[[legacy_image_156401]] No sopé do morro, o morador, com um filho pequeno em um braço e sacolas de supermercado em outra mão, sobe em uma escada rolante e parte, sem esforço, colina acima. A cena seria um sonho para os moradores dos morros de Santos, mas é realidade para os colombianos da Comuna 13, uma grande favela na encosta oeste de Medellín, que conta com as “escaleras eléctricas” para facilitar a mobilidade das pessoas. O sistema, aliado ao serviço público de teleférico, conectado ao metrô da cidade, mudou a vida dos cidadãos e se tornou atração turística do bairro. Em Santos, o projeto de um teleférico, em 2013, nunca saiu do papel. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Antes considerada uma das favelas mais perigosas da cidade, a Comuna 13 e Medellín passaram por uma transformação em 2002. À época, o governo colombiano lançou a polêmica Operação Órion para expulsar guerrilheiros, grupos paramilitares e membros de cartéis de drogas do bairro. Apesar dos relatos de moradores sobre a violência cometida pelas forças governamentais, a ação deu início ao desenvolvimento urbano e ao surgimento de movimentos artísticos na comunidade. No novo cenário, a Comuna 13 virou referência para milhares de turistas, que utilizam o teleférico e as escadas rolantes para ter acesso ao morro e percorrer vielas coloridas e grafitadas da comunidade, assistindo a apresentações de grupos de rap, breakdance e hip hop, e saboreando a comida de rua local. Seria este um cenário possível nos morros de Santos, que já teve um projeto de implantação de teleférico discutido em 2013, com cinco estações (Valongo, São Bento, Vila Progresso, Nova Cintra e Caneleira)? [[legacy_image_156402]] Para o doutor em Planejamento Urbano e Regional, José Marques Carriço, que estava à época na Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Santos, a resposta é sim. “A discussão era integrar o trajeto do teleférico com o VLT e com outros meios de transporte, integrando o Centro com as Zonas Leste e Noroeste. Acho que o teleférico é viável, mas numa escala de prioridades, tem outras em termos de transporte público mais importantes, como reorganizar o transporte de ônibus com o VLT”, pondera. Segundo Carriço, o projeto do teleférico santista foi baseado no sistema carioca, que hoje estaria obsoleto. “No Morro do Alemão, por uma série de problemas, o teleférico nunca funcionou direito”. A ideia em Santos, de acordo com o arquiteto e urbanista, era mais ousada. “O teleférico resolveria a conexão com quase todos os morros, era mais ambicioso, mas o projeto foi abandonado quando veio a crise política e econômica em 2013 e 2014 e a Prefeitura e o Governo do Estado suspenderam vários projetos”, comenta Carriço, que classifica o sistema de escadas rolantes de Medellín como uma “concepção diferente, mais pontual”. “Projetos faraônicos”A geóloga e ex-vereadora de Santos por quatro mandatos, Cassandra Maroni Nunes, é contrária ao que ela chama de “projetos faraônicos”. “Trabalhei durante oito anos como administradora dos Morros e posso falar, também como geóloga e deficiente física, que os moradores precisam de pequenas estruturas que facilitem o transporte de um bujão de gás, de uma carga ou de idosos. A Prefeitura, por exemplo, usa guinchos e carrinhos sobre trilhos para subir e descer material de obra. Os moradores não precisam de coisas faraônicas para fazer vitrine”, defende. [[legacy_image_156403]] Cassandra disse conhecer, não pessoalmente, o projeto de escadas rolantes de Medellín, mas considera que o modelo colombiano não se encaixaria no cenário santista. “A escala do projeto de Medellín é outra, a população é outra. Aqui começa por se fazer calçadas nos morros, pois só na Nova Cintra há calçadas. E estruturas menores e planejadas, de preferência com a população dando palpite. Tem muito engenheiro e arquiteto que nunca sujou o sapatênis de barro”, critica. Parceria público-privadaPara Vanessa Lombardi, presidente do Santos Convention & Visitors Bureau, para se bancar um sistema de mobilidade como o existente na cidade colombiana, é necessário unir os setores público e privado. “O ideal é que a iniciativa privada seja parceira do poder público em iniciativas como essa. Assim como em Medellín, temos no Brasil, Balneário Camboriú, como um exemplo em que o poder público possibilita a ação e o espaço, e a iniciativa privada entra com o projeto. Não há custo para a municipalidade, a operação e manutenção, que são pontos críticos, ficam sob responsabilidade dos gestores e os turistas e a população podem usufruir dos atrativos”. Projetos não estão nos planos da PrefeituraEm nota, a Prefeitura de Santos informou que “a proposta de implementação de sistema de teleférico não faz parte do plano de governo do prefeito Rogério Santos nem do plano plurianual (PPA) de Santos para o período de 2022 a 2025”. A justificativa é que “o projeto se apresentou anteriormente inviável, por não ser autossustentável financeiramente, e os valores obtidos para a sua implementação em 2014 (R\$ 57,6 milhões), por meio de contrato do PAC Mobilidade, foram remanejados para obras prioritárias nos Morros e na entrada da Cidade”. Com os recursos, segundo a Prefeitura, foi possível fazer “mais de 63 mil m² de obras de infraestrutura para transporte coletivo (drenagem, pavimentação, novos passeios, baias de ônibus, paisagismo, mobiliário urbano e contenções), o alargamento da Avenida Nossa Senhora do Monte Serrat (Morro São Bento) e a construção da ponte sobre o Rio São Jorge e do viaduto na Avenida Nossa Senhora de Fátima”. A administração diz ainda que “não há estudos em cursos para a implementação de sistemas de escadas rolantes nas áreas de Morros, os quais poderão ser avaliados pela Administração Municipal”. A prioridade é “atualizar o projeto de construção do túnel unindo as zonas Leste e Noroeste de Santos, a qual foi incluída no pacote de obras que serão executadas com a desestatização do Porto de Santos, segundo anúncio do Ministério da Infraestrutura, que contribuirá para reduzir o congestionamento das vias principais dos Morros em horários de pico, como as avenidas Santista, Antônio Manoel de Carvalho e Alameda Prefeito José Gomes. População e transporteDe acordo com o último Censo do IBGE, de 2010, os Morros de Santos contavam com 33.614 moradores, distribuídos entre os morros Chico de Paula, Cachoeira, Santa Terezinha, Marapé, Saboó, Nova Cintra, Monte Serrat, Jabaquara, Caneleira, Santa Maria, Penha, Fontana, José Menino, Pacheco, São Bento e Vila Progresso. Sobre o transporte, a CET-Santos informou que há 51 veículos de autolotação e cinco linhas do transporte coletivo municipal que atendem os moradores dos morros. Todas as vans, de acordo com a CET, possuem acessibilidade para pessoas com deficiência e acessam o Morro José Menino, Santa Maria, Vila Progresso, São Bento, Nova Cintra, do Marapé e Rádio Clube. As linhas do transporte coletivo que circulam pelos morros são 13 e 61 (Nova Cintra), além da 100, 118 e 181 (Nova Cintra e São Bento).