A sustentabilidade já é uma realidade no setor imobiliário da Baixada Santista, mas empregá-la em larga escala envolve custos, adotar tecnologias e conquistar o comprador em potencial. Enquanto soluções como lâmpadas de LED, sensores de presença e sistemas de captação de chuva já aparecem em empreendimentos locais, sistemas mais complexos para melhorar o desempenho térmico das fachadas ou ampliar o reaproveitamento de água ainda enfrentam barreiras. Para representantes do setor, o desafio é fazer com que os edifícios mantenham práticas sustentáveis durante toda a vida útil, e não apenas na etapa da obra. O sócio-diretor da construtora Engeplus, Roberto Luiz Barroso, avalia que o setor está no início do processo. Segundo ele, o custo de uma construção que reúna um conjunto amplo de soluções sustentáveis continua elevado, principalmente quando depende de materiais importados. Mesmo assim, ele afirma que medidas mais acessíveis já foram incorporadas aos projetos e passaram a fazer parte da disputa entre as empresas. “Posso dizer que a gente está engatinhando nesse cenário da sustentabilidade, até porque o custo para fazer uma obra realmente sustentável é muito caro. Dependemos de materiais de fora, materiais caríssimos”. Ele ressalta que as construtoras têm adotado iniciativas que ajudam a diminuir o consumo de recursos e a conta do condomínio. Entre as medidas estão os painéis fotovoltaicos, instalados nas áreas disponíveis das coberturas para gerar energia destinada ao uso do condomínio. A Engeplus também utiliza sistemas de reaproveitamento de água da chuva. De acordo com Barroso, a empresa implantou a solução em um edifício residencial há mais de 30 anos, quando, segundo ele, a tecnologia era encontrada principalmente em prédios comerciais. A água captada pode ser direcionada a atividades que não exigem abastecimento potável, como lavagem de áreas comuns e, quando o sistema permite, descargas do banheiro. Barroso considera que o volume de chuvas em Santos favorece esse tipo de estrutura. A economia também começa antes da entrega das chaves, os projetos procuram aproveitar a iluminação e a ventilação naturais, com janelas maiores dentro dos limites permitidos, além de utilizar lâmpadas de LED. É preciso conscientizar o morador Segundo o diretor de Meio Ambiente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (Aeas), Claudio Bastos, para o avanço da sustentabilidade nos edifícios da região, ainda em estágio inicial, é necessário conscientizar construtores, síndicos e moradores sobre as possibilidades e os benefícios. Ele conta que a Aeas pretende transformar sua sede, na Rua Dr. Artur Porchat, em um exemplo de adaptação. A associação discute a instalação de painéis para geração de energia fotovoltaica e desenvolve um projeto de reaproveitamento da chuva para usos que não exigem água potável. Bastos defende que a sustentabilidade seja considerada desde a concepção do projeto. Nessa etapa, é possível prever entrada de luz natural, ventilação, geração de energia renovável, dispositivos economizadores e mecanismos para detectar vazamentos. Também entram na conta a escolha dos materiais, a gestão dos resíduos e a compostagem de resíduos orgânicos. “Quando se está em uma etapa ainda de projeto, escolhe-se materiais que são sustentáveis, que emitem menos gases de efeito estufa”, diz. Para ele, a adoção dessas alternativas depende de aproximar pesquisas, profissionais e empresas para que as soluções cheguem aos empreendimentos. Bastos cita duas certificações que avaliam o desempenho sustentável de edificações – a Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) e a francesa Aqua, certificada no Brasil pela Fundação Vanzolini, da Escola Politécnica da USP. Conforme ele, um edifício Leed em Santos é o prédio comercial da Petrobras, no Valongo. Bastos acredita que os empreendimentos certificados na Cidade são comerciais, sem residenciais. Para ele, a verticalização de Santos é uma chance de ampliar práticas sustentáveis nos condomínios. A entidade apoia o Prêmio ESG nos Condomínios, iniciativa que reconhece ações ambientais, sociais e de governança. Bastos defende incentivos públicos para haver mais sustentabilidade nos projetos. Ele cita o IPTU Verde de Salvador (BA), que concede benefícios tributários a imóveis com esses artifícios. A possibilidade de adotar política semelhante na região exigiria estudos sobre o impacto na arrecadação e no equilíbrio fiscal. “Eu acho que a gente começa a tracionar mais quando realmente consegue mexer no bolso, quando consegue incentivar com esse estímulo econômico, da isenção tributária”, afirma. Investimento e retorno Além da economia de água e energia, o diretor de Meio Ambiente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (Aeas), Claudio Bastos, destaca a permeabilidade dos terrenos. Com chuvas mais intensas, jardins de chuva e áreas vegetadas permitem que parte da água infiltre no solo, em vez de seguir diretamente para as redes de drenagem. Fachadas, muros e telhados verdes também ajudam no conforto térmico e podem amenizar ilhas de calor em cidades verticalizadas como Santos. Na sede da Aeas, uma simulação apontou economia de 12% na conta de energia já no primeiro mês de locação. Na compra do sistema, com orçamento de R\$ 300 mil a R\$ 400 mil, Bastos estima retorno em dois a três anos. O prazo varia conforme o consumo, o tamanho da instalação e as condições do projeto. “Quando põe na ponta do lápis, você vê que tem viabilidade”. Ele afirma que dúvidas sobre a eficiência dos painéis no Litoral, por causa da maresia, da umidade e do sombreamento provocado por prédios vizinhos, podem afastar interessados antes mesmo de uma avaliação técnica. Para ele, é necessário ampliar o acesso à informação e mostrar resultados concretos. Teixeira: implantação gradual (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Preço e localização ainda pesam mais na decisão de compra O presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Mateus Teixeira, avalia que a sustentabilidade vem sendo incorporada de forma gradual ao setor. Contudo, Teixeira pondera que o consumidor ainda não costuma escolher um imóvel principalmente por seus atributos sustentáveis. Preço, localização, padrão construtivo, infraestrutura e financiamento continuam tendo peso maior na decisão. Mesmo assim, as soluções ambientais agregam valor quando melhoram o conforto, reduzem o consumo de água e energia e os custos de operação. Entre as soluções já presentes em muitos empreendimentos, ele cita iluminação LED, sensores de presença, captação de águas pluviais, descargas com duplo acionamento e sistemas fotovoltaicos destinados às áreas comuns. Teixeira afirma que não há um percentual único para medir quanto a sustentabilidade encarece uma obra. O impacto depende das tecnologias escolhidas, do padrão construtivo e das condições de implantação. Soluções já incorporadas à rotina do setor, como LED e dispositivos economizadores de água, tendem a integrar o orçamento habitual. Sistemas mais complexos podem exigir investimentos adicionais e, quando elevam os custos, podem refletir no preço final do imóvel, embora não haja repasse automático. Teixeira explica que a captação de chuva pode abastecer descargas, lavagem de pisos e irrigação, desde que a água passe pelo tratamento previsto no projeto. Já o reúso de águas cinzas, vindas de chuveiros e lavatórios, ainda não é adotado em edifícios residenciais. Sensores e automação também ajudam a controlar iluminação, bombas e equipamentos, reduzindo o consumo. Impacto no orçamento O sócio-diretor da construtora Engeplus, Roberto Luiz Barroso, afirma que os investimentos em soluções sustentáveis já adotadas, como painéis solares e reaproveitamento de água, têm impacto pequeno no orçamento total das obras. Na avaliação dele, podem representar 1% ou menos. Esse custo, diz, é absorvido pela própria construtora, sem repasse direto ao comprador. “Quem não fizer essas ações de sustentabilidade acaba não vendendo. O mercado é competitivo. Se o meu prédio não tiver, o do vizinho vai ter”, afirma. Segundo o construtor, os clientes passaram a considerar a possibilidade de economizar nas contas do condomínio e de ter infraestrutura para carregar veículos elétricos. O empresário diz que esses itens podem influenciar a decisão de compra. A situação muda quando se trata de edifícios com soluções mais sofisticadas, como fachadas com camadas especiais de vidro e sistemas avançados de controle térmico. Nesses casos, Barroso não estima um percentual de aumento, mas avalia que o custo pode ser expressivo. “Se for realmente fazer tudo isso, todo o potencial que pode, aí o impacto vai ser bem grande”.