[[legacy_image_275442]] Há 115 anos, em 18 de junho de 1908, 781 japoneses desembarcavam no Porto de Santos, após quase dois meses de viagem no Kasato-Maru — iniciada em 28 de abril. Eram os primeiros passos da imigração nipônica no Brasil, que perdurou nas décadas seguintes. Muitos imigrantes vieram morar na Cidade que os acolheu e realizou seus sonhos, com amor dividido entre os dois países. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Aos 80 anos, Yasuo Kinjo, que mora no Boqueirão, é um retrato disso. Literalmente. O sonho dele era ser fotógrafo. E conseguiu. Esse não foi o caminho imediato de Kinjo ao desembarcar, em 1960, juntamente com os pais (Take e Tokuichi) e os quatro irmãos (Hideo, Mitsuo, Yasuko e Hidemasa), após quase 50 dias de viagem de navio da Ilha de Okinawa, onde nasceu. Era um local ainda dominado pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial (1939- 1945). “Okinawa sofria frequentemente com furacões, terremotos e fortes chuvas. Em 1959, houve um forte tufão e um terremoto. Perdemos tudo, e muitas pessoas morreram com essa tragédia, o que motivou a família a mudar de país”, conta Kinjo. Embora o pai fosse especializado em construções feitas em uma técnica de marcenaria que não utilizava pregos, apenas encaixes, o destino da família foi a lavoura: passaram dois anos em um cafezal em Tupã, no Interior. Nas fotos, a família O retorno a Santos aconteceu em 1962 e, de quebra, o início de sua trajetória na fotografia no Foto Gonzaga, do compatriota Tokuso Oshiro. Seis anos depois, em 1968, Yasuo Kinjo entrou no hoje extinto jornal Cidade de Santos, onde permaneceu até 1976. Em meio aos registros de pessoas ilustres de várias áreas, casos de Pelé e Emerson Fittipaldi, além de políticos e artistas — todos arquivados e disponíveis na Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams) —, a família de Yasuo Kinjo crescia. Foi no periódico que conheceu e se casou com a publicitária Vera Lúcia Vieira Kinjo, que morreu em 2012. Da união, nasceram duas filhas: Vera Hikari Kinjo e Alice Mayumi Kinjo Okumura. E ainda há o neto Jun Kinjo Okumura, de 12 anos, um jovem tenista que enche o avô de orgulho. Outra vertente do trabalho de Kinjo por trás das câmeras foi o Foto e Vídeo Boqueirão, na Avenida Epitácio Pessoa. O estabelecimento funcionou por 33 anos, até a aposentadoria e a dedicação dele aos pais idosos e, posteriormente, à esposa, com insuficiência cardíaca. [[legacy_image_275443]] Longevidade Aos 80 anos, Yasuo Kinjo procura viver com qualidade. Dorme e acorda cedo, exercitando a mente e o corpo, com leitura, caminhadas na praia, musculação e alongamento. Tudo isso, acompanhado de uma alimentação saudável. Para Kinjo, Santos é sua segunda cidade natal. A primeira, naturalmente, é a Ilha de Okinawa, que tem clima parecido e, por essa razão, acredita ter sido fácil para ele a adaptação ao Município. “Amamos o Brasil e, principalmente, a cidade de Santos, que nos acolheu, onde fomos e somos muito felizes, formamos a nossa família, fizemos bons amigos e nunca nos faltou trabalho”, sintetiza. Nos pastéis, a famaO aroma dos pastéis está na vida de Akira Otani. E, também, nas dos santistas que conhecem os 56 anos de fama e sabor do Pastel do Akira, na Ponta da Praia. É mais que a idade do filho, Roberto Minoru Otani, com 50, que administra o estabelecimento. [[legacy_image_275444]] Ainda que, hoje, Akira fique mais atento à atividade física e às plantas em casa — em especial, às orquídeas, sua espécie preferida —, ele não deixa de acompanhar parte do processo de feitura dos pastéis, iniciado ainda de madrugada. “Meu pai já não está mais nos afazeres, mas acompanha minha mãe (Iolanda) todos os dias às 3 da manhã até a pastelaria, quando iniciamos os trabalhos, fazendo recheio e massa todos os dias”, conta Minoru. O local fica aberto das 10 às 15 horas — ou antes, caso a massa acabe. Entre 15 e 19 horas, limpeza e providências para o dia seguinte. Caminhos Akira Otani desembarcou no Porto de Santos aos 15 anos, em 1960, com os pais e dois irmãos. Todos foram para uma lavoura no Interior. Os problemas com agrotóxicos os obrigaram a voltar à Cidade. “Meu avô possuía barco de pesca no Japão, e meu pai veio trabalhar com pescado em uma indústria chamada Tayo. Nesse meio tempo, meu avô aprendeu com um amigo a massa do pastel e, assim, começou”, conta Minoru. Aos 14 anos, Minoru já fechava pastéis com os pais e os ajudava sempre que podia. Foi essa sua rotina até fazer 32 anos, quando se casou e se mudou para o Japão. “Quando retornei, em 2008, meu pai sugeriu que tentasse tocar o negócio da família, já pensando em, aos poucos, ir deixando as tarefas”, lembra Minoru. “Fiz o caminho inverso do meu pai e só assim descobrimos o quanto o Brasil é um país maravilhoso, onde tudo poderia ser muito melhor. Adoro Santos e somos privilegiados por termos natureza e metrópole no mesmo lugar. Acho que dificilmente sairia daqui”. Satisfação Além dos pastéis de carne, queijo, parmegiana, palmito, pizza, camarão (com e sem queijo) e, às vezes, atum e polvo com queijo, o cardápio do Akira também conta com a satisfação. E essa não tem preço fixado. “Administrar a pastelaria não é nada diferente de fazer isso em uma casa. Dá trabalho, mas nos traz muita alegria e satisfação. Todo o esforço é recompensado com a satisfação de ver o cliente feliz em provar nosso produto. Não tem alegria maior”, afirma Minoru.