[[legacy_image_19089]] A crise econômica é o combustível que alimenta o crescimento do número de moradores em situação de rua em Santos. Falta de dinheiro, perda de emprego e conflitos familiares se misturam entre os motivos apresentados por grande parte das pessoas que transformam vias públicas em casa. Clique e Assine A Tribuna por R\$ 1,90 e ganhe acesso ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em lojas, restaurantes e serviços! Os dados fazem parte do Censo da População em Situação de Rua, divulgado na terça-feira (15), e feito pelo Município, em parceira com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em dez anos, houve alta de 71,2% nesse contingente, que saltou de 507 em 2009 para 868 pessoas em 2019. “São vários aspectos socioeconômicos, familiares e conjunturais que explicam o motivo dessa ampliação. Dentre elas, a crise econômica, nesses últimos anos, tem gerado um desemprego altíssimo que vai desencadeando em processos que levam à rua. Eles citaram esses vários fatores de forma simultânea durante a pesquisa”, explica a coordenadora do Projeto Integrado de Pesquisa e Extensão sobre População em Situação de Rua da Unifesp, doutora Luzia Baierl. O secretário de Desenvolvimento Social, Carlos Mota, também destaca o combo como principais causas da expansão de moradores em situação de rua no Município e acrescenta ainda a dependência de substâncias psivoativas nesse contexto. “Hoje, o Brasil é considerado o 7º país mais desigual do mundo, de acordo com o Coeficiente Gini (que mede desigualdade e distribuição de renda no Mundo)”. Ele acrescenta ainda que a situação acaba sendo um fenômeno em várias localidades, que têm, inclusive, indicadores superiores ao da Cidade. “Em São Paulo, houve aumento de 53% da população em situação de rua num período de 4 anos. Já em Porto Alegre, houve um aumento de 57% dentro de cinco anos. Em Santos, houve um aumento de 8,91% dentro de seis anos, considerando a realização do censo anterior ao atual, em 2013”. Abrigo O Censo 2020 mostra ainda que a maior parte desse contingente opta pelas ruas em vez de se dirigir a abrigos. Pelos dados, apenas 107 pessoas (12,32%) utilizam esses serviços na Cidade. Para a coordenadora do projeto, as regras rígidas para o ingresso é o principal entrave para eles busquem esses locais. “É um fenômeno global. Os espaços de acolhimento criam regras profundamente rígidas para entrada e saída das pessoas. Então, a liberdade fica limitada”. Um dos participantes do Censo, de acordo com ela, teve de pedir autorização para chegar após o horário do fechamento do abrigo porque participaria de uma oficina do programa. “Penso que essas normas poderiam ser discutidas coletivamente com os usuários. Ali não é um sistema de aprisionamento. Acho que esse seja o principal ponto para o diálogo entre as prefeituras”. Paulo Correa Soares, 70 anos, entende bem a situação. Ele é um retrato do Censo: vive há mais de cinco décadas nas ruas, após largar emprego e família. Ele diz que chegou cursar contabilidade e trabalhar na área. “Mas tive problemas com drogas, mulher, cachaça, trabalho e fui para a rua. Vivo bem aqui”. Soares montou um cantinho na esquina da Rua Benjamin Constant com Avenida Pedro Lessa, no Embaré, onde passa seus dias. “Prefiro aqui a um abrigo. Você vê brigas e até uso de drogas nesses locais. Quem não tem documento, como é o meu caso, também não entra”. Origem O local de origem de quem vive nas ruas foi outro pontos destacado como importante no Censo. Ao contrário do que se imaginava, 38,2% nasceram em Santos. 12,5% são de cidades da Baixada Santista, 20% são do Interior do Estado e 18,9%, da Capital. “Acho esse um dos dados relevantes da pesquisa e revelador, porque é a quebra de um estigma. No imaginário das pessoas, é como se população de rua fosse algo de fora da minha cidade. É o estranho que veio. Há uma negação de que esse sujeito é munícipe e faz parte da cidade”, explica a coordenadora do projeto. O resultado, na avaliação dela, abre caminhos para uma outra discussão em toda a sociedade. “Acho que temos de avançar muito nessa discussão de quem tem direito ou não à cidade e quem tem direito ou não de utilizar os serviços dessa cidade, porque ele não tem um endereço”. Desafios O Censo 2020 será utilizado como balizador para criação e ampliação de políticas públicas no Município destinadas à população de rua, uma vez que os dados apontam os problemas a serem enfrentados pelos gestores. “Mais do que conhecer é dar respostas. É um grande desafio. Implica em repensar políticas públicas para população em situação de rua. Isso implicar mudar cultura e valores das pessoas e prioridades políticas”, avalia a coordenadora do projeto, LuziaBaierl. Segundo o secretário de Desenvolvimento Social, o enfrentamento daqui para frente tem de ser ainda mais relacionada a ações intersetoriais. “A gente vai criar algo que intensifique as diversas ações intersetoriais. Vamos criar um comitê gestor que dê as competências e responsabilidades de cada área, mas que tudo seja feito de forma articulada. É a única forma de termos o efetivo sucesso e proporcionar uma vida melhor para essas pessoas. É o grande passo que vamos dar no início do ano”.