O projeto do túnel ligando as zonas Noroeste e Leste voltou a ser citado como alternativa para o trânsito da Cidade durante o fórum Santos 500+, realizado nesta quinta-feira (30) no auditório do Grupo Tribuna. Questionado pela gerente de Projetos e Relações Institucionais do Grupo Tribuna, Arminda Augusto, o presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Antonio Carlos Silva Gonçalves, disse que a obra poderia redistribuir o fluxo de veículos entre regiões que hoje dependem dos mesmos acessos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo ele, o túnel criaria uma ligação entre Marapé e Zona Noroeste, permitindo reduzir a concentração de veículos em pontos como os acessos aos morros e vias utilizados por quem se desloca entre bairros e a orla. Hoje, esses trajetos se concentram, o que aumenta o tempo de viagem em horários de maior movimento. “O túnel resolve muito o trânsito, porque desafoga o trânsito do morro, da Nova Cintra e da praia também. Dá uma opção a mais de deslocamento”, afirmou. Gonçalves explicou que a proposta não é recente. Segundo ele, a implantação depende de definição de investimento e de articulação com outras esferas de governo. A Tribuna já noticiou que, oficialmente, a ideia do túnel é discutida desde 1994. Na apresentação, o presidente da CET detalhou como o Município tem lidado com o trânsito nas condições atuais. Ele afirmou que são adotadas medidas como alterações de circulação, ajustes em semáforos, fiscalização e campanhas educativas. Ele destacou a mudança no comportamento dos motoristas diante das ações de fiscalização. Segundo Gonçalves, a comunicação em tempo real entre condutores tem reduzido a eficácia de modelos tradicionais. “A gente não tem um agente a cada 100 metros. Então, precisa atuar de forma estratégica, mudando os pontos de fiscalização. Hoje, com celular, as pessoas avisam onde estão as blitze”, disse. Distribuição populacional da Cidade mudou, alterando trajetos utilizados para deslocamentos internos (VANESSA RODRIGUES - 30/4/25) Ele também mencionou o uso irregular de ciclovias por ciclomotores, apontando que a prática tem sido registrada com frequência e aumenta o risco de acidentes. Outro aspecto abordado foi a mudança na distribuição da população dentro da Cidade. Gonçalves apresentou dados mostrando crescimento em bairros como Ponta da Praia e Marapé, enquanto áreas centrais perderam moradores nos últimos anos. Segundo ele, esse deslocamento interno altera os trajetos mais utilizados e exige adaptação constante da gestão do trânsito. Antonio Carlos Gonçalves destacou que o planejamento da mobilidade não se resume a uma única obra ou intervenção. Por isso, o túnel seria uma alternativa dentro de um conjunto maior de ações que incluem estudos técnicos, reorganização de fluxos e integração com outros meios de transporte. Durante o evento, também foi citado que o Município trabalha com diferentes horizontes de planejamento, com medidas de curto, médio e longo prazos. Entre elas, estão intervenções operacionais imediatas, estudos de origem e destino e propostas de integração com o sistema de transporte coletivo, incluindo o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Sugestão: reduzir uso de carros Durante sua apresentação, Antonio Carlos Silva Gonçalves mostrou dados sobre o sistema viário de Santos. Segundo ele, a Cidade tem cerca de 288 mil veículos registrados e recebe diariamente entre 12 mil e 14 mil caminhões com destino ao Porto. Ele também destacou que 67% das vias têm até seis metros de largura, o que limita a possibilidade de ampliação ou mudanças estruturais. O transporte coletivo também foi abordado. Segundo ele, houve queda no número de passageiros desde 2015, influenciada principalmente pelo uso de transporte por aplicativo. Atualmente, o sistema transporta cerca de 2,2 milhões de passageiros por mês. Antes, eram mais de 3 milhões. Debatedores: planejamento urbano deve priorizar outros meios (Silvio Luiz / AT) Na sequência do debate, o diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Marcos Bicalho, comentou que situações assim fazem parte de um cenário mais amplo observado em várias cidades. Bicalho afirmou que a mobilidade urbana está diretamente ligada ao planejamento das cidades e que, em locais com espaço viário limitado, não é possível acomodar o crescimento do uso do automóvel sem mudanças. Segundo ele, para aumentar o uso do transporte coletivo, não basta investir em infraestrutura. É necessário, também, adotar medidas que influenciem a escolha das pessoas no dia a dia. Decisões Também ao tratar da mobilidade urbana, o coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Centro de Estudos das Cidades do Insper, Sérgio Avelleda, afirmou que os problemas enfrentados pelas cidades não podem ser analisados apenas a partir do trânsito. Ele comentou que a forma como as pessoas se deslocam resulta de decisões ao longo do tempo sobre crescimento urbano, ocupação do solo e distribuição das atividades. “Uma cidade com problema de mobilidade urbana está doente. O trânsito é um sintoma, não a causa”, afirmou. Ele explicou que, quando o planejamento urbano prioriza o automóvel, há aumento da dependência do carro, mais congestionamentos e perda de eficiência. Segundo Avelleda, investir apenas em infraestrutura viária não resolve o problema se não houver mudança na forma como o espaço urbano é utilizado. “Não existe solução fora do transporte coletivo. Ele é a espinha dorsal da mobilidade urbana”, disse. Ele também defendeu que políticas públicas deem prioridade ao deslocamento a pé e ao uso de bicicletas. Infraestrutura e crescimento do Porto avançam em ritmos diferentes O diretor da A&M Infra, Luiz Soggia, apresentou dados sobre o crescimento do Porto de Santos e seus efeitos na mobilidade. Segundo ele, o volume aumentou cerca de quatro vezes nos últimos 25 anos. No entanto, não houve a implantação de novos projetos estruturantes na mesma proporção. Ele citou a Perimetral — avenida por onde passam a maioria dos caminhões com destino ao Porto — como o principal exemplo de obra desse tipo realizada no período. Segundo Soggia, essa diferença entre o crescimento da demanda e da infraestrutura contribui para a recorrência de congestionamentos, principalmente nos acessos à Cidade. “A gente ainda está na ineficiência, mas cada vez mais se tornando um gargalo”, afirmou. Sérgio Avelleda - Coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Centro de Estudos das Cidades do Insper / Luiz Soggia - Diretor da A&M Infra/ Antonio Carlos Silva Gonçalves - Presidente da Companhiade Engenharia de Tráfego(CET) de Santos / Marcos Bicalho - Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos(NTU) (Silvio Luiz / AT) Ele também destacou que há previsão de novos investimentos em infraestrutura nos próximos anos, envolvendo projetos ligados ao Porto e à região. No entanto, alertou que a execução simultânea dessas obras pode gerar impactos. “Se não houver coordenação, existe risco de um colapso de implantação”. De acordo com ele, os projetos são conduzidos de forma separada e ainda não há uma visão integrada sobre como as intervenções ocorrerão ao mesmo tempo.