'Invasão' da ostra tampinha no litoral brasileiro preocupa pesquisadores (Marília Cunha Lignon) Uma ostra originária da Ásia está se espalhando pelo litoral de São Paulo e ameaça espécies nativas, a biodiversidade dos manguezais e a atividade de comunidades tradicionais que dependem da pesca. Conhecida como “tampinha” pelo formato da concha, a Saccostrea cucullata já é encontrada entre Santa Catarina e Bahia e é alvo de um projeto coordenado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) para tentar controlar a expansão da espécie. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! A iniciativa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e reúne pesquisadores, órgãos públicos estaduais e federais e comunidades tradicionais. O projeto, denominado “Estratégias Integradas para o Controle da Ostra Exótica Invasora Saccostrea cucullata na Costa Paulista”, tem vigência de março de 2026 a fevereiro de 2030. Em ação realizada recentemente na Reserva Extrativista do Mandira, em Cananéia, no Vale do Ribeira, um mutirão retirou aproximadamente 250 quilos de ostras exóticas. Para A Tribuna, a pesquisadora e professora da Unesp de Registro, Marília Cunha Lignon, explicou que a proposta não consiste apenas na retirada das ostras. Segundo ela, os animais coletados são encaminhados para análises genéticas e estudos sobre possibilidades de aproveitamento da carne e das conchas. Além disso, a pesquisa também prevê a criação de protocolos para monitoramento e manejo da espécie. Espécie invasora A tampinha não é uma espécie originária do litoral brasileiro. A principal hipótese dos pesquisadores é que ela tenha chegado ao país transportada pela água de lastro de navios – utilizada para dar estabilidade às embarcações e que pode carregar organismos e larvas de diferentes espécies. A proximidade da região com grandes portos, como os de Santos e Paranaguá, no Paraná, é considerada um dos fatores que podem ter contribuído para a chegada da espécie. De acordo com Marília, a presença da Saccostrea cucullata na região é registrada cientificamente desde pelo menos 2014. No entanto, esse registro não permite determinar com precisão quando a espécie chegou ao litoral brasileiro. Consequências Conforme a pesquisadora, a principal preocupação está na competição por espaço e recursos. Ela cita características que podem favorecer sua expansão, como maior tolerância às condições ambientais, alta capacidade reprodutiva, dispersão de larvas e resistência a diferentes condições do ambiente. A espécie também forma agregados densos, dificultando a fixação das ostras nativas. Marília alerta que “em algumas áreas monitoradas, cerca de 80% das ostras encontradas pertencem à espécie invasora”. Segundo ela, o avanço da tampinha pode alterar a dinâmica dos manguezais e reduzir a presença da ostra nativa, além de afetar comunidades tradicionais que dependem da pesca e da coleta de ostras como fonte de renda. No entanto, o objetivo do projeto até 2030 não é necessariamente eliminar completamente a espécie do litoral. Marília explica que a ideia é manter a população sob controle, reduzindo os impactos ambientais e socioeconômicos provocados pela invasão. Hibridização Para isso, os pesquisadores precisam compreender melhor como a espécie se distribui, quais características favorecem sua expansão e como ela interage com as ostras nativas. Uma das frentes de investigação é a genética, através da coleta de exemplares de ostras invasoras, nativas e indivíduos com características que podem indicar um possível cruzamento entre as espécies. Material foi levado ao Laboratório de Tecnologia e Conservação de Alimentos da Unesp, em Registro (Marília Cunha Lignon) Esses animais serão submetidos a análises genéticas para verificar a relação entre as populações e investigar a possibilidade de hibridização. A expectativa é que os primeiros resultados dessas análises sejam obtidos em setembro. Aproveitamento Apesar de representar uma ameaça ambiental, a tampinha é uma espécie comestível. Os pesquisadores estudam justamente maneiras de aproveitar os animais retirados dos manguezais, evitando que todo o material coletado seja simplesmente descartado. In natura, a carne da espécie invasora é considerada menos palatável, segundo Marília. Depois de preparada, porém, pode ser utilizada em diferentes receitas, como farofa de ostra e arroz Mandirano. Espécie invasora pode ser aproveitada in natura ou em receitas como farofa de ostra e arroz Mandirano. (Marília Cunha Lignon) As conchas são outra possibilidade de aproveitamento. Ricas em carbonato de cálcio, elas estão sendo estudadas como uma possível fonte desse mineral e como forma de agregar valor ao material retirado durante as ações de controle.