Barbara alega ter sofrido intolerância religiosa após ter uma corrida de Uber negada ao sair de um terreiro de candomblé em São Vicente (Arquivo pessoal) Uma mulher de 27 anos denuncia ter sido vítima de intolerância religiosa após um motorista da Uber cancelar uma corrida ao vê-la vestida com roupas ligadas ao candomblé, em São Vicente, no litoral de São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O caso aconteceu na noite de 3 de abril, sexta-feira, por volta das 22h27, quando a auxiliar administrativa Barbara Emanuelle da Silva Alves Ferreira saía de um terreiro acompanhada dos dois filhos. Segundo o relato, o motorista de aplicativo chegou a se aproximar do local e reduzir a velocidade, indicando que iria iniciar a corrida. No entanto, ao perceber as vestimentas religiosas da passageira, ele acelerou e deixou o lugar, cancelando a viagem sem qualquer explicação. “Foi um sinal claro de desrespeito. Na hora, senti revolta, tristeza e incredulidade. Pensei: ‘Será que foi por causa da minha religião?’”, afirma. Medo e sensação de vulnerabilidade Barbara conta que apenas o filho mais velho percebeu o ocorrido. A criança mais nova dormia em seus braços no momento. Após o cancelamento, a auxiliar administrativa aguardou cerca de 20 minutos até conseguir outro carro. Durante esse tempo, diz que sentiu medo e insegurança por estar na rua à noite com duas crianças. “Foi angustiante. Eu só queria chegar em casa em segurança”, conta. Diante da situação, ela optou por retornar ao interior do terreiro e aguardar em local protegido até conseguir uma nova corrida. Vestimenta representa fé e identidade A jovem explica que as roupas que utilizava não são fantasias, mas símbolos de sua religião. “As vestimentas representam respeito, tradição, ancestralidade e conexão espiritual. Fazem parte de quem eu sou”, destaca. Barbara acrescenta que já enfrentou outras situações de preconceito, mas que desta vez o impacto foi maior. “Me senti humilhada, desrespeitada e invisível. Como se minha fé fosse motivo de vergonha”. Denúncia e busca por responsabilização A passageira registrou a denúncia diretamente no aplicativo da Uber, mas considera que a resposta da empresa foi insuficiente. Segundo ela, o suporte oferecido não condiz com o impacto emocional da situação. “O dano já foi causado. Não é algo que se resolve com uma resposta padrão”. Barbara afirma que pretende tomar outras medidas legais. Ela está em fase de elaboração de boletim de ocorrência e pretende acionar o Ministério Público, além de buscar orientação jurídica. O caso também foi levado ao Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) de São Vicente. Uber se posiciona Em nota, a Uber informou que não tolera qualquer forma de discriminação e que incentiva denúncias tanto pelo aplicativo quanto às autoridades competentes. A empresa afirmou ainda que promove ações educativas com motoristas parceiros sobre temas como racismo e intolerância religiosa, além de integrar iniciativas voltadas à promoção da igualdade. Crime previsto em lei A intolerância religiosa é considerada crime no Brasil e pode resultar em penalidades previstas na legislação. Especialistas ressaltam que casos como esse devem ser denunciados para garantir a responsabilização dos envolvidos e combater esse tipo de prática. 'Não posso me esconder' Barbara afirma que não pretende deixar de expressar sua fé. “Dá medo, dá insegurança, mas também me fortalece. Eu tenho o direito de viver minha religião como qualquer outra pessoa”, conclui.