A espécie de peixe, pescada em São Vicente, é considerada rara no litoral de São Paulo (Arquivo pessoal/ Natanael Umgarelli dos Santos) Um peixe considerado raro no litoral de São Paulo surpreendeu moradores após ser pescado no bairro Jóquei Clube, em São Vicente, na Baixada Santista. O animal, um bijupirá (Rachycentron canadum), também conhecido como cobia ou cação-de-escama, é uma espécie marinha carnívora e migratória. Após o registro, o peixe foi devolvido ao mar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O jovem Natanael Umgarelli dos Santos, de 24 anos, foi quem registrou a imagem do peixe e contou que a espécie não é comum na região. Segundo ele, situações como essa reforçam a importância da preservação e dos cuidados com os mares. “O peixe foi devolvido ao mar, pois era um filhote”, acrescenta. Bijupirá O biólogo marinho Eric Comin explica que o bijupirá é um peixe marinho carnívoro e migrador. Segundo ele, a espécie possui corpo hidrodinâmico, crescimento rápido e alto valor comercial. Por conta da carne nobre e firme, é uma das principais utilizadas na maricultura brasileira, tanto para a produção de filés quanto para a culinária oriental. O animal ainda pode atingir até dois metros de comprimento e ultrapassar os 60 quilos. O bijupirá possui cabeça larga e achatada, além de um corpo escuro, geralmente em tons de castanho ou cinza, marcado por listras longitudinais claras. Pela aparência e pelo formato do corpo, o peixe lembra vagamente um tubarão, como aponta Comin. A espécie é considerada pelágica, vivendo tanto em áreas costeiras quanto oceânicas, e costuma ser vista nadando próximo de grandes animais marinhos, como tubarões, arraias-manta e tartarugas. Ainda de acordo com o biólogo, trata-se de um predador voraz, que se alimenta principalmente de crustáceos, como caranguejos e camarões, além de lulas e peixes menores. O bijupirá atinge a maturidade sexual por volta dos dois anos de idade, e sua desova ocorre naturalmente em águas com temperaturas entre 26°C e 28°C, quando libera centenas de milhares de ovos no mar. “(É uma) Espécie de alto valor econômico. (Eles) São criados em cativeiro. O bijupirá é altamente valorizado na aquicultura marinha por ser resistente e apresentar um ganho de peso acelerado. Sua carne é considerada magra, rica em proteína e de excelente qualidade para cortes finos, muito requisitada por restaurantes de todo país”, explica Eric Comin. Papel importante De acordo com Eric, o bijupirá desempenha um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas marinhos tropicais e subtropicais. Como predador de topo e de topo médio, a espécie atua diretamente no controle populacional de diversos animais marinhos, consumindo grandes quantidades de caranguejos, siris, lulas e peixes bentônicos. Esse comportamento ajuda a manter a 'saúde' dos ambientes marinhos, evitando a superpopulação de invertebrados e contribuindo para o equilíbrio da fauna que vive no fundo do mar. O especialista também destaca as relações simbióticas e o comportamento associativo do peixe, que frequentemente nada ao lado de tubarões, arraias-manta e tartarugas marinhas para aproveitar restos de alimento deixados por esses animais. Além disso, o bijupirá é considerado um importante indicador de qualidade ambiental. Sensível às variações térmicas, o peixe depende diretamente da temperatura da água para realizar suas rotas migratórias, preferindo regiões acima dos 20°C. Por isso, alterações em seus padrões de deslocamento ajudam cientistas a monitorar os impactos do aquecimento global nos oceanos. “O status ambiental e de conservação do bijupirá (Rachycentron canadum) é considerado estável a nível global, mas acende alertas regionais devido à forte pressão pesqueira”, comenta o biólogo. Raro no litoral de São Paulo Eric Comin esclarece que o bijupirá selvagem é considerado um peixe raro e de captura bastante difícil no litoral de São Paulo. Apesar de a espécie não estar ameaçada de extinção, seu habitat preferencial no Brasil se concentra, principalmente, nas águas mais quentes das regiões Norte e Nordeste. “A aparição e a captura desse animal em águas paulistas são incomuns devido a fatores geográficos e biológicos específicos. É uma espécie tropical que prefere águas mais quentes (acima de 25°C). As águas do litoral de São Paulo são mais frias, principalmente sob a influência de correntes subsuperficiais frias no inverno”. Comin conclui: “Como os indivíduos adultos não formam grandes cardumes e vivem de forma mais isolada ou em pequenos grupos junto à fauna pelágica, a chance de um pescador cruzar com um deles na costa paulista é estatisticamente muito baixa”.