Moradores da Ilha Porchat, um dos principais pontos turísticos de São Vicente, no litoral de São Paulo, denunciam a situação de gatos machucados, debilitados e abandonados na região. Segundo relatos da vizinhança, a presença dos animais sem assistência veterinária se arrasta há três décadas. Eles alertam para o risco de proliferação de zoonoses e raiva devido ao contato direto dos felinos com a fauna local e com pessoas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A moradora Ketlin Lara, que reside há menos de um ano no local, relata que a situação atual é crítica. Ela relata que já calculou cerca de 20 a 50 gatos vivendo de forma precária na região. Além disso, denuncia a falta de políticas públicas que poderiam evitar a proliferação e diminuir a quantidade de animais machucados. "Os animais possuem muitas doenças, alguns estão cegos, com feridas aparentes e machucados de brigas entre eles. Já fizemos pedidos de ajuda para a Unidade Básica de Saúde Animal (Ubasa), sem sucesso. Eles sempre relatam que não têm como remover os animais da ilha e exigem que os moradores peguem os gatos e levem até o pé do morro para atendimento”, relata a moradora. Moradores passaram a cuidar dos gatos abandonados (Arquivo pessoal) Denúncia no Ministério Público A situação foi levada para desdobramentos jurídicos pela moradora Raquel Denise Silva Assis de Paula. Com um dossiê acumulado desde fevereiro, Raquel acionou o Ministério Público de São Paulo (MPSP) para relatar o crime ambiental, o desequilíbrio ecológico e a omissão do Poder Público. Segundo ela, quem arca com a retirada, castração e socorro dos felinos são os próprios munícipes. Em petição feita neste mês, a representante reforçou a necessidade de continuidade e aprofundamento das investigações. A moradora aproveitou o documento para denunciar o comportamento da Prefeitura, que de acordo com ela, coloca informações duvidosas no processo. "Já tiramos mais de 200 animais daqui. Se não fossem os moradores, haveria cerca de 300 gatos no local. Temos filhotes caindo de prédios, morrendo atropelados e mães desnutridas. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) já definiu que o município não pode terceirizar para ONGs e moradores uma obrigação que é pública”, denuncia Raquel. No documento enviado ao Ministério Público, os moradores adicionaram uma cópia de um abaixo-assinado comunitário reunindo 1.154 assinaturas de munícipes e apoiadores em prol da causa animal. Além disso, foi solicitado um relatório oficial para a Prefeitura sobre as ações já realizadas pelo órgão, como apuração detalhada de dotações orçamentárias, contratos, termos de colaboração, empenhos, notas fiscais de castração, insumos, medicamentos e dados comparativos entre os recursos empregados e os serviços efetivamente executados. Cuidados pelos moradores De acordo com as testemunhas, os moradores retiram animais do local há décadas sem equipamentos adequados de proteção individual (EPIs) contra zoonoses. E para ajudar, a ex-moradora da Ilha Porchat, Valéria Giovanna Colliva, relata que muitas pessoas passaram a adotar e cuidar dos gatos pessoalmente, inclusive ela. “Morei de 2008 até 2025 e nesse tempo todo eu devo ter cuidado de muito mais que 150 animais, nunca contei, mas foram uma infinidade. Desses gatos todos eu pessoalmente adotei 12, e desses 12 hoje eu tenho cinco aqui em casa porque eles foram morrendo aos poucos. Alguns já eram velhos, outros tiveram doenças, e doei muitos deles”, conta Valéria. Os próprios moradores construíram um gatil para o melhor cuidado e manejo dos gatos, com comida, água e lugar para os felinos fugirem da chuva e não ficarem expostos. Moradores construíram gatil para cuidados dos animais (Arquivo pessoal) Além dos maus-tratos aos animais, os moradores alertam para o impacto no ecossistema local. A convivência dos felinos doentes com espécies como macacos, morcegos, pombos e ratos amplia a proliferação de pragas e o risco de contaminação cruzada para moradores e turistas que visitam a ilha. Posicionamento da Prefeitura de São Vicente Em nota, a Prefeitura de São Vicente informou que uma equipe será enviada à Ilha Porchat para apurar os fatos relatados pela comunidade. A Administração Municipal acrescentou que atua diariamente no resgate de animais em situação de abandono na cidade e que, somente ao longo deste ano, cerca de 260 animais de estimação foram retirados das ruas. Por fim, a Prefeitura orientou que os munícipes que presenciarem situações de maus-tratos façam denúncias formais junto à Ubasa pelo telefone (13) 2028-0523.