Ação reúne lideranças de nove países e sete estados brasileiros (Vanessa Rodrigues/AT) Nem a chuva da manhã de nesta sexta-feira (24) interrompeu o trabalho de voluntários de quatro continentes na Praça Nagasaki, na Vila Nova, em Santos. Enquanto uns limpavam o terreno, outros preparavam canteiros, montavam bancos ou organizavam ferramentas. Em comum, compartilhavam um objetivo: transformar, em apenas três dias, sonhos apontados pelos moradores em melhorias concretas para o bairro. A ação integra o programa Guerreiros sem Armas, do Instituto Elos, que reúne lideranças de nove países — entre eles, Angola, Bangladesh, Colômbia, Holanda, México e Zimbábue —, e de participantes de sete estados brasileiros. Até domingo (26), eles atuam em mutirões no Paquetá e no Dique da Vila Gilda. Iniciativa visa realizar desejos coletivos na Vila Nova, no Paquetá e na Vila Gilda, melhorando espaços públicos (Vanessa Rodrigues/AT) Segundo a facilitadora do Instituto Elos, Thais Brandt, os trabalhos do grupo na região começaram muito antes de pôr as mãos na massa. “A partir de uma escuta dos moradores, identificamos sonhos em comum e também as potências, talentos e recursos existentes aqui. A partir disso, a gente viu o que poderia materializar em três dias.” Na Vila Nova, o sonho foi a revitalização da praça e a plantação de uma horta comunitária na Associação dos Cortiços do Centro, no Paquetá. Entre os serviços no mutirão, estão recuperação do playground, pintura da quadra, instalação de iluminação em conjunto com a Prefeitura, novos bancos, paisagismo e limpeza do espaço. As ideias são concretizadas com mão de obra voluntária, doações e parcerias. O trabalho é coletivo. Moradores participam da construção, e profissionais da comunidade, como serralheiros e pintores, repartem conhecimentos. Os participantes internacionais e brasileiros atuam como facilitadores e mão de obra, aprendendo a metodologia para reproduzi-la em suas cidades e países. Luta para entender o outro Mais do que revitalizar a praça, o mutirão deixa um legado além da estrutura física. Enquanto trabalham, pessoas de lugares separados por milhares de quilômetros descobrem que, quando o sonho é coletivo, a distância deixa de importar. Esse é o aprendizado essencial para zimbabuana Mercy Maruza, de 25 anos. “Aprendi a importância de fazer as coisas juntos. Para muitas coisas você não deve trabalhar sozinho. Quero levar esse espírito de trabalho comunitário para a minha comunidade”, diz. Senso de comunidade marca participantes brasileiros e estrangeiros (Vanessa Rodrigues/AT) Do outro lado da África, o angolano Zongo Mpembele Mpaka, de 30 anos, afirmou que busca troca de experiências. “O que me interessou foi o senso da comunidade para a resolução de problemas, porque são coisas que também faço no meu país. E ouvir pessoas de diferentes partes do mundo partilhando experiências é profundamente inspirador.” Essa forma de trabalhar chamou a atenção da pernambucana Jessie Deivis, de 27 anos, que atua há cerca de dez em movimentos comunitários em Recife. “Aprendi aqui a escutar mais. Muitas vezes a gente chega com uma solução antes mesmo de fazer a pergunta. Quando ouvimos a comunidade, entendemos que o sonho era outro.” Para a jovem Aysha Siddiqua Tithi, de 23 anos, que veio de Bangladesh, a principal lembrança será como foi recebida pelos moradores, apesar da barreira do idioma. “Eles não falam inglês, e eu não falo português, mas eles sempre me acolheram, oferecem comidas, bebidas, e isso é muito amável para mim.”