[[legacy_image_173800]] O ato de sonhar custa caro. Foi com essa percepção que o fotógrafo Andrey Haag, de 28 anos, viveu durante a infância até a adolescência. Nascido em Ribeirão Pires, ele veio morar na periferia de Praia Grande aos 11 anos. No bairro Samambaia, aflorou sua veia artística e percebeu que, por meio da arte, poderia fazer a diferença em lugares como aquele. Assim, criou o projeto 'Eu Posso Sonhar?'.Ele percorreu o Dique do Caxeta, em São Vicente, questionando, fotografando e filmando as pessoas falando sobre seus desejos, dificuldades e significados internos. Toda a abordagem da pesquisa em campo do projeto foi em colaboração com o roteirista Fernando Gois. O projeto ainda está em processo de produção, e o sonho de Andrey é que essa pesquisa audiovisual vire um filme. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Andrey conta que o projeto surgiu durante uma conversa com sua mãe, que é empregada doméstica. Segundo ele, todos os sonhos dela foram cortados pela raiz durante a vida. Por isso, o rapaz sentiu necessidade de reacendê-los através de sua arte audiovisual. O trabalho tem como objetivo lembrar às pessoas que moram em periferias que elas podem dar relevância aos desejos internos, até os que parecem impossíveis de realizar. O fotógrafo afirma que sempre sentiu a vontade de se expressar através de atividades artísticas, mas isso não era levado a sério por sua mãe. "Na adolescência eu comecei a escrever e dançar, mas ela achava que tudo isso era um hobby. Ela dizia que 'pobre não pode fazer arte' e mandava eu investir em concursos públicos. Minha mãe não foi incentivada a sonhar, e consequentemente, eu também não", disse. Em conversa com a mãe, ele descobriu que o sonho dela era ser professora e perguntouse ela ainda tinha esse desejo. "Tenho quase 50 anos, não tenho mais tempo para sonhar", disse a mulher. Inquieto com o fato de terem tirado de sua mãe esse direito, Andrey iniciou a pesquisa sobre tal assunto. Dentro do processo de criação, o fotógrafo notou semelhanças entre as pessoas de baixa renda. "Os sonhos desse grupo social são direitos básicos. Eu não me conformo que os pobres sonhem com uma casa para morar, uma comida na mesa ou a faculdade do filho. Moradia, alimentação e educação deveriam ser coisas garantidas para todo mundo, e não um desejo distante", salienta. Ele ainda afirma que o ato de pessoas periféricas sonharem 'não é romântico, e sim revolucionário e político'. [[legacy_image_173801]] 'Angústias não só minhas'O fotógrafo se considera uma pessoa questionadora, com muitas angústias sobre o mundo dentro de si, e que busca responder todas as perguntas internas com seu trabalho. "Quando transformo essas questões em arte, eu descubro no meio do percurso que elas não são só minhas". Andrey acredita que falando sobre seu próprio território social, provocará uma 'virada de chave' em pessoas que se identificam com as realidades retratadas. Carreira, propósito e lutasO início da carreira como fotógrafo foi marcado por dificuldades. Expulso de casa por ser homossexual e trabalhando desde os 13 anos, Andrey batalhou em diversos lugares para pagar aluguel, assumindo responsabilidades que iam além de sua pouca idade.Em um de seus empregos conseguiu adquirir sua primeira câmera fotográfica com a rescisão. A partir da compra, passou a levar a sério o que, até então, era feito de forma amadora com o celular. Após pegar confiança com sua câmera, Andrey passou a trabalhar em uma produtora de casamentos, onde trocava trabalho por moradia e fazia filmagens de pessoas ricas e influentes, mas afirma que nunca se sentiu totalmente à vontade naquele meio. "Eu andava em lugares de luxo, trabalhei no São Paulo Fashion Week, conheci várias pessoas, mas acabei esquecendo da minha essência. Eu precisava voltar a ter conexões com pessoas iguais a mim", relembra. Andrey diz que, dentro da empresa, era desencorajado a correr atrás de seus sonhos artísticos pelo próprio patrão. Dentro deste período, Haag fazia trabalhos a parte no brechó de um amigo, e recebeu uma proposta para produzir um fashion film [vídeos utilizados por marcas de moda] de Augusto Pakko, um modelo, compositor e diretor criativo de Santos. O fotógrafo aceitou o convite e recebeu inúmeros elogios do artista. "Eu me senti querido, capaz e potente. Era alguém me incentivando e me tratando de igual para igual". A partir deste trabalho, Andrey sentiu que sua missão era colaborar com pessoas que compartilhassem as mesmas vivências que ele. Desta forma, foi chamado para dirigir um vídeo musical de Pakko. "Essa construção junto com alguém da periferia, como eu, me fez perceber que eu precisava fazer coisas pelas 'quebradas' da Baixada". Inserido no contexto de autodescobrimento, formação de identidade e contato com pessoas de realidades semelhantes, o fotógrafo se demitiu da produtora, passou a morar em uma república no Parque Bitaru, em São Vicente, e começou a se dedicar a projetos sociais, como pesquisas e editoriais sobre a periferia da região. "Quando eu fotografo pessoas da periferia, eu estou mexendo com autoestima e cura. Quero mostrar para esse público e para mim mesmo que somos bonitos, que nossas ideias são potentes e inteligentes", finaliza. O trabalho de Andrey e publicações sobre o projeto podem ser vistos aqui. [[legacy_image_173802]]