O velório da ex-prefeita de Santos Telma de Souza (PT) não tinha o mesmo ambiente dos lutos convencionais. O espaço estava vivo, repleto de vozes, abraços cruzados e encontros, típico do ambiente de debate vibrante e posições firmes que Telma sempre cultivou e gostou de ter ao seu redor. Porém, em uma cadeira bem ao lado do caixão, o silêncio se concentrava em uma mulher que compartilha o mesmo nome e a mesma idade (82 anos) da ex-prefeita, além de uma amizade que atravessou mais de sete décadas de história. Telma Simões esperava viver mais momentos com a xará, com quem dividiu tantas lutas. Companheira de uma vida inteira, a professora aposentada mantinha um recolhimento íntimo que parecia ignorar o barulho ao redor, neste domingo (11), no Salão Nobre da Prefeitura de Santos. Ao ser perguntada sobre a amiga, porém, desabafou com doçura e emoção. "É uma pena que ela esteja indo. Vai iluminar o outro lado, porque ela fez muito, ajudou muitas pessoas com seu modo de ser e sua forma de fazer política". A história das duas Telmas começou muito antes dos palanques e das urnas. Era 1954 quando as meninas de 10 anos se cruzaram pela primeira vez na primeira série do antigo ginásio do Instituto de Educação Canadá, em Santos. Ali, ao longo de quatro anos em que foram inseparáveis, construiu-se um laço que resistiria ao tempo e às exigências da vida pública. Entre os livros e as salas de aula, a futura prefeita já deixava transparecer a dedicação e o rigor que marcariam sua vida pública. "A Telma era extremamente simpática, alegre, a primeira aluna da classe. Muito responsável, compenetrada. Lembro que ela ficava muito preocupada em tirar notas altas", recordou Telma Simões, sorrindo ao resgatar da memória os tempos em que, escondidas dos inspetores, as duas garotas costumavam correr de mãos dadas pelos corredores da escola. Ainda no colégio, segundo a amiga, a vocação de Telma de Souza para a liderança e para reunir pessoas era evidente. "A Telma já agrupava, ela já tinha o espírito de liderança que era perceptível naquela época. Ficamos amigas sempre". Vida pública A amizade de infância desaguou naturalmente na militância. Telma Simões esteve ao lado de Telma de Souza desde a primeira candidatura da ex-prefeita à Câmara de Santos (1982), trabalhando nas campanhas e na gestão pública. No Governo Telma de Souza (1989–1992), Telma Simões atuou como assistente na Secretaria Municipal de Educação (Seduc), ao lado da então secretária Maria Lúcia Prandi. Em 1992, quando Maria Lúcia deixou a pasta para concorrer à Câmara Municipal (foi eleita com 4.987 votos, a maior votação daquela disputa, tornando-se a única mulher a presidir o Legislativo santista), Telma Simões assumiu o comando da Seduc por cerca de quatro meses. "Foi uma experiência marcante. Naquele tempo, a Educação era referência. Começamos com um projeto educacional muito sério, com vaga para todos, a escola voltando a ter sua parte artística, o grêmio estudantil, além de um trabalho forte de preparação, atualização e debate com os professores. Foi tudo se aprimorando e evoluindo", lembra a professora aposentada. Ao olhar para o legado da ex-prefeita, Telma Simões faz questão de ressaltar que o diferencial da líder santista estava na união entre capacidade técnica e sensibilidade humana. "A Telma fez tudo com muita inteligência, com muita competência, sempre colocando a generosidade e a sensibilidade em primeiro lugar. Acho que essa junção foi o que fez dela a melhor prefeita que nós tivemos. Uma política humanizada, uma guerreira trabalhando pelas pessoas e pela Cidade". Olhando em volta, entre as dezenas de coroas de flores e os abraços de consolo que preenchiam o salão, Telma Simões deixou escapar o peso do vazio que fica no peito de quem viu a história ser feita de perto. "É muito triste perder pessoas como ela. Uma perda enorme, fará muita falta. Mas o bem que a Telma de Souza plantou ninguém apaga. Ganha, agora, o outro lado".