Apesar da proximidade geográfica entre os estados, os tremores registrados no litoral do Rio de Janeiro não oferecem risco à Baixada Santista (Divulgação e Vanessa Rodrigues) Os recentes tremores de terra registrados no litoral do Rio de Janeiro voltaram a levantar uma dúvida entre moradores da Baixada Santista: afinal, esses abalos podem representar algum risco para o litoral de São Paulo? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A resposta, segundo o professor e doutor em Geofísica da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Oleg Bokhonok, é tranquilizadora. Apesar da proximidade geográfica entre os estados, os eventos registrados no litoral do Rio de Janeiro possuem baixa magnitude e não oferecem risco direto para cidades como Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande, Cubatão, Bertioga, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. "Os tremores recentes no litoral do Rio de Janeiro apresentaram magnitudes baixas, entre 2 e 3. Eventos dessa intensidade normalmente não produzem efeitos perceptíveis na Baixada Santista", explica o especialista. Tremores no Rio e terremoto no Chile não têm relação Nos últimos meses, o Sudeste voltou a registrar episódios sísmicos distintos. Enquanto pequenos tremores ocorreram na costa do Rio de Janeiro, moradores de partes do Estado de São Paulo também relataram vibrações provocadas por um forte terremoto ocorrido no Chile. Apesar de ambos os acontecimentos envolverem ondas sísmicas, Bokhonok ressalta que eles possuem origens completamente diferentes. "O terremoto ocorrido no Chile foi sentido a distâncias realmente longas devido à sua elevada magnitude e à profundidade, o que favoreceu a propagação das ondas sísmicas. Até o momento, não há evidências de que os tremores registrados no litoral do Rio de Janeiro tenham relação com esse evento". Em outras palavras, um grande terremoto ocorrido na Cordilheira dos Andes pode fazer edifícios balançarem em partes do Brasil, enquanto pequenos tremores registrados próximo ao Rio de Janeiro dificilmente são percebidos até mesmo em cidades fluminenses mais distantes. Litoral de São Paulo pode registrar tremores? Embora muita gente associe terremotos apenas a países localizados sobre grandes placas tectônicas, o litoral de São Paulo também pode registrar pequenos sismos. Segundo Bokhonok, a Baixada Santista está inserida em uma região considerada de baixa atividade sísmica, onde os tremores costumam estar relacionados à reativação de antigas falhas geológicas existentes na crosta terrestre. Isso significa que eventos sísmicos podem ocorrer, mas normalmente apresentam baixa intensidade. O especialista lembra, porém, que já houve um episódio importante na região. Em 22 de abril de 2008, um tremor de magnitude 5,2 foi registrado no Oceano Atlântico, a aproximadamente 215 quilômetros ao sul de São Vicente. O abalo foi sentido em diversas cidades da Baixada Santista e demonstrou que eventos moderados podem ocorrer na margem continental brasileira. A sequência de notícias envolvendo tremores pode dar a impressão de que o Sudeste está entrando em uma fase de maior instabilidade geológica. Mas, segundo o geofísico, ainda não existem dados que permitam chegar a essa conclusão. "Não é possível afirmar, neste momento, que haja um aumento anômalo da atividade sísmica no Sudeste brasileiro". Para o professor da UniSantos, a sensação de que os tremores estão mais frequentes também pode estar relacionada ao avanço dos sistemas de monitoramento, que atualmente conseguem detectar e divulgar rapidamente eventos de pequena magnitude que antes poderiam passar despercebidos. Tremores no oceano podem atingir a Baixada Santista? Outra dúvida recorrente diz respeito aos sismos registrados em alto-mar. De acordo com Bokhonok, um tremor entre magnitude 2 e 3 ocorrido próximo ao litoral do Rio de Janeiro dificilmente seria sentido na Baixada Santista. "Em geral, apenas eventos de maior magnitude têm potencial para serem percebidos a essa distância". Mesmo nesses casos, a possibilidade de impactos significativos depende de diversos fatores, como profundidade, localização e intensidade do sismo. Existe risco de um grande terremoto no litoral de São Paulo? Embora a possibilidade nunca possa ser totalmente descartada, ela é considerada baixa. Segundo o pesquisador, a ocorrência de um terremoto de maior magnitude na costa de São Paulo é um cenário pouco provável dentro das características geológicas do Brasil. Ainda assim, o geofísico lembra que eventos moderados podem acontecer eventualmente, como em 2008. O que poderia acontecer se um tremor forte atingisse a Baixada Santista? Caso um evento sísmico de maior intensidade ocorresse próximo ao litoral de São Paulo, os impactos dependeriam principalmente das características das construções e do tipo de solo. Segundo Bokhonok, de maneira geral, os danos tendem a ser maiores em edificações antigas ou construídas sem critérios adequados de engenharia. No caso da infraestrutura portuária, estruturas como píeres, cais, tanques e dutos também precisariam passar por inspeções após um tremor significativo. Dependendo da magnitude do evento e das características do terreno, também poderiam ocorrer escorregamentos em áreas de encosta e outros danos localizados. O especialista ressalta, entretanto, que não há elementos suficientes para fazer uma avaliação específica da vulnerabilidade das cidades da Baixada Santista. Não há motivo para alarmismo Apesar das notícias envolvendo tremores no Sudeste, Bokhonok afirma que não existe motivo para preocupação da população do litoral de São Paulo. "O cenário permanece compatível com a normalidade geológica brasileira, caracterizada por baixa atividade sísmica". O especialista destaca, contudo, que isso não significa que um evento de maior magnitude possa ser completamente descartado, embora essa possibilidade seja considerada reduzida. Na avaliação do pesquisador, o caminho mais importante é ampliar o conhecimento científico sobre a região. "A recomendação é fortalecer e ampliar o monitoramento contínuo dos eventos sísmicos, investir em boas práticas de engenharia e incentivar pesquisas voltadas ao estudo da sismicidade da Baixada Santista". Segundo o professor da UniSantos, essas iniciativas permitem aperfeiçoar a avaliação dos riscos geológicos e fornecer informações cada vez mais confiáveis para a população. Relembre casos marcantes A Baixada Santista já sentiu reflexos de importantes abalos sísmicos nas últimas décadas. Em abril de 2008, um tremor de magnitude 5,2 no Oceano Atlântico, com epicentro a cerca de 215 quilômetros ao sul de São Vicente, foi percebido em praticamente todas as cidades da região durante alguns segundos. Ao longo dos últimos anos, a Baixada também registrou reflexos de terremotos ocorridos na Bolívia, Argentina e Chile, além de pequenos tremores com epicentros no próprio Estado de São Paulo, reforçando que, embora o Brasil esteja em uma área de baixa atividade sísmica, abalos de diferentes origens podem eventualmente ser sentidos pela população.