Telma de Souza (PT) deixa trajetória de mais de quatro décadas na vida pública; ela morreu neste sábado (10), aos 82 anos (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), primeira mulher a assumir a Prefeitura de Santos e uma das principais lideranças políticas da Baixada Santista, Telma de Souza morreu neste sábado (10), aos 82 anos, deixando uma trajetória de mais de quatro décadas na vida pública. Ao longo da carreira, ocupou cargos no Legislativo municipal, estadual e federal e comandou a Administração santista entre 1989 e 1992, período marcado por transformações na saúde pública e na assistência social. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nascida em Santos em 29 de setembro de 1944, Telma Sandra Augusto de Souza cresceu em uma família ligada à política. Era filha de João Inácio de Souza, conhecido como Joãozinho do Instituto, vereador cassado pela ditadura militar em 1964, e da ex-vereadora Hilda Augusto de Souza. A influência familiar e o envolvimento com movimentos sociais ajudaram a construir sua trajetória política. Pedagoga e advogada formada pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), com pós-graduação em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Telma iniciou a militância política no movimento pela anistia e nas mobilizações dos professores da rede pública, por meio da Apeoesp. Também atuou como professora antes de ingressar definitivamente na política partidária. Sua participação nos movimentos pela redemocratização do Brasil a aproximou das lideranças sindicais e populares que deram origem ao PT, em 1980. Telma integrou o grupo de fundadores da legenda e participou da estruturação do partido em Santos, tornando-se uma das principais representantes petistas na região. A carreira eleitoral começou em 1982, quando Telma foi eleita vereadora de Santos, assumindo o mandato no ano seguinte. Em 1986, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), onde atuou entre 1987 e 1988. O momento mais importante de sua trajetória política ocorreu nas eleições municipais de 1988. Telma venceu a disputa pela Prefeitura de Santos e tornou-se a primeira e, até hoje, única mulher a governar o município. Assumiu o cargo em janeiro de 1989 e permaneceu à frente da Administração até dezembro de 1992. Sua gestão ganhou projeção nacional pelas iniciativas na saúde pública. Entre elas, a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, em maio de 1989, hospital psiquiátrico que ficou conhecido como Casa dos Horrores após denúncias de maus-tratos e violações dos direitos dos pacientes. A medida, conduzida com a participação do então secretário municipal de Saúde, David Capistrano Filho, tornou-se um dos marcos da reforma psiquiátrica brasileira. O município passou a desenvolver uma rede de atendimento em saúde mental baseada no cuidado comunitário e na substituição do modelo tradicional de internação. Outro destaque foi o enfrentamento da epidemia de HIV/Aids, em um período em que Santos apresentava elevados índices da doença. A Prefeitura estruturou o Centro de Referência em Aids (Craids) e implantou, em 1989, o primeiro Programa Municipal de Aids do País, ampliando as políticas de prevenção e atendimento. A administração também criou policlínicas nos bairros, ampliou serviços de saúde e assistência social e promoveu a municipalização do transporte coletivo, com a encampação da Viação Santos–São Vicente. As mudanças tornaram seu governo uma referência em diferentes áreas da administração pública. Telma foi a primeira mulher a governar Santos (Arquivo Pessoal/Instagram) Atuação no Congresso Nacional Após deixar a Prefeitura, Telma ampliou sua atuação política para Brasília. Eleita deputada federal em 1994, conquistou outros dois mandatos consecutivos, em 1998 e 2002, permanecendo na Câmara dos Deputados de 1995 a 2007. No Congresso Nacional, participou de discussões sobre saúde, educação, direitos das mulheres, assistência social e desenvolvimento regional. Também integrou comissões relacionadas à infraestrutura e ao transporte, além de atuar em debates sobre o Porto de Santos. Durante os mandatos, exerceu funções de liderança na bancada do PT e participou de frentes parlamentares voltadas ao enfrentamento do HIV/Aids e à defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Também integrou o Diretório Nacional do partido e ocupou cargos em sua direção. Retorno à política santista Mesmo depois de alcançar projeção nacional, Telma manteve sua base política em Santos. Em 2008, voltou a disputar uma vaga na Câmara Municipal e foi eleita com 20.631 votos, tornando-se a vereadora mais votada daquele pleito. Dois anos depois, em 2010, conquistou novamente uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo, com 90.361 votos, iniciando seu segundo mandato como deputada estadual em 2011. A ex-prefeita também tentou retornar ao comando do Executivo santista em diferentes eleições. Disputou a Prefeitura em 1996, 2000, 2004 e 2012, sem conseguir repetir a vitória de 1988. Em 2016, foi novamente eleita vereadora de Santos e conquistou a reeleição em 2020, permanecendo no Legislativo municipal até o fim de 2024. Durante esse período, manteve sua atuação principalmente nas pautas de saúde, educação, inclusão social e direitos humanos. Sua última disputa eleitoral ocorreu em 2024, quando voltou a concorrer à Prefeitura de Santos pelo PT. Telma recebeu 31.423 votos e terminou a eleição em terceiro lugar. Reconhecimento e legado político Em setembro de 2023, quando completou 79 anos, Telma recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Braz Cubas, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de Santos, em reconhecimento à trajetória política e à contribuição para a cidade. Mais recentemente, também esteve envolvida em iniciativas voltadas ao debate de políticas públicas, entre elas o relançamento do Instituto Telma de Souza, em 2025, com a proposta de promover discussões sobre o desenvolvimento de Santos e da Baixada Santista.