O homem já cortou cabelo de Lamine Yamal e Neymar Jr. (Instagram/@nariko_hairstyle) Dailson Cardoso tinha apenas 13 anos quando começou a cortar o cabelo dos amigos no Jardim Rio Negro, em São Vicente, no litoral de São Paulo. Mais de duas décadas depois, o garoto que aprendeu a profissão na periferia da cidade comanda cinco unidades da própria marca e acumula no currículo duas Copas do Mundo, uma Olimpíada e atendimentos a estrelas como Neymar e Lamine Yamal. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A máquina de cortar cabelo entrou na vida de Dailson em 2001, ainda adolescente, ele começou a cortar os cabelos dos amigos no bairro onde cresceu. Foi naquele local que nasceu uma carreira que, anos depois, o levaria a atender jogadores de futebol, artistas e celebridades no Brasil e no exterior. Hoje, conhecido profissionalmente como Nariko Hair Style, tem cinco unidades de sua marca, sendo duas em São Vicente e outras três em diferentes cidades do Brasil. A trajetória também inclui viagens para acompanhar a Seleção Brasileira, atendimentos em duas Copas do Mundo, passagem pela Olimpíada de 2016 e contato com nomes como Neymar, Marquinhos, Thiago Silva, Douglas Costa, Thiago Maia, Philippe Coutinho, Roberto Firmino, Luis Suárez, Cafu, DJ Snake, Thiago Galhardo, Christian Malheiros, Lamine Yamal e outros nomes do futebol e do entretenimento. Mas, para Nariko, a história não começou com celebridades. Antes de chegar aos grandes nomes, houve infância difícil, empreendedorismo, música, dívidas, eventos que deram prejuízo e uma decisão que mudaria sua trajetória. Da Bahia para São Vicente Barbearia de Nariko, no Centro de São Vicente, é rodeada com artigos de futebol (Sílvio Luiz/ AT) Dailson nasceu em Valença, na Bahia, e passou parte da infância em Camamu. Aos cinco anos, mudou-se com os pais para São Paulo. A família viveu inicialmente no bairro Jaraguá, mas acabou chegando à Baixada Santista depois que uma prima de sua mãe a buscou na capital. Em São Vicente, a família passou por diferentes moradias até chegar ao Jardim Rio Negro, bairro onde Dailson cresceu. Em determinado período, os pais moraram de favor no quintal de um amigo. Depois, conseguiram comprar um terreno. Foi ali que o menino começou a aprender a profissão. Em setembro de 2001, aos 13 anos, ele teve contato com uma máquina de cortar cabelo e passou a fazer cortes nos amigos. A estreia aconteceu pouco antes de um dos momentos que mais influenciariam seu imaginário dentro da profissão. Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial, e o corte usado pelo atacante Ronaldo Fenômeno, conhecido como “Cascão”, virou uma das referências do adolescente. “Eu comecei em 2001. Em 2002 ele foi campeão. Então, no meu início, eu fiz muito Cascão nos meus amigos, na resenha”, conta. O garoto cresceu em uma região marcada por dificuldades sociais e pela presença do crime. Segundo ele, muitos amigos acabaram seguindo esse caminho. Dailson, porém, procurava se manter distante e chegou a assumir entre os amigos uma postura de conselheiro. “Eu sempre fui um cara assim, um garoto empreendedor”, lembra. Antes mesmo de a barbearia se tornar profissão, ele já encontrava maneiras de ganhar dinheiro. Vendia chup-chup para a mãe, pipas e até bolinhas de gude que recebia dos amigos. A música também entrou em sua vida. Aos 14 anos, começou a seguir o sonho de ser músico e passou 14 anos envolvido com a noite. Paralelamente, nunca abandonou completamente a máquina de cortar cabelo. A virada profissional aconteceu em 2014. Dailson havia começado a organizar eventos de música, especialmente pagode e samba na comunidade. O negócio, porém, trouxe prejuízos e aumentou suas dívidas. Em uma conversa com o cunhado, ouviu um conselho que decidiu seguir. “Ele falou para mim investir na minha área.” Foi então que Dailson decidiu colocar dinheiro na barbearia. O problema era que praticamente não havia dinheiro disponível. Ele recorreu a diferentes recursos para conseguir reformar o espaço, incluindo cartão de crédito e dinheiro que tinha de outras atividades. A primeira unidade começou na Rua G, no Jardim Rio Negro, justamente onde sua história havia começado. Para recuperar o dinheiro investido, ele passou a divulgar o trabalho nas redes sociais. E foi justamente a internet que transformou o barbeiro de São Vicente em um profissional conhecido fora da cidade. Dailson começou a fazer desenhos de rostos de personalidades nos cabelos dos clientes. Entre os trabalhos estavam representações de nomes como Marcos Mion, Danilo Gentili e Nego do Borel. Um dos desenhos que mais chamou atenção foi o de Neymar. O trabalho viralizou e ultrapassou as fronteiras do Brasil, e a exposição abriu portas para participações em programas de televisão e entrevistas. Depois vieram os primeiros clientes conhecidos, principalmente artistas ligados ao funk. Mas Nariko não queria ficar conhecido apenas como o “barbeiro dos MCs”. “Eu pensei, não sou barbeiro dos MCs. Eu sou barbeiro de pessoas”, afirma. A ponte que o levou até Neymar Diversos famosos já cortaram o cabelo com o barbeiro (Instagram/@nariko_hairstyle) A aproximação com o futebol aconteceu por meio de relacionamentos construídos ao longo da carreira. Um dos primeiros atletas que ajudaram a ampliar sua rede foi Ademilson Braga. Depois, Nariko foi indicado a Marquinhos. O trabalho acabou levando o barbeiro para outros ambientes. Ele chegou a viajar para Trancoso para atender Marquinhos, familiares e padrinhos do casamento do jogador. Neymar A grande mudança, porém, veio em 2015, quando Dailson já conhecia Cris Guedes, amigo de infância de Neymar, que também vivia no Jardim Rio Negro. Cris havia se mudado para Santos por causa do futebol e acabou fazendo a ponte entre os dois. Desde então, Nariko passou a atender Neymar. “O Neymar me deu várias oportunidades, abriu portas, me deu acesso”, relata. Uma dessas oportunidades foi acompanhar o jogador em concentrações da Seleção Brasileira. Ao atender Neymar e outros atletas, Nariko foi ampliando a rede de contatos e construindo amizades com jogadores. A relação também o levou a outros momentos importantes da carreira do craque. Em 2016, ele foi para Barcelona atender Neymar durante a disputa da Bola de Ouro, premiação do melhor jogador de 2015, na qual o brasileiro concorria com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. No mesmo ano, esteve com a Seleção Olímpica durante a Olimpíada do Rio de Janeiro. O contato com os jogadores se ampliou. Marquinhos, Thiago Maia, Thiago Silva, Douglas Costa, Coutinho e Firmino estão entre os nomes citados por ele. A amizade com Thiago Maia foi tão estreita que Nariko chegou a ser padrinho do casamento do jogador. Das Olimpíadas às Copas do Mundo Thiago Maia e Luis Suaréz já cortaram o cabelo com Dailson (Instagram/@nariko_hairstyle) Em 2018, Nariko esteve na Rússia acompanhando a Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo. Além dos brasileiros, teve a oportunidade de atender jogadores da Seleção Uruguaia, incluindo Luis Suárez. O barbeiro guarda camisas de jogadores uruguaios que atendeu durante aquele período, entre eles Arrascaeta, Godín, Suárez e Muslera. Em 2022, a experiência se repetiu no Catar. Além dos jogadores, Nariko também atendeu familiares e pessoas que acompanhavam atletas. Para ele, cada uma dessas experiências teve um significado diferente. Barcelona foi a primeira viagem internacional para atender Neymar. A França também marcou sua história, principalmente porque a viagem teve um significado especial para sua mãe. O sonho dela era conhecer a Torre Eiffel. Ela não chegou a viajar para Paris, mas, ao ver o filho diante do monumento, sentiu que aquele sonho também havia sido realizado. “Se eu conheci a torre, ela se sentiu realizada”, conta. Apesar de ter construído a fama com os cortes, Nariko afirma que não foi a cadeira da barbearia que o fez se apaixonar definitivamente pelo setor. O que mudou sua relação com a profissão foi descobrir o lado educacional. Depois de ganhar reconhecimento, ele começou a dar cursos e palestras. Ao perceber que outras pessoas estavam se inspirando em sua história e utilizando seus ensinamentos para mudar de vida, passou a enxergar uma nova possibilidade profissional. “Eu pensei, quero crescer mais ainda e ser mais forte nisso para poder atingir mais pessoas”, afirma. Hoje, ele diz que a barbearia tem muito mais relação com posicionamento de marca do que com o desejo de permanecer cortando cabelos diariamente. Gabriel Martinelli e Cris Guedes já cortaram com Nariko (Instagram/@nariko_hairstyle) Há oito anos, Nariko deixou de atender clientes regularmente na cadeira. O foco passou a ser publicidade, patrocinadores, cursos, palestras, gestão e expansão da marca. Ele brinca que até precisa voltar a cortar para “desenferrujar”. A atuação educacional levou Nariko a viajar pelo Brasil e para outros países. Ele já esteve na França para palestrar, passou duas vezes por Portugal e participou de palestras em cruzeiros voltados ao mercado da beleza. Barbearias A marca Nariko hoje possui cinco unidades. A primeira continua no Jardim Rio Negro, na Rua G, onde tudo começou. A segunda fica em São Vicente, no Centro, e o tema da barbearia é inteiramente voltado ao futebol. Há gramado nas bancadas, Bola de Ouro, camisas autografadas, taças da Copa e fotografias com atletas. As demais funcionam em formato de rede em Itatiba, Tupã e Campinas. Nariko também já teve duas escolas e manteve uma barbearia em Paris durante três anos. Embora esses projetos tenham sido encerrados, ele considera as experiências importantes para a construção da marca. “Estou trabalhando na expansão da minha marca. Tenho outros negócios sendo construídos agora”, afirma. Jogadores Gabriel Jesus e Richarlison também já foram atendidos pelo barbeiro (Instagram/@nariko_hairstyle) A relação com o futebol também faz com que alguns atendimentos tenham um significado especial por motivos pessoais, e Cafu é um deles. O ex-lateral da Seleção Brasileira, campeão mundial em 2002, era um dos jogadores que Nariko acompanhava pela televisão enquanto jogava videogame na infância. “Eu jogava com ele no PlayStation 1. Então, atendê-lo para mim marcou bastante”, conta. Existe ainda um jogador que Nariko gostaria de atender por uma razão diferente. Ronaldo Fenômeno representa justamente o início de sua carreira, quando o barbeiro fazia o corte “Cascão” nos amigos. Uma fotografia ao lado do ex-atacante, segundo ele, seria uma maneira de fechar um ciclo iniciado em 2001. Lamine Yamal e a força das conexões Mais recentemente, outro nome de destaque do futebol mundial entrou na lista de clientes de Nariko. Lamine Yamal foi atendido pelo barbeiro quando esteve em São Paulo. A conexão também nasceu de uma relação anterior. Um amigo de Neymar entrou em contato com Nariko e fez o convite para que ele atendesse o jogador. O corte aconteceu cerca de um ano antes da entrevista. Depois, com a conquista deste ano de campeão mundial, o barbeiro publicou um vídeo para parabenizá-lo. Ele também guarda uma camisa assinada pelo jogador. Para o barbeiro, a história mostra a importância de valorizar os relacionamentos, independentemente da fama ou da posição social da pessoa. “Tem pessoas que só valorizam a quem elas se interessam. Eu valorizo pessoas, independente de quem sejam”, afirma. O preço de se tornar uma referência A proximidade com celebridades também trouxe uma responsabilidade que Nariko diz ter aprendido a administrar. Segundo ele, estar próximo de pessoas conhecidas exige cuidado com comportamento, exposição e escolhas pessoais. “Hoje eu não sou apenas uma pessoa comum. Hoje eu sou uma referência para algumas pessoas”, explica. Para ele, qualquer atitude pode acabar refletindo em quem acompanha sua história. A experiência também o ensinou a ter filtros e evitar conflitos. Nariko considera que essa postura foi importante para conseguir permanecer mais de uma década em evidência. “Isso traz maturidade, disciplina, que é o que me mantém 12 anos no mercado”, afirma. Hoje, ele acredita que sua influência ultrapassou o mercado da beleza. Entre as mensagens que recebe, estão relatos de donos de restaurantes, lojas de roupas e empreendedores de outras áreas que dizem se inspirar em sua trajetória. “Eu quero crescer na minha área assim como você cresceu na sua área”, é um tipo de mensagem que passou a receber com frequência. -GALERIA DE FOTOS (1.524825) A tatuagem que conta a história A própria trajetória do barbeiro está marcada no corpo. Ele nunca havia feito uma tatuagem porque a mãe não permitia. Depois de insistir, conseguiu autorização para registrar na pele os principais capítulos de sua vida profissional e pessoal. O desenho reúne símbolos que representam diferentes momentos. Um estádio representa os jogadores que fizeram parte da carreira. Os mascotes da Olimpíada de 2016 e da Copa do Mundo de 2018 lembram os grandes eventos esportivos que acompanhou. Uma figura dele aos 13 anos simboliza o início na barbearia. Há ainda um avião, representando a rotina de viagens e treinamentos, e notas musicais, que lembram o período dedicado à música e os artistas que atendeu. Na parte inferior está a família, descrita por ele como a base de tudo. O filho também ocupa um espaço importante. Segundo Nariko, a paternidade trouxe equilíbrio e mudou a maneira como passou a enxergar a própria vida. Ele percebeu que a rotina de viagens e trabalho havia feito com que perdesse momentos importantes. Chegou a contar que nunca havia passado um Dia dos Pais com o filho, porque essas datas costumavam coincidir com viagens e cursos. Entre as datas registradas na tatuagem, ele cita 2019, período que considera como o ano em que venceu a depressão, e 2020, marcado pela pandemia. A depressão, segundo o profissional, foi um dos períodos mais difíceis de sua vida. Ele conta que passou cerca de três meses sem sair de casa e chegou a permanecer aproximadamente um mês praticamente restrito ao quarto. Nariko afirma que não procurou médico ou tratamento naquele momento. Segundo ele, encontrou uma forma própria de recuperar gradualmente a rotina ao voltar a fazer atividades que lhe davam prazer. Voltou a passear com o cachorro, jogar videogame, rir com os amigos e aproveitar momentos simples. A experiência também fez com que percebesse o quanto havia deixado a vida pessoal em segundo plano diante da rotina de trabalho. “Eu estava vivendo muito no que eu precisava, não no que eu queria”, resume. O barbeiro coleciona diversas camisas autografadas (Instagram/@nariko_hairstyle) O menino que aprendeu a esperar pelo processo O apelido que virou marca nasceu ainda antes de Dailson nascer. Segundo ele, o pai era analfabeto e tentou soletrar algumas letras para a mãe. Entre as combinações de nomes surgiu “Narico”. O apelido passou a ser usado pela família e pelos amigos desde a infância. Com o tempo, ele transformou a palavra em marca profissional, trocou o “c” pela letra “k” e passou a dar cada vez mais valor ao nome. Nariko conta que posteriormente descobriu um significado associado ao nome japonês, relacionado a “criança gentil”. A definição também combina com a maneira como ele diz enxergar a própria personalidade. Hoje, prefere ser chamado de Nariko a Dailson. “Meu pai estava criando uma marca sem saber”, brinca. Depois de sair de uma infância vivida em São Vicente para atender algumas das maiores estrelas do futebol e do entretenimento, Nariko diz que não mudaria o caminho que percorreu. Se pudesse conversar com o menino de 13 anos que começou a cortar cabelos em 2001, daria apenas um conselho. “Suporta o processo, que coisas grandes vão vir.” Para ele, as dificuldades, os choros, as frustrações e as renúncias da infância foram necessárias para construir a maturidade que hoje permite viver a carreira que sonhava. “Calma, que o que você está passando aí tem frutos grandes lá na frente”, diria ao garoto.