A maior parte da internação de Tancredo se passou no Instituto do Coração, em São Paulo, onde jornalistas esperavam notícias (Carlos Marques/AT/Arquivo e Araquém Alcântara/AT/Arquivo) Em 21 de abril de 1985, a morte do presidente Tancredo Neves fez o Brasil chorar. Eleito em 15 de janeiro daquele ano, em eleição indireta no Congresso Nacional, após derrotar Paulo Maluf por 480 votos a 174, era o sopro de novos tempos após 21 anos de regime militar. Tancredo, porém, foi internado na véspera da posse — o vice, José Sarney, assumiu em 15 de março. Submetido a sete cirurgias — duas em Brasília, no Hospital de Base, e cinco em São Paulo, no Instituto do Coração —, teve como causa oficial da morte diverticulite, doença inflamatória no intestino grosso. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O atual secretário-executivo de Estado da Justiça e Cidadania, Raul Christiano, era filiado ao PMDB, atual MDB, e chefe de gabinete de Nei Serra, então prefeito nomeado de Cubatão — a Cidade foi área de segurança nacional até 1985. Eles viajaram a Brasília de carro para assistir à posse. “Quase 15 horas de viagem. Chegamos à Capital minutos após a missa, na véspera da posse, em 14 de março, e pelo rádio do carro soubemos que Tancredo fora internado”, relembra. A sensação imediata foi de frustração e expectativa de que fosse algo passageiro. “Desde janeiro, Tancredo havia cumprido agenda fortíssima de visitas a líderes mundiais no estrangeiro. Podia ser um estresse ou um desarranjo de saúde, que aparentava ser sempre boa”, descreve Raul. “Brasília estava parada, pasma.” Em 1984, Christiano havia participado de todos os comícios pelas Diretas Já, incluindo o de 25 de abril, o da decepção com a derrota, na Câmara, da emenda do deputado Dante de Oliveira. Assim, tomaram outro rumo. “Era impossível ir a Brasília para esse momento histórico do Brasil e ver José Sarney, que até então era o presidente nacional do PDS, partido que sucedeu a Arena, que apoiava os governos militares. Demos meia-volta no dia 15 de março e fomos a Goiânia conhecer o programa habitacional de Íris Rezende (então governador), com intenção de trazer o modelo para Cubatão, que tinha um déficit de mais de 10 mil moradias.” Os dias que antecederam à morte de Tancredo Neves foram penosos, “embora José Sarney estivesse exercendo a presidência ainda preso aos compromissos de mudanças assumidos pela Aliança Democrática que unia a expressiva maioria dos partidos políticos, exceto o PT.” Reflexões A ex-prefeita de Santos e, na época, vereadora Telma de Souza, fundadora do PT, também esteve em mobilizações daquele momento. “Com a eleição indireta de Tancredo, o PT tinha uma postura de oposição, até por discordar do Colégio Eleitoral e seguir na luta pela eleição direta do presidente do Brasil. Mas claro que os problemas de saúde do presidente eleito, horas antes da posse, foram motivos de preocupação, até pelas incertezas quanto ao que os militares poderiam fazer em caso de impossibilidade de o ex-governador de Minas assumir a Presidência por estar internado.” O agravamento do quadro de saúde de Tancredo fez vir à mente de Telma a morte de Esmeraldo Tarquínio, em novembro de 1982. Ele fora eleito prefeito de Santos em 1968 e teve os direitos políticos suspensos no ano seguinte, antes da posse. A despedida do mineiro de São João Del-Rei fez com que ela refletisse. “Na noite de domingo em que se anunciou a morte de Tancredo, estava em casa e refleti muito sobre o sofrimento da população brasileira, que mal havia saído de uma ditadura e agora enfrentava mais um trauma. Apesar da oposição de meu partido ao novo governo, lembro de ver o companheiro Lula (atual presidente da República) em uma reunião sindical lamentando toda a situação, dizendo que era um momento muito triste acompanhar o martírio de um homem que representava a esperança de um povo com tempos melhores para si mesmo.” A morte do presidente Tancredo Neves abalou a legitimidade do novo regime, avalia Raul Christiano. E a Aliança Democrática não conseguia efetivar um programa bem definido sobre o papel do Estado. “Era a chamada Nova República, que abriria o caminho para uma Assembleia Nacional Constituinte e para as eleições diretas para presidente da República. No entanto, nos primeiros meses percebíamos que Sarney havia optado por ser o último presidente da Velha República, ao invés de ser o primeiro da nova.”