[[legacy_image_191175]] O desaparecimento de um navio no Triângulo das Bermudas, no Oceano Atlântico, há quase 46 anos, pode ter uma consequência trabalhista nesta quinta-feira (14) na 6ª Vara do Trabalho de Santos. Em julgamento, uma ação de indenização movida por Joana Alves Damasceno, de 82 anos, companheira do marinheiro Edivaldo Ferreira de Freitas. Ele era um dos nove brasileiros entre os 37 desaparecidos a bordo do cargueiro Sylvia L. Ossa, que sumiu na região que forma um triângulo imaginário entre o arquipélago das Bermudas, o estado da Flórida, nos Estados Unidos, e a cidade de San Juan, em Porto Rico, em outubro de 1976. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! De propriedade da empresa panamenha Ominum Leader, o Sylvia L. Ossa esteve atracado no Porto de Santos, segundo matéria de A Tribuna, de 2 a 8 de setembro de 1976. Depois rumou para Tubarão (ES), onde foi carregado com minério de ferro, que tinha como destino a Filadélfia, nos Estados Unidos. A previsão de chegada era 15 de outubro de 1976, mas a embarcação nunca atracou no porto norte-americano. Segundo relatos da época, o comandante informou pelo rádio, no dia 13, que enfrentava problemas na região do Triângulo das Bermudas antes do navio desaparecer, deixando apenas um bote salva-vidas à deriva como vestígio. Semanas antes do sumiço do Sylvia L. Ossa, A Tribuna publicou que a embarcação chegara a Santos, vinda do Porto de Tampa, na Flórida, para descarregar 23 mil toneladas de adubo a granel e por pouco não colidira com o Cais da Mortona, nas imediações do armazém 27. Em um trecho, o texto destaca a tripulação, composta por 37 homens de dez nacionalidades diferentes, e cita que as máquinas do antigo petroleiro datavam de 1943 e o casco, de 1964. “Segundo alguns comentários no local da atracação, o navio possui apenas mais dois anos de vida útil, fato que, visto as condições em que se encontra — envelhecido e desgastado — parece ser bastante sensato", apontou a matéria. [[legacy_image_191176]] União no CarnavalA história que conecta Joana, Edivaldo e o Sylvia L. Ossa começou em Recife (PE), há 50 anos, quando ela tinha 32 anos. “Foi um namoro muito lindo, pulando Carnaval, aí se juntamos. Viemos para Santos, porque ele já estava embarcado, e ele ficou seis meses no cais como estivador. Depois ficou doente, uns seis meses encostados no INSS. Aí pegou o navio L. Ossa e não voltou nunca mais”, recordou a aposentada em entrevista à TV Tribuna. Acostumada com as viagens do companheiro, que ficava meses no mar, ela ficou sabendo da tragédia quando assistia televisão. “De repente apareceu na televisão que o navio tinha sumido no Triângulo das Bermudas. Eu falei ‘nossa, é o navio do Edivaldo!’ Me troquei e corri pro escritório pra confirmar. Cheguei lá e tava todo mundo esperando. E eles (empresa) fazendo a busca pra ver se encontrava, mas nunca mais. O coração ficou triste, até hoje está triste”, lamentou. Antes de Edivaldo embarcar, Joana só sabia que o destino do marinheiro seria os Estados Unidos, mas não tinha ideia sobre a rota do navio. E nem se dava conta, ao certo, dos perigos do Triângulo das Bermudas, famoso pelo desaparecimento de mais de uma centena de navios e aviões desde o final da Segunda Guerra, segundo matéria publicada em 2018 pela Revista Superinteressante. “Eu sabia mais ou menos que quem passasse por lá, o mar chamava e aí desaparecia. Já tinha essa lenda, essas estórias”. [[legacy_image_191177]] A busca por JustiçaSozinha, Joana se viu em dificuldades financeiras, porque Edivaldo sustentava a casa. “Tive que correr atrás da bola pra poder sobreviver, trabalhava de costureira”, disse a aposentada, que hoje mora no Jardim Rio Branco, em São Vicente. A única ajuda que teve da interventora de sinistros, à época, foi de um salário que o marinheiro tinha direito a receber. Uma ação de indenização tramitou na Justiça Americana de 1976 até 2001, quando foi negada pela Suprema Corte. A esperança de Joana reacendeu quando ela conheceu os advogados da Furno Petraglia e Pérez Advocacia, de Santos. Apresentando documentos que confirmaram a sua relação com Edivaldo, inclusive o recibo, em nome dele, que ela recebeu em 1976, no valor de 3.060,75 cruzeiros da empresa panamenha Ominum Leader, e a certidão de morte presumida de Edivaldo, o processo foi sendo montado. “Começamos a estudar e pesquisar o caso, a minha sócia foi a Nova York olhar e pegar cópias do processo. Pela Justiça americana, vale a autonomia da vontade. Para eles, se ela recebeu e assinou que estava dando quitação. seria para encerrar qualquer discussão sobre o assunto. Mas às vezes as pessoas assinam sem saber o que é. No Brasil é diferente”, disse o advogado Leandro Furno Petraglia. No mês passado, as empresas Frota Oceânica, operadora naval do Rio de Janeiro, e a P&I Brazil, interventora de sinistros, fizeram as suas defesas em audiência do processom em que Joana também prestou depoimento. “Foi um trabalho grande, porque a Ominum panamenha não tem representação no Brasil. Buscamos outra empresa do grupo, a Frota Oceânica, e a P&I Brazil, interventora de sinistros, antiga Pandibra, que à época tomou à frente para pagar as indenizações e levou a dona Joana a um cartório”. Nesta quinta-feira (14), a expectativa é que o juiz da 6ª Vara do Trabalho de Santos dê sentença a favor da reclamante. “O ponto crítico é a data do fato, mais de 40 anos depois, mas temos confiança de que o juiz acate o que pedimos, a indenização material, com uma pensão à dona Joana, de cinco anos para cá, que é permitido cobrar, já que o Edivaldo era o provedor. E uma indenização moral, pelo sofrimento que ela passou”, comentou Petraglia, avaliando a causa entre R\$ 150 mil e R\$ 200 mil. Saudosa do companheiro, que um dia partiu sem saber que a despedida entre os dois seria a última, Joana só quer realizar um velho sonho caso receba a indenização. “Espero receber, comprar um cantinho pra mim, uma casinha, que nem casa eu tenho. A vida é difícil, ainda hoje com essa epidemia. No mais, a gente vai levando a saudade”.