Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Federal do Paraná (IFPR) constatou que sete em cada dez tainhas da região de preservação ambiental de Cananéia, no Vale do Ribeira, área do Litoral de São Paulo, apresentam fragmentos plásticos em seu sistema digestivo. Isso acende um alerta sobre o risco de contaminação de seres humanos por microplásticos, que podem ter efeitos nocivos à saúde, como o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e danos neurológicos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O estudo realizado pela IFPR é o primeiro no mundo que se dedicou a analisar a presença de microplásticos em tainhas, peixe bastante comum no Litoral de São Paulo e na alimentação da população da Baixada Santista. Os microplásticos são pequenos fragmentos que se desprendem de pedaços maiores de plásticos como garrafas, sacolas, filmes e roupas de tecidos sintéticos. “Eles podem entrar no corpo humano e atingir, basicamente, todos os nossos órgãos”, explica o médico Rodrigo Bueno de Oliveira, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo Bueno, o contato com microplásticos, seja por ingestão, inalação, na pele e até mesmo na corrente sanguínea, é motivo de atenção para médicos e pesquisadores. O especialista coordena o Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia, que realiza uma pesquisa sobre os efeitos dos microplásticos em células ósseas e em outros contextos de doenças que afetam os seres humanos. Investir em estudos sobre esse tema é uma tendência mundial para garantir um futuro mais saudável no mundo todo. Já existem diversas pesquisas científicas voltadas a entender os efeitos dos microplásticos em células e animais, onde os resíduos costumam causar inflamação, aumento do estresse oxidativo e diversas perturbações no metabolismo. A compreensão desses efeitos em seres humanos ainda é limitada, mas já há indicações de que são bastante nocivos à saúde humana. Existem pesquisas científicas confiáveis que demonstraram um aumento de mais de quatro vezes do risco para doenças cardiovasculares em pessoas que possuíam microplásticos em lesões ateroscleróticas dos vasos sanguíneos”, diz o especialista. Diversas pesquisas estão em curso sobre os efeitos dos resíduos plásticos nos rins, ossos e tecidos do nosso organismo. Há, ainda, estudos sobre a contaminação de outros seres vivos, como os peixes. Mas, ao contrário do que se pode pensar, não é só por causa da alimentação humana que a descoberta traz um alerta sobre a contaminação por resíduos plásticos: as tainhas, por exemplo, se alimentam principalmente de algas presentes no lodo marítimo. Se foi possível encontrar microplásticos nelas, isso pode indicar que a poluição nas águas é maior do que se imagina. Cientistas pesquisam tainhas em Cananéia (Arquivo pessoal) Surpresa desagradável Foi uma surpresa para os pesquisadores encontrarem tão facilmente os microplásticos no sistema digestivo das tainhas. Tanto porque a maioria do material digestivo dela é composto por lama, o que dificulta a análise, quanto porque a pesquisa foi conduzida em uma área de proteção ambiental. “Isso é uma coisa que assustou. Inicialmente, pensamos que teríamos mais dificuldade para encontrar [os microplásticos], e não tivemos”, afirma a pesquisadora Gislaine Filla, coautora do estudo, professora de Biologia e coordenadora de Pesquisa e Inovação no IFPR. É provável que áreas que não estejam sob proteção ambiental possuam índices maiores de contaminação. Os pesquisadores, inclusive, pretendem fazer novos estudos em outras áreas para comparar os resultados. Para conduzir o levantamento, 57 tainhas coletadas do Complexo Estuarino Lagunar de Cananéia foram coletadas com o apoio de pescadores locais durante anos. A maioria dos resíduos plásticos encontrados nos peixes é de microfibras de nylon utilizadas, justamente, pela pesca, atividade ligada à subsistência local. Os peixes ingerem esse material de forma acidental. Mas há muitas outras formas de gerar microplásticos, que são bastante familiares no cotidiano. Uma coisa que contamina e é muito pequena, por exemplo, é o plástico que sai da lavagem das nossas roupas. As fibras saem pela máquina de lavar e podem cair na natureza. Microesferas de cosméticos esfoliantes também são plásticas. Então, mesmo que de forma inconsciente, nós estamos poluindo o ambiente marinho”, diz a pesquisadora. Animais que comem coisas pequenas se alimentam desses resíduos, e humanos que comem esses peixes podem estar em risco. A ameaça não é, necessariamente, o microplástico em si, mas as substâncias químicas utilizadas para colorir uma embalagem de um alimento industrializado, por exemplo. Isso pode proporcionar uma contaminação indireta: um ser humano pode colocar sua saúde em risco ao ingerir uma tainha intoxicada pela substância química de um plástico. “Tudo isso é absorvido pelos peixes. Quando eles se alimentam, vai na corrente sanguínea; então, essas substâncias químicas podem chegar na parte que a gente come”, explica Gislaine. Não existe jogar fora A pesquisadora do IFPR destaca, diversas vezes, que a descoberta do estudo não é motivo para pânico da população, mas, sim, um alerta, com base na ciência, sobre a urgência de se fazer um uso mais inteligente do plástico. É preciso entender que não existe jogar o lixo fora — o descarte sempre vai parar em algum lugar. Tudo, hoje em dia, é plástico. E se eu sei que os microplásticos estão chegando nos animais, e até nos vegetais; inclusive até as algas que nem se alimentam já têm plástico em seus interiores, imagina o tamanho do problema. A única forma é a gente evitar colocar mais. Há uma falsa impressão de que a reciclarem é a solução, mas a pergunta é: tem alguém reciclando?”, questiona Gislaine.