Igreja homenageia São Vicente de Saragoça, diácono espanhol martirizado (Alexsander Ferraz/AT) Em meio ao trânsito intenso e à movimentação diária do Centro de São Vicente, a Igreja Matriz de São Vicente Mártir resiste como um dos marcos mais antigos da história brasileira. Entre paredes grossas, imagens sacras centenárias e histórias de maremotos, ataques piratas e incêndios, o templo preserva quase cinco séculos da memória da primeira vila do Brasil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Embora a construção atual seja de 1757, a paróquia tem origem em 1535, quando foi oficialmente fundada durante os primeiros anos da colonização portuguesa. “A Paróquia São Vicente Mártir é a primeira do Brasil. Não é que a nossa igreja, o templo, seja o mais antigo, mas ela foi a primeira (paróquia) a ser constituída”, explica o pároco Renan Fonseca e Censi, de 40 anos. O religioso, que gere a paróquia há 11 anos, explica que a cidade e a igreja homenageiam São Vicente de Saragoça, diácono espanhol martirizado no século 4. A ligação surgiu porque a expedição portuguesa chegou à região em 22 de janeiro de 1502, data em que o santo é celebrado pela Igreja Católica. Marcas de reconstruções A primeira igreja foi construída próxima à praia, à mando de Martim Afonso de Sousa, mas acabou destruída por um maremoto cerca de dez anos depois. Uma nova edificação foi erguida em 1559, já em uma área mais protegida, mas acabou saqueada e incendiada por piratas. A reconstrução definitiva aconteceu em 1757, no mesmo local onde o templo permanece até hoje, na Praça João Pessoa. Censi conta que, diferentemente da primeira construção, a atual foi erguida em uma região mais elevada e de costas para o mar, numa tentativa de evitar novos desastres naturais e aumentar a proteção do prédio. Construção atual data de 1757, embora a Paróquia tenha origem em 1535; igreja já foi destruída por um maremoto e atacada por piratas (Alexsander Ferraz/AT) Relíquias Além da importância religiosa, o templo também guarda patrimônio histórico raro. Um dos principais exemplos é uma imagem de Santo Antônio do século 16, considerada uma das mais antigas imagens de barro do Brasil. Ela permanece protegida em uma redoma de vidro no interior da igreja. Outro destaque é o sacrário barroco, apontado como o terceiro mais antigo do País. A igreja ainda preserva peças históricas como a pia batismal e imagens sacras dos séculos 18 e 19. Quem caminha pela igreja também observa lápides pelo chão. De acordo com Censi, era comum que nobres fossem enterrados dentro ou nos arredores das igrejas durante o período colonial. No entanto, não eram todos que tinham condições de pagar por jazigos. “A gente foi fazer uma reforma no banheiro e encontramos crânios lá”, revelou. Incêndio e restauração As marcas do tempo também aparecem na estrutura do templo. Em 2000, a igreja sofreu um incêndio que destruiu pinturas, lustres e elementos históricos. Uma das perdas mais sentidas foi uma pintura atribuída a Benedito Calixto no teto da igreja, que representava o apocalipse. Após a restauração, o templo passou por um processo de recuperação histórica para tentar recuperar características arquitetônicas do século 18. “Era uma igreja muito imponente, bonita, tinha um piso diferenciado. Quando acontece esse incêndio, e a partir também dos cuidados com a preservação histórica, eles buscaram devolver a igreja à sua originalidade”, explicou o pároco. Atualmente, a conservação do prédio é um dos principais desafios da paróquia. O imóvel possui tombamento municipal, estadual e federal, o que exige autorizações especiais para qualquer intervenção estrutural. “Quando dá problema no telhado de uma igreja comum, você tem até a possibilidade de destelhar, fazer um novo telhado, algo mais moderno. Se você tem um telhado antigo, precisa tomar todo um cuidado para a manutenção do espaço”, explica. Dias atuais Apesar das dificuldades, o templo segue recebendo milhares de pessoas ao longo do ano. Entre missas, confissões, batizados, casamentos e turistas interessados na história da colonização brasileira, a igreja continua sendo um dos espaços mais vivos e simbólicos da cidade.