Na reta final da viagem até Ushuaia, na Argentina, o ajudante de pedreiro Georgios Beinis registra momentos de sua jornada, marcada por noites em barraca, dificuldades e superação (Arquivo pessoal) Foram mais de 7 mil quilômetros pedalados, noites improvisadas ao relento, frio, fome, dificuldades financeiras e problemas mecânicos. Mas o sonho de chegar ao extremo sul da Argentina está cada vez mais perto de se tornar realidade. O ajudante de pedreiro Georgios Aciro Sarmento Beinis, de 30 anos, que deixou o bairro Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo, com apenas R\$ 48 no bolso, está a 1.350 quilômetros de Ushuaia, destino final de uma aventura iniciada há mais de seis meses. -Vídeo YouTube (1.533865) Quer saber todas as curiosidades da nossa região? Siga o nosso canal do YouTube! Nesta segunda-feira (19), em conversa com A Tribuna, o ciclista contou que chegou na noite de domingo (18) à cidade argentina de Perito Moreno, onde encontrou, pela primeira vez, uma placa indicando Ushuaia. O momento trouxe ainda mais esperança para quem enfrenta diariamente os desafios da estrada acompanhado de sua inseparável bicicleta, apelidada de Azulzinha. A expectativa é alcançar o destino até o fim de outubro, caso não ocorram novos imprevistos. Para isso, Georgios precisa superar um dos momentos mais delicados da viagem: a bicicleta apresenta diversos problemas mecânicos e o dinheiro está cada vez mais escasso. "Dinheiro, só Deus para falar a real. Tenho que arrumar a bike, que está toda destruída, praticamente. Os dois passadores de marcha estão quebrados e o bagageiro também já era", relata. Mesmo com os problemas, o ciclista mantém um ritmo intenso. Recentemente, conseguiu percorrer cerca de 350 quilômetros em apenas dois dias. Nesse trecho, passou por Esquel, Trevelin e Gobernador Costa, antes de chegar a Perito Moreno. Sem recursos suficientes para hospedagem, Georgios continua improvisando lugares para descansar. Em uma das últimas noites, precisou dormir embaixo de uma ponte. A alimentação também depende, muitas vezes, da solidariedade de pessoas que encontra pelo caminho. Recentemente, um desconhecido ofereceu latas de atum e três pacotes de macarrão instantâneo, gesto que ajudou o viajante a seguir em frente. "Tive a sorte de encontrar uma pessoa boa na estrada, que me deu de presente uns atuns em lata e três miojos", conta. Pelo menos o clima tem contribuído nos últimos dias. Segundo Georgios, o sol tem aparecido com mais frequência, proporcionando condições melhores para pedalar durante o dia, depois de semanas enfrentando temperaturas baixas, chuva e ventos fortes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De São Vicente ao sonho de Ushuaia A aventura começou em 3 de abril, Sexta-feira Santa, quando Georgios deixou São Vicente, na Baixada Santista, levando o essencial para enfrentar uma viagem de milhares de quilômetros. Nascido na Grécia e criado no Brasil, o ajudante de pedreiro decidiu transformar em realidade um desejo que vinha alimentando havia anos: conhecer novos lugares, culturas e pessoas utilizando a bicicleta como principal meio de transporte. Antes de partir, passou aproximadamente um ano pesquisando sobre cicloturismo, planejando rotas e buscando informações sobre como sobreviver com poucos recursos durante uma viagem de longa distância. Ao longo do percurso, passou pelo Uruguai e por diferentes regiões da Argentina. Enfrentou montanhas, estradas desertas, subidas íngremes, temperaturas baixas e problemas mecânicos que, em diversos momentos, colocaram em dúvida a continuidade da aventura. Em setembro, quando estava em San Martín de los Andes, na região da Patagônia argentina, Georgios relatou dificuldades com a alimentação, falta de dinheiro e dores no joelho. Na ocasião, chegou a passar dias de chuva com roupas e equipamentos molhados. O ciclista também precisou contar com doações para comprar alimentos, gás de cozinha e peças para a bicicleta. No início de outubro, conseguiu regularizar sua permanência na Argentina, garantindo autorização para continuar no país até dezembro. Apesar das dificuldades, nunca abandonou o objetivo de alcançar Ushuaia, conhecida como uma das cidades mais austrais do mundo e um dos destinos mais desejados por cicloviajantes. A poucos quilômetros de realizar um sonho Agora, após mais de seis meses de estrada, a chegada ao destino parece mais próxima do que nunca. Em uma publicação sobre a jornada, Georgios compartilhou os sentimentos que acompanham a reta final da aventura. "Às vezes, bate o cansaço, a saudade e até aquele frio na barriga de pensar que estamos tão perto de realizar esse sonho. São mais de 7 mil quilômetros pedalados desde o Jardim Rio Branco, em São Vicente, com a nossa Azulzinha. E pensar que tudo começou com apenas R\$ 48 no bolso e um sonho enorme no coração", escreveu. Para o ciclista, a experiência ultrapassou o desafio físico de cruzar países pedalando. A viagem se transformou em uma oportunidade de conhecer pessoas, enfrentar os próprios limites e descobrir a importância da solidariedade. "Hoje, não é só sobre chegar ao Ushuaia. É sobre tudo que vivi, as pessoas que conheci, as mãos que me ajudaram e a força que descobri dentro de mim", destacou. Mesmo com o corpo cansado e a bicicleta precisando de reparos, Georgios mantém a esperança de concluir a jornada ainda neste mês. "Faltam 1.350 km. O corpo sente o peso da estrada, mas o coração está cheio de esperança! Se Deus nos trouxe até aqui, é porque ainda temos uma história linda para terminar de escrever", finalizou.