[[legacy_image_305221]] Durante o velório do pai, o oftalmologista santista Luiz Roberto Colombo Barboza teve de sair. Um paciente havia vindo do Interior para uma cirurgia e não houve tempo de avisá-lo. “Saí do velório, operei e voltei. Isso é Medicina. Médico tem que estar à disposição, se dedicar ao próximo”, sintetiza. É uma prova que o Dia do Médico vai além de hoje, data em que se comemora a dedicação a um ofício que não escolhe momentos ruins ou bons. “Quantas vezes, em aniversários de filhos, surge um problema de emergência e temos que sair, com a festa pronta. A prioridade é o paciente.” O pai entenderia. Luiz Barboza Filho também era médico, formado em 1936 na Universidade Federal do Paraná. E abriu a Clínica Visão há 88 anos, depois Hospital Oftalmológico Visão Laser, no Bairro Vila Mathias. “Foi exemplar, sempre muito dedicado e correto”, define. A família de Colombo Barboza, graduado em 1971 na Universidade do Estado da Guanabara (depois Rio de Janeiro), também sabia da situação por experiência própria e pessoal: os filhos Marcelo, Guilherme e a mulher Maria Margarida são oftalmologistas. Só a filha Maria Claudia não seguiu a carreira — é advogada —, mas trabalham todos juntos. “Nunca induzi meus filhos a fazerem Medicina. Filhos observam o que o pai faz e não o que ele fala”, lembra. Margarida é vice-presidente do Instituto Visão do Bem — o presidente é Colombo Barboza. Ele foi criado em abril de 2016 como uma iniciativa social. A entidade, sem fins lucrativos, foi certificada em 2021 com o Cebas Saúde (sigla para Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social em Saúde) pelo Ministério da Saúde devido ao trabalho, feito diariamente. Há parcerias formalizadas por termos de cooperação com entidades da Cidade e contratos para atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com outros municípios da Baixada Santista (São Vicente, Praia Grande e Guarujá; em Cubatão, a elaboração de um contrato está sendo concluída). “Uma empresa que não tiver braço social não está consolidada. Muitos falam como fazem para me agradecer. Respondo sempre: ‘Faça para os outros que foi feito para você’. Isso é retribuição”, afirma. Retribuição e conselhos Dois anos depois de formado, em 1973, Luiz Eduardo Colombo Barboza fez o primeiro transplante de córnea em Santos, na Santa Casa. “Trabalhei durante 15 anos de graça no hospital, quando voltei do exterior (Estados Unidos e Europa, em especial a Espanha), após obter bolsa de estudos pública. Era uma forma de retribuir tudo o que a Cidade fez para mim, já que fiz todo meu estudo no ensino público, desde o antigo Grupo Escolar até a faculdade. Foi algo espontâneo, mas todos que cursam universidade pública deveriam fazer o mesmo. Deveria ser lei”, recomenda. Aos 77 anos, o oftalmologista, emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, honorário da Academia de Medicina de São Paulo e recentemente aprovado para a Academia Nacional de Medicina, também lida com a longevidade, não só de sua carreira, mas do saber. O olhar, de quem já foi professor universitário, também é direcionado aos médicos residentes na Visão Laser. “Se eu tenho um pote de feijão e não o consumir, ele apodrece. Se eu tenho conhecimento adquirido ao longo da vida, com estudo, dedicação e amor ao que fiz, tenho dever de transferir e passá-lo”, justifica. Juntamente aos ensinamentos, Colombo Barboza deixa um conselho aos profissionais que ainda vão passar por muitos dias dos Médicos. “Tem que estudar, ser útil ao próximo e não visar ganhos acima disso. É um processo lento. Medicina é isso: plantar uma semente e dar tempo para que ela vire um arbusto, uma árvore, uma flor ou um fruto lá na frente. A felicidade é proporcionar algo para alguém manifestar felicidade. Ela é o combustível da vida. No dia em que Deus achar que eu cumpri minha missão, com certeza vou deixar a sementinha ali.” Preocupações A formação em Medicina no Brasil está no radar da preocupação de Luiz Roberto Colombo Barboza. “Nos últimos 12, 15 anos, houve uma proliferação de faculdades, e isso atrapalhou tudo. Não sou contra ter mais médicos, mas tem que ter condições, com hospital escola, corpo docente e qualificação. A formação do médico é fundamental. Ele vai lidar com vidas humanas e não pode estar despreparado”, afirma. “São 40 mil médicos formados por ano.” O oftalmologista lembra que o País é o segundo com mais faculdades, com 380 para uma população superior a 200 milhões de habitantes, e com perspectiva de mais. “O país que tem mais é a Índia, com 450 para 1,428 bilhão de habitantes. O terceiro é a China, com 300 e população de 1,425 bilhão”, enumera. Nos Estados Unidos, comenta Barboza, são 185, apenas, para mais de 330 milhões de pessoas. “Lá chegou a ter 480, em uma crise igual à do Brasil. Mas o governo constituiu uma equipe de profissionais da educação para percorrer todas as faculdades para ver se reuniam condições. As que não tinham fechavam”, conta. No Brasil, o oftalmologista também pede mais rigor com relação ao Revalida, o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira, destinado aos que fazem faculdades em outros países, em especial da própria América do Sul. E vê a cooperativa médica como uma solução para a saúde, desde que sejam estritamente seguidos os princípios do setor. “Tudo tem que ser feito para beneficiar o paciente”, completa. (TS) Por que hoje? O Dia do Médico é comemorado em 18 de outubro em referência ao Dia de São Lucas, o santo padroeiro da Medicina, cujo nome significa “portador de luz”. Ele foi um dos quatro evangelistas presentes na Bíblia. É tido como o autor do Evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos, os quais correspondem, respectivamente, às terceira e quinta partes do Novo Testamento. Por seus escritos, acredita-se que pertencia a uma família culta e abastada. De acordo com a tradição, Lucas tinha talento para a pintura — é também padroeiro dos pintores — e exercia a profissão de médico.