As margens do rio são ocupadas por construções irregulares, como o Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do Brasil (Irandy Ribas/Arquivo AT) O Rio dos Bugres, que fica entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, foi classificado como o segundo mais contaminado por microplásticos no mundo. A conclusão vem de um estudo publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin, realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e do Instituto EcoFaxina. Ele perde apenas para o Rio Pasur, em Bangladesh, na Ásia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Um dos pontos analisados no rio apresentou mais de 93 mil partículas de microplástico por quilograma de sedimento, enquanto outros dois registraram 62 mil e 43 mil partículas por quilo. Em comparação com mais de 100 corpos d'água pesquisados, o Rio Pasur, em Bangladesh, registrou 157 mil partículas por quilograma de sedimento. No entanto, o estudo sobre o Rio Pasur foi recentemente removido pela editora científica Elsevier devido a suspeitas de fraude na revisão, o que coloca os dados do Rio dos Bugres entre os mais alarmantes já registrados. O Rio dos Bugres faz parte do sistema estuarino de Santos e São Vicente, uma área de transição entre água doce e salgada. Suas margens são ocupadas por construções irregulares, como o Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do Brasil, onde vivem cerca de 20 mil pessoas. O descarte irregular de esgoto e resíduos diretamente no rio é um problema grave e contínuo. Segundo o Instituto EcoFaxina, a baixa circulação de água no rio contribui para o acúmulo de plástico, que fica retido sob as palafitas e nas raízes do mangue. Os microplásticos são partículas com menos de 5 mm de diâmetro, resultantes da degradação de materiais plásticos. Além do descarte direto no meio ambiente, hábitos cotidianos, como lavar roupas sintéticas, também contribuem para a contaminação, já que as partículas chegam aos rios e oceanos pelo esgoto. Essas substâncias já foram encontradas em locais remotos, como o Ártico e o Monte Everest, e até no corpo humano, em órgãos como pulmão e cérebro. A poluição plástica afeta a vida marinha e a saúde humana. Peixes, camarões e golfinhos ingerem essas partículas, e moradores das margens do rio consomem animais que podem estar contaminados. À Folha, a pesquisadora Duclerc Parra, do Ipen, alertou que o plástico não é metabolizado pelo organismo e pode causar distúrbios hormonais, neurológicos e circulatórios. Seis pontos contaminados A pesquisa analisou dez pontos no sistema estuarino, e seis deles figuram entre os dez locais com maior concentração de microplásticos no mundo. Além do Rio dos Bugres, áreas como a Ilha do Barnabé, o Rio São Jorge e o Rio Casqueiro também apresentaram altos índices de contaminação.