Manguezais do sistema Cananéia-Iguape são um 'cofre' de carbono (Marília Cunha Lignon) Debaixo da lama dos manguezais do sistema estuarino-lagunar de Cananéia-Iguape, no Vale do Ribeira, no litoral de São Paulo, existe uma espécie de “cofre de carbono” que impede o elemento de voltar à atmosfera. Segundo um estudo que analisou o estoque e o sequestro de carbono nesses ecossistemas, a região armazena cerca de 380 toneladas de carbono por hectare, número maior do que o encontrado em manguezais amazônicos. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a pesquisa, das 380 toneladas de carbono por hectare encontradas no ecossistema, cerca de 249 toneladas estão no carbono orgânico do solo. Para efeito de comparação, o estudo aponta 297,7 toneladas de carbono por hectare em manguezais do Norte do Brasil e 217,9 toneladas de carbono por hectare no Nordeste. No entanto, apesar do estoque total de carbono por hectare ser maior em Cananéia-Iguape, os manguezais amazônicos apresentam uma quantidade superior de carbono especificamente na biomassa acima do solo: 145,2 toneladas de carbono por hectare, contra 53 toneladas de carbono por hectare na região do Vale do Ribeira. Ou seja, o destaque dos manguezais de Cananéia-Iguape está principalmente no carbono acumulado no solo e abaixo da superfície, e não na quantidade de carbono presente nas árvores. O que há dentro da lama? A pesquisadora e professora da Unesp, Marília Cunha Lignon, que fez parte dos estudos, explica para A Tribuna que o solo do manguezal funciona como um grande reservatório, onde recebe continuamente sedimentos e matéria orgânica, que vão se acumulando ao longo do tempo formando diferentes camadas. “É como se fosse uma lasanha”, compara. De acordo com o estudo, aproximadamente 75% do material que compõe esse solo é formado por sedimentos minerais de origem fluvial, vindos principalmente do Rio Ribeira de Iguape. Por que esse carbono é importante? O carbono armazenado pelos manguezais faz parte do chamado carbono azul, termo utilizado para designar o carbono capturado e armazenado por ecossistemas costeiros, conforme explica Marília. As plantas retiram dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera durante a fotossíntese. Enquanto parte desse carbono fica incorporada à vegetação, outra parcela chega ao solo, onde pode permanecer armazenada por longos períodos. O estudo estima que o sistema Cananéia-Iguape seja responsável pelo sequestro de aproximadamente 160 mil toneladas de carbono por ano, considerando o solo, a biomassa lenhosa e o fluxo de carbono associado à queda de folhas. O que acontece se o manguezal for destruído? Marília conta que, quando o manguezal é degradado, parte do carbono que estava armazenado na vegetação e no solo pode ser liberada novamente para a atmosfera na forma de gases de efeito estufa. Ela destaca que, de acordo com os cálculos apresentados no estudo, a degradação poderia resultar em até 1.395 toneladas de CO₂ equivalente por hectare em emissões, considerando a perda do carbono armazenado na madeira e no primeiro metro do solo após uma perturbação. Além da perda do estoque já existente, a capacidade de retirar carbono da atmosfera também seria afetada. A pesquisa estima uma redução de aproximadamente 27 toneladas de CO₂ por hectare por ano no sequestro realizado pelo solo e pela biomassa após a degradação, além da alteração do fluxo de carbono relacionado à queda de folhas. Ameaças Segundo a professora, a ocupação humana próxima a áreas de manguezal pode alterar o funcionamento do ecossistema, pois a degradação de áreas florestais e mudanças na hidrologia da bacia próximas podem modificar a quantidade de sedimentos que chega ao estuário. Com menos sedimentos, o manguezal pode ter dificuldades para acompanhar a elevação do nível do mar. De acordo com Marília, esse processo pode ser intensificado diante das mudanças climáticas. Conforme o estudo, alterações na salinidade podem favorecer a substituição de manguezais por plantas de água doce. A mudança altera a estrutura das raízes e pode comprometer a capacidade do ecossistema de armazenar carbono no solo. Para a pesquisadora, a forma mais eficiente de evitar a perda desse estoque é simples: “evitar degradar e preservar o que já está lá”.