Com quase 80 mil habitantes, ou 18,9% da população de Santos, essa região santista se distingue da Zona Leste e dos Morros com cultura, hábitos e vida próprios. E deve melhorar (Sílvio Luiz/ AT) Palco do tradicional carnaval santista e pioneira nas rádios comunitárias da região: a Zona Noroeste completa seu 48º aniversário neste domingo (25). Com quase 80 mil habitantes e abrigo de 18,9% do Município, a macrorregião santista se distingue da Zona Leste com cultura, hábitos e vida própria. Rica em cultura com empreendimentos como a Passarela do Samba Dráusio da Cruz, o Céu das Artes e o Instituto Arte no Dique, a Zona Noroeste (ou apenas ZN) possui uma grande mistura cultural, vinda da enorme gama de moradores de outras partes do País que, na época, vieram a Santos buscando por uma vida melhor. O samba, forró, rap e o funk santista respiram Zona Noroeste em festas tradicionais que por lá ocorrem, como o Pagode da Praça Jerônimo La Terza (conhecida popularmente como Praça do Ponto Final), o Forró do Asa Branca e o baile da Thelma. A aniversariante abriga os bairros Alemoa, Areia Branca, Bom Retiro, Caneleira, Castelo, Chico de Paulo, Ilhéu Alto, Piratininga, Porto Alemoa, Porto Saboó, Rádio Clube, Saboó, Santa Maria, São Jorge, São Manoel e Vila Haddad. Povoada por 79.136 habitantes, a Zona Noroeste celebra o domingo (25) com a passagem da imagem da padroeira de Santos, Nossa Senhora do Monte Serrat. Depois de percorrer as ruas da macrorregião em procissão, a imagem chega à Igreja Santa Margarida Maria, que fica na Praça Júlio Dantas, onde às 19 horas será celebrada uma missa em comemoração. Para sanar um dos maiores problemas da região, que são as enchentes, o aniversário também será marcado pela assinatura do contrato de empréstimo na próxima sexta-feira (30) entre a Prefeitura de Santos e o banco Corporação Andina de Fomento (CAF) para o financiamento das obras do Programa de Macrodrenagem, Acessibilidade, Inovação e Sustentabilidade, o Santos Mais. Posteriormente, no próximo sábado (31), haverá um Desfile Cívico-Militar em comemoração ao 48º Aniversário da Zona Noroeste e à Semana da Pátria será realizado a partir das 9 horas, na Passarela do Samba Dráuzio da Cruz, que fica na Avenida Afonso Schmidt no bairro, Castelo. Enquanto os empreendedores da área também terão um espaço para mostrar seus trabalhos, dos dias 31 de agosto e 1º de setembro, a partir das 13 horas, na Feira de Empreendedores da Zona Noroeste, que será realizada no também Sambódromo, com cerca de 60 expositores e área de alimentação. Ainda no Sambódromo, no próximo domingo (1º), o encerramento dos festejos de aniversário será com o Baile da Zona Noroeste, um evento tradicional de dança voltado para a população de 60 anos ou mais. Anteriormente, no sábado (24), foi celebrado um culto de aniversário às 19h30 pelo conselho de pastores, na Assembleia de Deus, que fica na Rua General Humberto Souza Melo, no bairro Areia Branca. ‘Nunca vou sair’ Morador da Zona Noroeste há 55 anos, o promotor de eventos Katito Ferreira diz que considera a região uma “cidade à parte” e, se depender dele, continuará morando nela até o fim da vida. Não foi nascido na macrorregião, mas não poupa elogios ao nostalgicamente relembrar que foi “muito bem” criado nela. O promotor de eventos é enfático ao dizer que raramente sai da ZN, afinal tudo que precisa no cotidiano está próximo. “Já tive oportunidade de sair (se mudar da região), tenho família em Santa Catarina, mas tenho uma história aqui e quando se tem raiz em um lugar, é difícil de sair”. “Sempre vou no mercado ou médico aqui. Nunca tive vontade de sair. Minhas filhas tiram até sarro e falam ‘meu pai nunca sai da Zona Noroeste’. Até vou viajar, mas sempre volto para cá. Aqui é como se fosse minha esposa, daqui eu só saio quando for ‘dessa para a melhor’”, comenta. Katito é morador do Rádio Clube, o maior bairro da ZN (17.414 habitantes), e trabalha socialmente para a comunidade com destaque no ramo da música. O gênero que luta para ensinar e popularizar novamente é o Funk Consciente, aquele que ganhou vida no começo dos anos 90 com cunho mais crítico e politizado. O promotor de eventos sempre foi ligado às rádios comunitárias e projetos sociais. Hoje atua no Instituto Arte no Dique. “Gosto muito de cultura. Estou trabalhando há muito tempo em rádio comunitária aqui da Zona Noroeste. Também temos um podcast que nós estamos contando a história do funk consciente e estamos gravando agora”. “Sou um cara pioneiro no movimento do funk. Funk é cultura. Tem aquela discriminação também, da polícia e da própria sociedade, mas a gente sempre trabalha em um funk cultural. Não é esse funk de sacanagem. O gênero, para nós, é uma cultura de periferia, de comunidade”, explica. Katito confessa que gostaria de deixar um legado no funk santista, principalmente pela sua atuação de incentivo a nova geração em ter contato com o gênero musical de uma forma mais politizada. “Tenho uma história, porque o funk santista praticamente começou aqui (na ZN)”. O gênero, originado no Rio de Janeiro, foi popularizado nas comunidades de Santos antes mesmo de se tornar uma febre na capital paulista e deu fama a nomes como o MC Careca, um dos pioneiros no Litoral Paulista. O funk criado na região, segundo Katita, se distingue dos demais, mas não cresce por falta de investimento e não se render às vertentes mais populares, como o ‘ostentação’ e o ‘proibidão’. Instituto Arte no Dique, fundado há 21 anos, oferece oficinas de arte, cultura, esporte, tecnologia e empreendedorismo de forma gratuita (Divulgação) Arte do Dique É na Zona Noroeste que fica a maior comunidade de palafitas do Brasil e da América Latina, segundo artigo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o Dique da Vila Gilda. Por lá, projetos sociais exportam os moradores para o mundo por meio da arte e da educação. O mais conhecido é o Instituto Arte no Dique, que foi fundado há 21 anos por José Virgílio Leal ou, para muitos, Zé Virgílio. O projeto voluntário oferece oficinas de arte, cultura, esporte, tecnologia e empreendedorismo para os moradores da macrorregião. Além de já ter projetado os músicos santistas Gabriel Prado e Jorge Santos para orquestras na Itália e na França, respectivamente. O Arte no Dique conta com um projeto de intercâmbio e parceria com universidades que dão bolsas aos jovens assistidos pelo instituto. Com orgulho desta jornada, Zé ressaltou que o projeto fica em frente às palafitas justamente para atrair a população para ter acesso aos serviços. “Estamos ali dando possibilidade de ampliar a mente daquela criança com uma informação que, com certeza absoluta, saia dali com a mente limpa. Isso não tem preço. A arte e a cultura foram fundamentais para a transformação ali das palafitas, onde existem trabalhadores, pessoas honestas e decentes”, afirma Zé. Investimentos Recentemente, a Zona Noroeste recebeu investimentos significativos, incluindo a instalação da primeira estação elevatória com comporta no bairro Castelo (EEC7), a revitalização da Avenida Álvaro Guimarães, no Rádio Clube, e a entrega da Unidade Municipal de Ensino (UME) Doutor José Carlos de Azevedo Jr (São Manoel) e do conjunto habitacional Santos Y – Bananal (Caneleira). Atualmente, a Prefeitura de Santos informou que está em andamento a construção do conjunto Prainha II (Zona Noroeste), que contará com 574 unidades habitacionais e está prevista para ser concluída no primeiro semestre de 2025. Também estão planejadas mais 864 unidades habitacionais em um terreno no Estradão (Santos V) para reassentar famílias que vivem em palafitas. Também é esperada a construção de quatro novas estações elevatórias com comportas nos bairros Bom Retiro/Santa Maria (EEC2), Rádio Clube (EEC4), Saboó (EEC6) e Chico de Paula (EEC9), e a pavimentação de todas as vias do bairro Areia Branca. No total, o programa receberá investimentos de R\$ 700 milhões. No âmbito do projeto Parque Palafitas, um plano de urbanização considerado inédito no País, serão construídas 60 unidades habitacionais no Dique da Vila Gilda como parte de um projeto-piloto. A Administração destacou que a empresa responsável pela infraestrutura da primeira etapa já foi escolhida e as obras previstas para começarem em novembro deste ano. Katito, à direita, promotor de eventos, e antigos amigos: tem história (Divulgação) O bairro São Manoel também receberá investimentos de até R\$ 178,7 milhões para urbanização, regularização de habitações e construção de novas moradias, seguindo o modelo do projeto Parque Palafitas. Ao todo, 1.500 famílias do Caminho da União serão beneficiadas com regularização fundiária, melhorias em suas habitações ou novas moradias, além de urbanização das vias, com a criação de espaços verdes e comunitários, entre outras melhorias. Ainda este ano, também serão iniciadas obras de drenagem, pavimentação, paisagismo e iluminação na Rua Augusto Scaraboto, na Alemoa, para melhorar as condições de tráfego e segurança para os cerca de oito mil caminhões que passam diariamente pelo Porto através do bairro industrial. A previsão é que as obras sejam concluídas 12 meses após a emissão da ordem de serviço, que ocorrerá nas próximas semanas. O secretário de Governo, Fábio Ferraz, destacou que será na Zona Noroeste que será construído o primeiro Hospital Veterinário Municipal, no bairro Bom Retiro, com a previsão de conclusão em abril de 2025. “Também há a Policlínica do Dique da Vila Gilda, que tem a previsão de entrega para o mês de novembro, será uma das maiores policlínicas da cidade e que eu acredito que vai ser bastante importante, porque ela vai dividir um pouco a demanda da Policlínica do Rádio Clube, que é a com segundo maior em volume de atendimento da cidade”, comenta. A região também será beneficiada com a construção de um hospital pediátrico com 30 leitos, uma unidade de ensino fundamental e instalações esportivas, no Complexo da Areia Branca. O hospital e a escola estão sendo construídos na esquina da Rua César Augusto de Castro Rios com a Rua Afonso Schimidt, resultado de uma parceria entre a Prefeitura de Santos e empresas do setor portuário, viabilizada por meio de permutas de áreas industriais na região da Alemoa. “Será o único hospital pediátrico da Cidade e da região, com destinação já prevista de 30 leitos e, no mesmo espaço, também terá uma unidade de Ensino Fundamental, além de instalações esportivas. Por isso, a gente está chamando de Complexo da Branca. As obras tiveram início agora em junho e tem previsão de entrega em 18 meses”, ressalta Ferraz. Também estão em andamento obras de pavimentação e drenagem no bairro do Saboó e Rádio Clube (Dique), a revitalização do espaço público do Caminho da Capela, a implantação de campo de futebol em gramado sintético na Caneleira (próximo à descida do Morro da Nova Cintra) e do Centro de Especialidades Odontológicas da Zona Noroeste, com entrega prevista para outubro deste ano. Além disso, também estão em andamento as construções da Policlínica e Centro da Juventude da Vila Gilda, da UME Hilda Rabaça, da UME Flávio Cipriano (São Manoel), de reservatórios da UME Oswaldo Justo (Chico de Paula), da climatização do Hospital e Maternidade Silvério Fontes (Castelo) e das novas policlínicas do São Jorge e Caneleira, com conclusão prevista para este semestre. História Embora registros históricos indiquem que a ZN tenha sido ser povoada com a instalação da linha dos bondes da City ainda na década de 20, o começo da ocupação foi lembrado pelo Diário Oficial de Santos em um sábado do dia 26 de agosto de 2000. Tradicional, seu aniversário é celebrado sempre no último domingo do mês pela Prefeitura. De acordo com os dados do IBGE 2022, a Zona Noroeste conta com 79.136 moradores, distribuídos entre os bairros da Alemoa (1.781 habitantes), Areia Branca (9.584), Bom Retiro (8.080), Caneleira (3.661), Castelo (8.810), Chico de Paula (2.446), Ilhéu Alto (1.367), Piratininga (785), Rádio Clube (17.414), Saboó (9.848), Santa Maria (3.553), São Jorge (6.327), São Manoel (5.322) e Vila Haddad (158). Ao todo, são 11 milhões 470 mil m² de área, o equivalente a 38% da Ilha de São Vicente. Hoje, pontos importantes do Município estão abrigados na macrorregião como o Cemitério do Saboó, o Engenho de São Jorge dos Erasmos, o Jardim Botânico Chico Mendes (conhecido como Horto Municipal) e o Monumento ‘O Peixe’, de Rica Mota, que marca a entrada de Santos.