Cidades costeiras podem ter condições mais propícias a chuvas intensas e alagamentos (Alexsander Ferraz/ AT) A possibilidade de formação de um Super El Niño no próximo semestre põe órgãos de monitoramento climático e de Defesa Civil em estado de atenção. Embora ainda haja incertezas sobre a intensidade do fenômeno, especialistas alertam que cidades costeiras como Santos podem enfrentar condições mais propícias à ocorrência de chuvas intensas, alagamentos, ressacas e ondas de calor, caso as projeções atuais se confirmem. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os principais órgãos meteorológicos do Brasil e do exterior têm monitorado a formação desse fenômeno desde o início do ano, prevendo que as ocorrências podem se intensificar até o primeiro semestre de 2027. Na semana passada, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou nota técnica com informações sobre os efeitos que o fenômeno pode causar no País. Modelos climáticos internacionais sugerem que o evento pode, até, superar o famoso El Niño de 1997/1998 e alcançar níveis comparáveis ou superiores aos maiores registros da era moderna. Embora o documento não apresente projeções específicas para a Baixada Santista, os efeitos tradicionalmente associados aos episódios mais fortes de El Niño incluem mais chuvas no Sul e em parte do Sudeste do Brasil. Para regiões litorâneas e áreas urbanizadas próximas a morros, como Santos, São Vicente e Guarujá, essas situações representam um cenário que exige acompanhamento permanente dos órgãos de monitoramento. Nobre: águas estão mais quentes (Divulgação) O que é O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A nota técnica do Cemaden informa que o fenômeno já está em desenvolvimento abaixo da superfície oceânica e que todos os estudos de centros meteorológicos internacionais convergem para um forte aquecimento. O climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), explica que eventos mais intensos do El Niño são fenômenos naturais e que já ocorreram em outras ocasiões, como em 2015/2016 e em 2023/2024. Mas, agora, o cenário preocupa porque as águas do Pacífico já estão mais quentes em função das mudanças climáticas, o que potencializa os efeitos, como as ondas de calor, chuvas fortes e períodos de estiagem prolongados. Nobre alerta, porém, que não é possível prever desde já a ocorrência de enchente, temporal ou deslizamento específico. O que os modelos indicam é uma mudança nas probabilidades climáticas, servindo como ferramenta para orientar planejamento, prevenção e preparação dos órgãos públicos. Onias: organismos acompanham; Alexandra: “Vamos observar” (Alexsander Ferraz/ AT e Divulgação) Profissionais advertem que não deve haver alarmismo A Defesa Civil na região e os especialistas que acompanham as questões climáticas estão em alerta, mas pedem cautela em relação a alarmismos, pois os reais impactos do fenômeno ainda não estão dimensionados. Daniel Onias, responsável pela Defesa Civil em Santos, afirma que desde o início do ano os organismos meteorológicos do País acompanham prognósticos do El Niño e que a possibilidade de impactos no País já existia. “Mas ainda não sabemos se serão intensos, moderados ou muito fortes”, diz. Onias diz que a Defesa Civil de Santos já tem montado o Plano Municipal de Redução de Riscos, prevendo ações não só para eventos como o El Niño, como outros fenômenos climáticos. O plano, segundo ele, envolve secretarias municipais, como as de Meio Ambiente, Obras e Assistência Social. Entre as obras destacadas como prioritárias, estão a desobstrução de galerias ou, se necessário, construção de novas em áreas mais críticas, reforço de encostas de morros e planejamento para eventual remoção de famílias. Em vigília A coordenadora do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Unisanta, Alexandra Sampaio, também pede cautela com alarmismos. “Monitoramos bem de perto as informações e fazemos os alertas às defesas civis com bastante cuidado. Há previsão, sim, mas ainda não temos ideia da dimensão dos efeitos”, reforça ela. Alexandra cita o El Niño de 2015/2016, que teve eventos extremos com maré alta e ressacas, gerando seis estados de alerta e 17 estados de atenção. “Vamos observar os cenários e fazer os alertas com informação correta. A confiabilidade dessas informações é o que faz os alertas à população terem credibilidade”, diz.