A auxiliar de limpeza Kellen Rodrigues Silveira tinha 43 anos (Arquivo pessoal e Alexsander Ferraz/ AT) Uma forte dor de cabeça, vômitos e dificuldade para falar marcaram as últimas horas de Kellen Rodrigues Silveira, de 43 anos, antes de a auxiliar de limpeza ser diagnosticada com um acidente vascular cerebral (AVC) e morrer na Santa Casa de Santos, no litoral de São Paulo. A família dela afirma que os sinais já estavam presentes quando Kellen passou pelo Pronto-Socorro (PS) Central de São Vicente e questiona a conduta adotada na unidade de saúde. A Prefeitura contesta o relato e sustenta que, durante a avaliação médica, não foram identificadas alterações neurológicas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Kellen passou mal na manhã de quinta-feira (10), quando estava em sua residência na Vila Margarida, em São Vicente. Um dos filhos a encontrou caída e acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A auxiliar de limpeza foi levada ao Pronto-Socorro Central, no Parque Bitaru. Para A Tribuna, a filha de Kellen, Vitória Silveira de Pontes, de 18 anos, contou que, no dia anterior, a mãe havia sentido um pouco de dor de cabeça, mas manteve a rotina e chegou a sair para fazer compras. Na manhã seguinte, Vitória estava a caminho do trabalho quando recebeu uma ligação do irmão avisando que Kellen havia caído e estava gemendo de dor. Quando chegou em casa, segundo Vitória, encontrou a mãe deitada no sofá, com dificuldades para falar e aparentemente desorientada. O Samu já havia sido chamado. A jovem afirmou que, ao chegar ao pronto-socorro, a mãe caiu, bateu a cabeça, vomitou e apresentou sangue no vômito. Kellen também estaria com dificuldades para andar e continuava vomitando. Segundo Vitória, o médico perguntou se Kellen tinha pressão alta e prescreveu medicação e soro. Durante a administração dos remédios, porém, a paciente teria começado a gritar de dor. “Minha mãe começou a gritar, falando que estava com muita dor de cabeça”, relatou Vitória. Filha diz que encontrou mãe no chão Devido às fortes dores da mãe, Vitória saiu da sala para procurar ajuda e, quando retornou, encontrou a mãe caída no chão. Segundo ela, uma profissional de enfermagem teria dito que Kellen estava “se jogando no chão”. A filha conta que ajudou a mãe a se levantar e que ela continuava reclamando de forte dor de cabeça. Ainda conforme o relato, houve dificuldades para obter um novo acesso venoso, e Vitória decidiu levar a mãe para casa por considerar que "ela não estava recebendo atendimento adequado". A filha sustentou ainda que não foi solicitado exame de imagem naquele momento. Segundo ela, Kellen apresentava fala enrolada, dificuldade para manter os olhos abertos e respondia de maneira confusa a algumas perguntas. Quadro piorou Em casa, Kellen continuou reclamando de dor intensa e ficou inquieta. Diante da falta de melhora, os filhos decidiram procurar atendimento novamente, desta vez na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Zona Leste, em Santos. Vitória afirmou que, na segunda unidade, a mãe foi submetida a testes neurológicos e apresentou maior comprometimento da consciência. Segundo o relato da jovem, Kellen teve convulsões, foi intubada e passou por tomografia, que teria identificado uma hemorragia cerebral associada a um AVC. De acordo com o boletim de ocorrência, diante da gravidade do quadro, a auxiliar de limpeza foi encaminhada à Santa Casa de Santos. Kellen morreu por volta das 19h25 de sexta-feira (11). O registro policial aponta a possibilidade de que ela tenha sofrido um acidente vascular cerebral. Os órgãos da auxiliar de limpeza foram doados, atendendo a um desejo manifestado por ela em vida. O sepultamento ocorreu na segunda-feira (14), no Cemitério da Areia Branca, em Santos. “Minha mãe era tudo para mim. Era muito alegre, muito ativa e gostava de fazer as coisas sozinha”, contou Vitória. Para a jovem, um diagnóstico mais rápido poderia ter mudado o desfecho. O que diz a Prefeitura A Secretaria da Saúde de São Vicente (Sesau) informou que Kellen deu entrada no Pronto-Socorro Central encaminhada pelo Samu após uma queda da própria altura, apresentando queixas de dor de cabeça e vômito. Segundo a Prefeitura, o prontuário registra que a paciente estava “consciente, orientada, sem alterações neurológicas identificadas” durante a avaliação. O documento também indicaria ausência de rigidez na nuca, alterações nas pupilas ou perda de força. A Administração Municipal afirmou que, após o atendimento médico, Kellen foi encaminhada para receber medicação e que estava prevista uma nova avaliação. Conforme o Município, porém, a paciente não retornou para a reavaliação. A versão diverge da apresentada pela família, que afirma ter entendido que ela poderia deixar a unidade depois da medicação. Família tenta obter prontuário A família também afirmou que tentou obter o prontuário médico de Kellen, mas teria sido informada de que o documento somente poderia ser fornecido mediante ordem judicial. O caso foi registrado como morte suspeita e encaminhado à Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Santos.