Profissionais da rede municipal de saúde de São Vicente correm risco por falta de dosímetros individuais, equipamentos utilizados para monitorar a exposição à radiação (Divulgação / Prefeitura de São Vicente / Reprodução) Profissionais de radiologia da rede municipal de saúde de São Vicente, no litoral de São Paulo, estão trabalhando há mais de seis meses sem receber dosímetros individuais, equipamentos obrigatórios utilizados para monitorar a quantidade de radiação ionizante à qual os trabalhadores são expostos durante suas atividades. A situação tem provocado preocupação entre os funcionários e seus familiares, principalmente pelos possíveis riscos à saúde a longo prazo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A denúncia foi encaminhada à reportagem de A Tribuna por um técnico de radiologia da rede municipal, que pediu para não ser identificado. Segundo ele, a falta dos equipamentos já compromete a tranquilidade dos profissionais, que continuam realizando exames de raio X sem o acompanhamento individual das doses de radiação recebidas. De acordo com o denunciante, o problema persiste há pelo menos seis meses. Ele afirma que começou a comprar os próprios dosímetros em abril deste ano, depois que o fornecimento teria sido interrompido pela Administração Municipal. "Temos comprado os dosímetros pelo Mercado Livre. Cada unidade custa entre R\$ 50 e R\$ 60, e os gastos chegam a aproximadamente R\$ 200 mensais, valor retirado do orçamento doméstico para tentar garantir o acompanhamento da exposição ocupacional", conta. Apesar da situação, os técnicos continuam realizando os atendimentos normalmente. Conforme o relato, dependendo da movimentação da unidade de saúde, um profissional pode realizar entre 20 e 30 exames por plantão. "Infelizmente, continuamos trabalhando porque os pacientes não podem ficar sem atendimento", conta o técnico de radiologia. Equipamentos O denunciante explica que os trabalhadores utilizam os equipamentos de proteção disponíveis, como aventais plumbíferos, popularmente conhecidos como aventais de chumbo, e procuram permanecer fora das salas durante as exposições, quando possível. Entretanto, essas medidas não substituem a necessidade de monitoramento individual. A ausência dos dosímetros preocupa, porque impede que os profissionais tenham acesso aos registros regulares das doses recebidas, dificultando a identificação de eventuais exposições acima dos limites estabelecidos pelas normas de proteção radiológica. O denunciante também relata preocupação com sintomas como dores de cabeça, náuseas, fraqueza e problemas de pele. Não há, porém, comprovação de que esses sintomas estejam relacionados à exposição à radiação ou de que algum trabalhador tenha recebido doses excessivas. "Quem cuida também precisa ser cuidado", afirma. Sentimento de desvalorização Além da preocupação com a segurança, o denunciante descreve um sentimento de desvalorização entre os profissionais da saúde. Segundo ele, a categoria enfrenta dificuldades relacionadas às condições de trabalho, à remuneração e à falta de apoio. "É muito triste trabalhar sem saber se você está sendo exposto a algo que pode prejudicar sua saúde. Todos têm família, filhos e pessoas esperando por eles em casa", desabafa. O técnico de radiologia reforça que a preocupação vai além da questão financeira e envolve a saúde e a qualidade de vida de trabalhadores que lidam diariamente com situações de risco. "Nós precisamos de mais apoio, equipamentos adequados, melhores condições de trabalho e mais valorização. Todos merecemos ser respeitados, não só como profissionais, mas como seres humanos", conclui. Equipamentos são obrigatórios por lei O uso de dosímetros individuais é previsto na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 611/2022, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estabelece requisitos sanitários para os serviços de radiologia diagnóstica ou intervencionista. Conforme a resolução, todo trabalhador ocupacionalmente exposto à radiação deve utilizar o dosímetro durante a jornada de trabalho e enquanto permanecer em área controlada. O equipamento deve ser trocado mensalmente, permitindo o acompanhamento das doses recebidas. RDC nº 611, de 9/3/2022 A Norma Regulamentadora nº 32 (NR-32), do Ministério do Trabalho e Emprego, também determina a monitoração individual da exposição ocupacional à radiação ionizante, com periodicidade mensal, além de estabelecer medidas de proteção à saúde e à segurança dos trabalhadores. Acompanhamento de histórico O dosímetro não funciona como uma barreira contra a radiação. Sua finalidade é registrar a exposição recebida pelo profissional, permitindo identificar possíveis alterações nos níveis de dose e orientar medidas de proteção. A avaliação deve ser realizada por serviços de dosimetria habilitados, com emissão de relatórios que permitam acompanhar o histórico de exposição de cada trabalhador. Por isso, a simples aquisição de um dispositivo não garante, por si só, a monitoração adequada, sendo necessário verificar se ele é utilizado e avaliado conforme as exigências técnicas. Prefeitura atribui atraso a dificuldades em licitações Em nota, a Prefeitura de São Vicente, por meio da Secretaria da Saúde (Sesau), informou que o processo de contratação dos serviços de dosimetria individual para os profissionais da rede municipal foi concluído na etapa licitatória e que o contrato está em fase final de assinatura. Segundo a Administração Municipal, o procedimento enfrentou dificuldades após duas tentativas de licitação terminarem sem interessados, o que impossibilitou a contratação pela modalidade inicialmente prevista. Diante da situação, a Diretoria de Atenção Hospitalar, Urgência e Emergência solicitou, de forma excepcional, a adoção da dispensa presencial de licitação para acelerar a contratação. Entretanto, conforme a Prefeitura, o processo ainda exigiu ajustes documentais e esclarecimentos técnicos para atender às exigências administrativas e legais. A Sesau informou que, após a assinatura do contrato, serão adotadas as providências necessárias para iniciar a prestação do serviço e regularizar o fornecimento dos dosímetros individuais às unidades. Apesar disso, a Prefeitura não apresentou uma data específica para a normalização do serviço, nem detalhou quais medidas estão sendo adotadas para monitorar a exposição dos profissionais à radiação enquanto os equipamentos não são disponibilizados. Por fim, a Secretaria da Saúde reafirmou seu compromisso com a segurança dos trabalhadores, o cumprimento das normas de proteção radiológica e a melhoria contínua das condições de trabalho na rede municipal de saúde.