Há regiões que crescem quando chegam as obras. A Zona Noroeste cresceu pelas mãos de quem chegou antes delas. Quando ainda faltavam asfalto, água, iluminação e infraestrutura, moradores abriram caminhos, aterraram terrenos, construíram casas e organizaram a própria vizinhança. Cinquenta anos depois de sua criação oficial, a região mudou bastante, mas preserva uma característica que atravessa gerações: o sentimento de pertencimento de quem fez – e ainda faz – daquele pedaço de Santos uma casa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso de Marilete Bernardino de Souza Santiago, de 62 anos. Nascida no Bom Retiro, ela mora no bairro até hoje. Décadas depois, ainda percorre o mesmo caminho que fazia quando criança. Diariamente, ia da escola para casa passando pelo local onde hoje está o Jardim Botânico Municipal. Atualmente, é ali onde faz suas caminhadas. Assim como aquela menina, a Zona Noroeste cresceu e, como ela diz, “mudou muita coisa”. O que permaneceu foi seu amor pela região. Quando se casou, fez uma exigência ao marido: continuaria morando ali. Há 12 anos, os dois compraram uma casa no mesmo bairro. A história de Marilete ajuda a resumir uma transformação que começou muito antes de a Zona Noroeste existir oficialmente. Em 26 de agosto de 1976, uma lei municipal instituiu a região e determinou que seu aniversário fosse celebrado no último domingo de agosto. A ocupação, porém, já atravessava séculos. Segundo Sergio Willians, que é jornalista, pesquisador da história de Santos e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), um dos primeiros marcos está no século 16, com o Engenho dos Erasmos, um dos mais antigos do Brasil, instalado por volta de 1534 na área próxima aos atuais bairros Caneleira e São Jorge. “Não existe uma continuidade urbana entre o engenho do século 16 e os bairros que surgiram séculos depois, mas ele mostra que aquela região, muitas vezes associada apenas à expansão urbana do século 20, já tinha importância econômica desde o início da colonização”. De acordo com Willians, a ligação entre Santos e São Vicente, os transportes sobre trilhos e a instalação do Matadouro Municipal, em 1916, na Avenida Nossa Senhora de Fátima, ajudaram a formar os primeiros núcleos. A região, marcada por manguezais, áreas baixas e alagadiças, também precisou ser aterrada e drenada. A grande transformação veio nas décadas de 1940 e 1950. A construção da Via Anchieta e a industrialização de Cubatão atraíram trabalhadores de diferentes partes do País, muitos em busca de terrenos mais baratos do que nas áreas centrais ou próximas às praias. Essas famílias não apenas ocuparam a região. Em muitos casos, ajudaram a construí-la. Moradores aterraram terrenos, abriram caminhos, ergueram casas e se organizaram para reivindicar água, iluminação, pavimentação, transporte, escolas e unidades de saúde. Grandeza em números A Zona Noroeste conta com cerca de 80 mil moradores em 12,3 mil km2. O Censo 2022 do IBGE mostra que os 17 bairros passaram de 22.240 domicílios, em 2000, para 32.484, em 2022, representando um crescimento de 46,06%. O Rádio Clube é o bairro mais populoso, com 17 mil habitantes. Alemoa é o maior em extensão, com 2,51 km2. Douglas e seu avô Nivio: passeio pelo Jardim Botânico (Breno Sant’Anna) Histórias e origens diferentes, mas com o mesmo destino A ligação com a Zona Noroeste não pertence apenas a quem nasceu ali. Douglas Conrado, de 29 anos, chegou ao Bom Retiro há três anos, vindo do Marapé. Antes da mudança, tinha ouvido comentários negativos sobre a região. A experiência cotidiana produziu outra impressão. “A melhor coisa que eu fiz foi morar para cá”, avalia. No bairro, encontrou campos de futebol, espaços gratuitos de lazer e uma relação mais próxima com a natureza. A história de Rosemary Vitorino, de 55 anos, moradora do São Jorge, tem outro ponto de partida. Vinda do ABC Paulista, ela chegou à região depois de se casar. “O amor que me trouxe para morar aqui”, brinca. Valdete Ribeiro, de 72 anos, chegou à Zona Noroeste aos 8 anos. Depois de deixar Santos para viver no interior, voltou para a casa dos pais após ficar viúva. Hoje, mora no bairro Castelo e mantém amizades construídas ainda na infância. “Tenho muitos amigos que moram aqui, que nasceram e foram criados comigo”. Investimentos Atualmente, a Zona Noroeste passa por uma nova etapa de investimentos. Segundo a Prefeitura, projetos anunciados, conveniados, realizados ou em execução somam mais de R\$ 564 milhões em áreas como saúde, habitação, infraestrutura, lazer e mobilidade. Entre as intervenções estão o novo Centro de Especialidades Odontológicas, o Hospital Pediátrico do Complexo Areia Branca, a recuperação do Centro Cultural e Educacional da Zona Noroeste, a revitalização da Praça Paz Universal e obras no campo da Caneleira. Também estão em andamento a dragagem do Rio São Jorge, a modernização viária da Alemoa Industrial e a construção da Estação Elevatória com Comportas 6, voltada à redução dos impactos das enchentes. Na habitação, o Parque Palafitas representa uma das principais frentes de transformação da Vila Gilda.