Thiago começou a publicar vídeos mostrando o cotidiano na guerra em seu perfil no Instagram (Redes sociais/ @badboynaucrania) Morador de Iguape desde 2022, Thiago Morais da Silva Moita, de 35 anos, trocou a rotina no litoral de São Paulo pela guerra na Ucrânia. Em entrevista para A Tribuna, ele contou que decidiu se alistar no site da Legião Internacional após perder cerca de R\$ 340 mil em apostas on-line e afirmou que a mudança de vida foi uma forma de escapar do vício que havia tomado conta do seu dia a dia. (Veja vídeo mais abaixo) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Natural da cidade do Rio de Janeiro, Thiago morava no bairro Rocio, em Iguape, onde vive a família e também seu filho, cuja guarda passou a exercer após se mudar para o município. Segundo ele, a decisão de deixar o Brasil não foi motivada apenas pelo salário oferecido aos combatentes. “Eu queria sair da situação em que eu estava. Trabalhava, ganhava dinheiro, mas gastava tudo em apostas. Precisava fugir daquela prisão mental”, afirma. Thiago conta que se alistou pelo site da Legião Internacional e aguardou alguns meses até ser chamado. Em março deste ano, embarcou em um voo saindo de Viracopos, em Campinas, com destino a Portugal. Depois, seguiu para Amsterdã, na Holanda, e, por fim, chegou à Polônia, para entrar na Ucrânia. Antes de ser enviado para as missões, Thiago passou por um treinamento de aproximadamente dois meses. Segundo ele, eram cerca de 12 horas diárias de instruções sobre armamentos, montagem e desmonte de armas, explosivos e técnicas militares. Hoje, Thiago atua em missões de reconhecimento. Apesar de dizer que ainda não participou de confrontos diretos com soldados russos, convive diariamente com ataques de drones, mísseis e artilharia. “A guerra hoje em dia é muito eletrônica. É raro dar de cara com soldados russos. O maior perigo são os drones, os mísseis e a artilharia”, afirma. -Morador luta guerra Ucrânia (1.520857) Thiago revela que chegou a escapar da morte por duas vezes. Em um dos episódios, um míssil atingiu a casa onde estava alojado. “Caiu um míssil na minha casa. Dormi vários dias embaixo da cama, porque não havia bunker. Depois fui transferido para outro batalhão. Menos de uma semana depois, o vilarejo onde eu estava foi praticamente destruído”. Segundo Thiago, apenas após ser transferido para uma região considerada mais segura conseguiu voltar a dormir normalmente. “Passei muito tempo dormindo rezando para que uma bomba não caísse na minha cabeça”. Thiago era de Iguape e foi para a Ucrânia (Redes sociais/ @badboynaucrania) Rotina na guerra Thiago afirma que há muitos compatriotas atuando na Ucrânia e acredita que o número de brasileiros mortos no conflito seja muito maior do que o divulgado oficialmente. O morador de Iguape acrescenta que perdeu um amigo durante a guerra e que outros três brasileiros abandonaram o batalhão por não suportarem a pressão dos combates. Apesar do cenário tenso, Thiago diz que a convivência com militares de diferentes nacionalidades é tranquila e respeitosa. Sem intenção inicial de ganhar notoriedade, começou a publicar vídeos mostrando o cotidiano na guerra em seu perfil no Instagram, @badboynaucrania. Alguns conteúdos ultrapassaram 2,6 milhões de visualizações, enquanto outros superaram a marca de 1 milhão. Segundo Thiago, isso também passou a gerar uma renda extra. O nome do perfil surgiu quando ele ainda era criança, no Rio de Janeiro. Na época, Thiago e seus amigos tinham um grupo chamado "Os Badboys". Anos depois, já na Ucrânia, decidiu usar o nome "Badboy" em homenagem aquele grupo da infância. Segundo Thiago, seus amigos gostaram bastante da ideia. Pagamento na guerra Em relação à remuneração como combatente, segundo Thiago, os valores variam conforme a atuação. Até o mês passado, quem estava na linha de frente recebia cerca de 190 mil grívnias, aproximadamente R\$ 22 mil. Já militares fora das missões recebiam entre 120 mil e 130 mil grívnias, o equivalente a cerca de R\$ 12 mil ou R\$ 13 mil. De acordo com Thiago, os pagamentos devem aumentar neste mês, chegando a 400 mil grívnias, aproximadamente R\$ 46.450, para quem atua na linha de frente. Mesmo assim, ele faz um alerta: “Se for pelo salário, dá para ganhar dinheiro no Brasil. Aqui é brincar com a morte”. Perda de colega Thiago tem uma publicação em seu perfil mostrando seu ex-companheiro de guerra, chamado lisboa, que foi morto em um combate com os russos. Vício em apostas Antes de viajar, Thiago trabalhava com uma distribuidora de eletrônicos no Vale do Ribeira. Comprava produtos em São Paulo e ele mesmo realizava entregas em cidades da região, chegando a prometer entregas em até duas horas - esse era seu marketing, que em qualquer lugar do Vale do Ribeira o produro chegava neste tempo. A decisão de deixar o Brasil não foi motivada apenas pelo salário oferecido aos combatentes na Ucrânia (Redes sociais/ @badboynaucrania) Segundo Thiago, o negócio rendia bons resultados financeiros, mas tudo passou a ser comprometido pelo vício em apostas. Ele perdeu cerca de R\$ 340 mil no jogo Aviator, mais conhecido como "jogo do aviãozinho”, que consiste em ver um avião subir e ir dobrando seu dinheiro. Apesar de também ter obtido ganhos, Thiago diz que a ambição fez com que continuasse apostando até perder praticamente todo o dinheiro. “O dinheiro não rendia. Eu trabalhava e gastava tudo em aposta”. Hoje, Thiago acredita ter superado o vício e pretende retornar ao Brasil entre novembro e dezembro, durante o período de férias previsto no contrato. Depois disso, decidirá se permanece na Ucrânia ou se encerra definitivamente sua participação no conflito. Ao final da entrevista, Thiago deixou um recado para quem pensa em apostar. “Nunca apostem na vida. Hoje, várias casas de aposta oferecem dinheiro para eu fazer propaganda, mas eu nunca vou aceitar. Foi a pior coisa que aconteceu comigo e eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei”.