[[legacy_image_164125]] “Somos todos uma família”. A frase da ucraniana Myroslava Moroz, de 37 anos, define a situação de todos os refugiados desse país no Brasil. Ela, a mãe e a tia receberam a Reportagem no apartamento da sogra, em Santos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Após o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro, a mãe de Myroslava, Iryna Moroz, de 57 anos, e a tia, Olha Kucher, de 49, entraram para as estatísticas daqueles que foram obrigados a partir por causa da guerra. Myroslava é casada com um santista e tem duas filhas gêmeas. No ano passado, ela retornou da Ucrânia ao Brasil em razão do trabalho do marido. A tia e mãe passaram o fim de semana na casa da sogra de Myroslava, Cecília, em Santos, após terem deixado seu país no início deste mês. Muito abalada, Myroslava relata como a mãe e a tia, que não falam português, souberam do conflito. “Eu soube da guerra por telefone. Estava dormindo, e minha mãe me ligou chorando. Uma amiga dela havia ligado, também chorando, e contando que estava escutando as explosões e vendo aviões. E ela estava chorando e com medo. Depois, foi minha amiga do Brasil que perguntou o que estava acontecendo. E a esposa do pastor (da Igreja Batista) no Brasil escreveu: ‘A guerra começou’”. A tia, Olha, chegou ao Brasil no dia 7. Deixou a Ucrânia pela fronteira com a Hungria. Antes, ajudou os que já haviam deixado suas casas devido aos ataques russos. No entanto, a situação se agravou, e ela resolveu sair. “Os trens estavam lotados, havia pessoas com fome. A situação era terrível”, conta Olha. Iryna morava em Kiev, capital da Ucrânia. Saiu da cidade poucos dias depois de os russos tomarem uma das usinas nucleares do país, a de Zaporizhia. Chegou ao Brasil no dia 14, após tomar um trem para a Polônia, de onde embarcou em um avião. Iryna e Olha moram em São Paulo com Myroslava. “Num primeiro momento, eu falei para ela ir para meu avô, que mora numa cidade mais tranquila e não tinha ataques. Mas, logo após o início da guerra, havia barreiras e, para abastecer, só eram permitidos 20 litros”, lembra Myroslava. Sua mãe resolveu voltar para casa. O avô, segundo ela, “até hoje se recusa a ficar no subsolo (escondido)”. Quando os ataques foram intensificados em Kiev, ela decidiu sair de trem, apoiada pela filha. Myroslava diz que o prédio vizinho ao da mãe foi atacado. “Quem fugiu não se sente totalmente feliz porque a alma ficou lá na Ucrânia. E muitos se sentem culpados por terem deixado o próprio país. Nós amamos nosso país. E nós acreditamos que a guerra vai acabar e queremos voltar. Minha mãe diz que quer visto humanitário, mas que vai voltar para Kiev, porque um dia a guerra vai acabar. É um estado de guerra, mas vamos vencer”. Myroslava decidiu falar e agir com ajuda e protestoCom o decorrer da guerra, Myroslava se convenceu de que uma das formas de ajudar seu país era com palavras. Relutante no começo do conflito, resolveu começar a dar entrevistas e contar o que aconteceu, inclusive, com seus familiares. No Brasil, recebeu apoio de brasileiros e, agora, ajuda refugiados que chegam ao País. Enquanto conversava com A Tribuna, havia mais de 40 pessoas sendo ajudadas por um grupo do qual faz parte. “Há brasileiros oferecendo abrigo, casa, comida, porque muitos ucranianos deixaram tudo lá. Eles fugiram largando casa, roupa, tudo para trás e chegam aqui sem nada”. Ela também contribui com o site ucraniahoje.com, que reúne informações oficiais e um espaço para doações e oferta de ajuda. Também serve como ponto de reunião e encontro. “E fazemos movimentos e manifestações. Todos os domingos, às 10 horas, nos reunimos no vão do Masp, na (Avenida) Paulista, para protestar e homenagear quem perdemos nesta guerra”, diz Myroslava.