[[legacy_image_204753]] Mais de dois anos de pandemia da covid-19 e todos os impactos que ela trouxe para o cotidiano de milhões de pessoas fazem deste Setembro Amarelo o momento oportuno para espalhar nos variados ambientes da sociedade um debate urgente: a saúde mental e as consequências do não-tratamento, entre elas, o caso extremo do suicídio. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Os números falam por si. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), cresceu 37% o número de atendimentos ambulatoriais envolvendo problemas psíquicos, jovens e idosos de forma predominante. Bruno Reis, psiquiatra da Santa Casa, aponta um dado local: o ambulatório do hospital atendia, antes da pandemia, um ou dois casos por semana envolvendo jovens entre 14 e 18 anos. Hoje, são cerca de dois casos por dia, muitos sofrendo de ansiedade, depressão e vítimas de auto-mutilação, abuso de medicação ou mesmo tentativas de suicídio. “O relato é de não saberem lidar com as emoções, com as frustrações”, diz. Bruno Reis aponta as redes sociais como fatores que potencializam esse quadro, ao darem a falsa impressão de que a realidade dos outros é melhor do que a sua. O especialista chama a atenção para a relação com a família, já que muitos pais não sabem como lidar com esse quadro. “Muitos acham que é frescura do filho. Não é frescura. É preciso dar atenção”. Afastamentos No público adulto, aponta o psiquiatra, os transtornos psíquicos já são a causa da maioria dos afastamentos de trabalho, gerando não só prejuízo financeiro, como às relações pessoais, familiares e de aprendizado. Outro dado vem da Organização Mundial de Saúde: o Brasil é o país com maior diagnóstico de ansiedade em relação à população: 9% sofrem desse mal. “São dados que estão disponíveis para pesquisa e mostram como ainda não estamos preparados para enfrentar”. Não há distinção entre homens e mulheres, diz Bruno Reis: um para um, igualmente. Mas o psiquiatra destaca o aumento de casos de burnout, traduzido como estresse excessivo e prolongado que pode prejudicar a saúde se não for resolvido e abre caminho para outras doenças. Essa síndrome está ligada ao trabalho e seus excessos. “Geralmente, atinge pessoas entre 30 e 55 anos”. Dinheiro e afetoPessoas mais velhas também estão entre o público que mais procura o serviço de atendimento psiquiátrico, diz o especialista. “As frustrações, muitas vezes, estão relacionadas às questões financeiras em um primeiro momento, e também ao abandono afetivo, desconexão com os familiares. As relações estão muito líquidas”. Bruno Reis aponta caminhos para que os transtornos mentais não cheguem ao extremo: dormir bem, alimentação equilibrada, atividade física e socialização. Os medicamentos também são usados quando necessário, mas eles não excluem as demais atividades listadas. Saber identificar O trajeto do paciente com saúde mental debilitada é complicado, aponta o especialista. Às vezes, nem mesmo os casos de tentativa de suicídio recebem encaminhamento adequado nos hospitais, sejam eles públicos ou privados. “Às vezes, o paciente chega com síndrome do pânico, com sensações físicas, taquicardia, ofegando. O médico pede todos os exames e constata que não há problema algum, diz para o paciente que ele não tem nada e manda pra casa. Aquele quadro pode já ser um indicativo de que precisa receber outro tipo de encaminhamento”. Por essa razão, explica, é importante que equipes que atuam na linha de frente, nas emergências e prontos-socorros sejam treinadas para identificar sinais de transtornos mentais que podem ser agravados. Preciso de ajuda E como identificar em si mesmo sinais de que precisa de ajuda? Silvia Calógeras, psicóloga, conselheira profissional de saúde de Santos da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), aponta para a diferença entre uma tristeza passageira e aquela persistente. “A tristeza continuada, que não passa, e que vai se intensificando é um sinal de alerta”. Silvia também faz outro alerta: não minimizar as falas que chegam do outro. “É comum as pessoas criticarem as queixas dos outros, dizer que não há motivo para tristeza, que tem tudo na vida. Esse é um peso a mais em quem já não está bem. Joga a pessoa mais para baixo. Acolher, ouvir e encaminhar é o melhor que se pode fazer”. Para pedir ajuda, basta ligar 188Dividir as angústias, as dores da alma e as tristezas é um caminho para aliviar a mente e tranquilizar o coração. Há mais de 60 anos é esse o objetivo do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende gratuitamente e de forma sigilosa quem queira fazer uso do telefone (número 188), do chat ou mesmo do e-mail. A maior parte dos atendimentos, porém, é mesmo pelo 188, com ligação gratuita e sem limite de tempo para todo o Brasil. Renato Caetano de Jesus, voluntário do CVV em Santos, diz que, por dia, são mais de 10 mil ligações no Brasil. Não é possível fazer um recorte regional porque o atendimento é em rede, ou seja, quem liga daqui pode ser atendido por um voluntário de qualquer parte do Brasil. São 30 mil horas de atendimento Brasil afora, diz Renato. O site do CVV expõe com clareza a relevância do Setembro Amarelo para o debate sobre suicídio: “O suicídio é um problema de saúde pública, tirando a vida de uma pessoa por hora no Brasil, mesmo período no qual outras três tentaram se matar. Trata-se de um problema que se pode prevenir na grande maioria das vezes e esse é um dos maiores esforços do CVV. O estudo e a discussão do tema são uma forma eficiente de se promover a prevenção, pois esta só é possível quando a população, os profissionais da saúde, os jornalistas e governantes têm informações suficientes para conduzir as medidas adequadas”. Um minuto, uma hora Renato explica que o contato do voluntário com a pessoa que busca ajuda pode durar qualquer tempo. “Tem gente que liga e fala por cinco minutos e já se sente bem. Tem quem precise conversar por mais de uma hora”. Como não são profissionais da saúde, os voluntários não prescrevem nenhum tratamento e não apontam caminhos para a solução dos problemas emocionais. “Ao falar, muitas pessoas já conseguem fazer suas reflexões, encontrar saídas. Falar faz toda a diferença”, diz. Silêncio fecundoTodos os voluntários do CVV passam por minucioso treinamento antes de iniciarem o trabalho. Renato Caetano diz que o ato de escutar e não interferir na fala já é um exercício difícil. “No dia a dia, nas conversas, as pessoas sempre querem dar palpites, ajudar a resolver um problema. Como voluntário do CVV, você precisa exercitar o silêncio fecundo. Sentir-se acolhido e ouvido é muito bom”. O site do CVVdispõe de vários links com sites úteis quando o assunto é ajuda emocional e psicológica, e também uma cartilha completa sobre como lidar com o tema suicídio.