro professoras e um aluno dentro da Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, na Zona Oeste da Capital paulista. A vítima fatal foi uma professora de 71 anos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Na segunda-feira passada, um homem de 25 anos invadiu uma creche em Blumenau (SC) com uma machadinha e matou quatro crianças com idades entre 4 e 7 anos. Outras quatro ficaram feridas. Estudo desenvolvido pela Unicamp e pela Unesp contabilizou dez ações violentas em escolas desde agosto de 2022. Para especialistas ouvidos por A Tribuna e outros que deram entrevistas nesta semana sobre o tema, ações isoladas não serão suficientes para frear episódios assim, justamente porque têm causas diferentes e algumas podem estar relacionadas à violência que antecede os ataques. Será preciso o envolvimento de toda a sociedade para identificar as diversas origens da violência, dizem. Além disso, avaliam os especialistas, é preciso um conjunto de políticas públicas que envolvam as áreas de saúde, educação, segurança pública de forma permanente. MultifatoresPara a professora Flávia Vivaldi, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e doutora em Educação pela Unicamp, o aumento expressivo de casos é multifatorial, mas também tem a ver com a “naturalização do discurso de ódio que vem sendo disseminado nas redes sociais já há alguns anos, com intolerância e estímulo a ataques. Há um reflexo imediato sobre a sociedade”. Flávia falou nesta semana ao podcast Café da Manhã, disponível na internet. Ela destaca, porém, que não podem ser desconsideradas as condições pessoais das pessoas que promovem os ataques, mas que acabam ficando legitimadas pela naturalidade com que se fala sobre violência nas redes sociais. Escola é seguraFlávia diz que a última preocupação dos pais teria que ser quanto à segurança da escola. “Esse tema precisa ser trabalhado dentro da escola, entender esses fenômenos, como os estudantes veem isso. Esse é o papel da escola, construir a cidadania dentro da escola. A segurança precisa estar presente, claro, principalmente no entorno da escola, mas eu acredito que a segurança interna se dá por uma política de convivência voltada para as questões éticas, democráticas, visão contrária a essa postura de intolerância e de não aceitação das diferenças”. Flávia acrescenta um ponto que julga relevante nesse debate: a visibilidade que se dá aos autores. “Há grupos na internet que fomentam os extremismos. Quanto mais vítimas se faz, mais eles ganham reconhecimento e notoriedade. Eles citam quem foram seus inspiradores, inclusive. Isso precisaria ser debatido e regularizado, aqui no Brasil, pela própria mídia”. Prefeitura fala em reforçar a segurança O prefeito Rogério Santos (PSDB) disse ontem que abrirá uma licitação para contratar seguranças e reforçar o patrulhamento nas 86 escolas da rede municipal de ensino santista. Segundo nota da Prefeitura, os colégios “terão profissionais especializados nos locais de acesso dos alunos e funcionários”. E, amanhã, às 10h, Santos estará reunido com o comando da Guarda Civil Municipal para discutir a abertura de um concurso público, a fim de aumentar o efetivo, e debater a compra de novos veículos e equipamentos de segurança. A partir de 2ª feira, ainda conforme a Administração, a presença ostensiva da Guarda será intensificada, em especial nos horários de entrada e saída de alunos e profissionais. “Já solicitei apoio ao Governo do Estado para termos o reforço da Polícia Militar nas rondas escolares e, também, o apoio da Polícia Civil no monitoramento e na investigação de ameaças e supostos ataques organizados nas redes sociais”, declarou o prefeito. Justiça restaurativa um caminho Uma iniciativa que vem ganhando espaço no ambiente escolar e que já se expande em Santos até dentro do Poder Judiciário é a Justiça Restaurativa (JR), um conjunto de práticas e abordagens que trata da violência de forma diferenciada, buscando a harmonia a partir do diálogo. Nas escolas onde núcleos já foram implantados, casos de bullying, racismo e até agressões físicas têm tido desfecho positivo entre agressor e agredido. “No caso do adolescente de 13 anos, ele já havia sido transferido de outra escola, sofria bullying, era isolado pelos demais”, cita Liliane Rezende, diretora da UME Colégio Santista e ex-coordenadora do Núcleo de Educação para a Paz da Secretaria de Educação de Santos. “Quando a violência não é tratada, ela segue dentro do aluno, e em algum momento isso vai se manifestar. Precisamos investir na humanização dentro da escola”. Polícia não Liliane é contra a fixação de policiais dentro da escola. “Não é disso que estamos precisando. Sou totalmente contra”. Ela defende que escolas tenham profissionais de outras áreas para trabalhar a questão da violência, como assistência social e saúde. “Muitas crianças estão adoecendo muito cedo, com problemas de saúde metal. Isso é um raios X da nossa sociedade, em que muitas convivem com a violência e a miséria dentro de casa”. Em Santos, todos os professores estão sendo capacitados para trabalhar com a JR, e já há núcleos de educação para a paz nas escolas Papa Sobrinho, Demóstenes Brito, Edmea Ladevig, Avelino da Paz Vieira e Santista. Mudar paradigmas “Passou da hora de proporcionarmos para os alunos, professores e família uma mudança de paradigmas na forma como se lida com a violência”, diz Renata Gusmão, juíza titular do Juizado Especial Criminal de Santos e coordenadora do Núcleo de Justiça Restaurativa do Judiciário de Santos. Renata e Liliane Rezende encabeçam uma iniciativa que busca ampliar a formação em JR de profissionais que lidam com a Educação, estendendo para todas as escolas da região. “As crianças e os jovens trazem para a escola sentimentos e questões que fazem parte de uma sociedade punitiva, consumista. Precisamos trazer um novo olhar, saber identificar os desvios e prevenir. Para isso, porém, todos precisam estar capacitados”. Papel da mídiaEntre os debates ocorridos após as ocorrências nas duas escolas, um deles diz respeito à forma como a mídia faz a cobertura e divulgação dos fatos. Alguns agressores se articulam em comunidades on-line onde há incentivo à violência, à misoginia e estão em plataformas de fácil acesso na internet. Em geral, os ataques são planejados, adotam métodos aprendidos na internet, muitas vezes em comunidades de subcultura extremista. Muitos são aliciados nos chats de plataformas de jogos on-line e são levados para comunidades onde são apresentados às ideias de extrema-direita. A motivação, muitas vezes, é se vingar e mostrar o próprio valor, fazendo o maior número possível de vítimas. E a intenção é ser visto, ser reconhecido pelo ataque. Então, a visibilidade alcançada na mídia é um dos efeitos desejados pelos agressores. Em cartilha divulgada nesta semana, a Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) recomenda evitar coberturas extensivas, que, muitas vezes, apresentam repetidamente as imagens do ataque, do agressor, contam a história de vida do agressor ou mostram detalhes do evento. O grupo sugere abordagens mais analíticas, que busquem entender as razões da violência na sociedade e nas famílias, e onde é preciso que as políticas públicas atuem. Detalhes no site www.jeduca.org.br. Crianças tem de ser ouvidas “Todos querem proteger as crianças, poupar o sofrimento e a dor após episódios assim, e é legítimo que assim seja, mas elas precisam ser ouvidas. Elas têm muito a dizer sobre tudo isso”, diz Simone Carvalho de Oliveira, doutora em Ciências da Saúde pela Unifesp, com foco em saúde de crianças e infâncias. Simone explica que as crianças são fonte primária de informação e, nem sempre com palavras, precisam expressar seus sentimentos, dar sua opinião e contribuir com o debate sobre a violência dentro e fora da escola. “As pessoas querem respostas rápidas e eficientes, mas, às vezes, é preciso ouvir todo mundo antes de adotar esta ou aquela medida.” Crianças pequenas nem sempre têm repertório de palavras suficiente para se expressar, mas podem se manifestar de outras formas, como pelo desenho. Na UME Colégio Santista, por exemplo, o desenho de um aluno de 9 anos chamou atenção da diretora, Liliane Rezende. Em uma atividade de pintura, ele escolheu uma cartolina preta e pintou apenas uma estrada com um carro em movimento e muita chuva. “Esse desenho diz muita coisa sobre como ele é e como vive. O desenho não tinha família, não tinha pessoas”.