[[legacy_image_232190]] Enquanto presentes são embrulhados, perus assados e alguns separam a roupa nova para o Natal, outros lutam para conseguir comer. Há um dia da comemoração, a mãe de três filhos, Priscila Emília da Conceição Santana, de 42 anos, disse, nesta sexta-feira (23), não saber ainda se teria uma ceia. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Moradora do Centro de Santos, Priscila diz que está afastada do trabalho enquanto trata de uma depressão e a ceia ainda está incerta. “Não sei ainda, mas eu fui convidada para passar o Natal em casas de amigas”. Mãe solteira, Priscila afirma que hoje sua situação financeira melhorou, mas ainda está longe do ideal e a insegurança alimentar foi um dos motivos que agravou seu quadro. “Já passei fome e passei necessidade, morei em abrigo e fui três vezes ao albergue noturno. Muitos, assim como eu, passam por isso. Principalmente mães com crianças”. A situação que afligiu Priscila se repete pelo País. Segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar de 2022, cerca de 33,1 milhões de pessoas não têm garantido o que comer. O mesmo estudo informa que 58,7% da população brasileira convive com a insegurança alimentar em grau leve, moderado ou grave. “Já cheguei a matar a fome do meu filho com uma mamadeira de água. Não desejo isso para ninguém. E sabe quando a criança sabe que não é o leite dele? Sabe que aquilo ali é água e você vê que não está matando a fome dele. Pois é, eu já passei por isso”, conta. Por conta da incerteza, Priscila estava na fila do Bom Prato da Praça Iguatemi Martins, na Vila Nova, em Santos. Nesta sexta-feira (23), a unidade preparou uma refeição especial de natal e decorou o ambiente para a data, com a presença até do Papai Noel. “Venho todos os dias, mais no almoço, às vezes venho tomar café e pego marmita também, sempre com meus filhos”. Atualmente, a santista afirma estar se reerguendo, superando a depressão e aos poucos se permite sonhar. “Meu sonho é uma cômoda para colocar as minhas roupas e as dos meus filhos, principalmente do que têm oito anos. Uma cômoda ou um guarda-roupa pequeno”. Sem ceiaO natal está cancelado para o santista José Carlos dos Anjos Vieira, de 53 anos, que foi à unidade do Bom Prato, pois tinha certeza de que não seria possível fazer uma ceia em casa. “Sou um ex-carpinteiro, que caiu do quarto andar e machuquei a perna, não posso mais trabalhar porque tenho pinos pelo corpo. Sobrevivo com aquilo que Deus me permite sobreviver”, explica. Atualmente, José Carlos mora em um cômodo alugado e vive sob a insegurança alimentar. Contudo, diz não ter vergonha de não poder fazer uma ceia e se diz esperançoso para o futuro. “O importante é eu ter Deus no coração”. “É todo dia matar um leão. Todo dia ganha um real pra almoçar ou jantar. Às vezes eu não janto. Não é sempre que consigo vir aqui. Tento não me misturar com as drogas, confiar no alvo e andar sozinho”, afirma. AbandonoPara muitos, ficar sozinho não é a opção preferida. A santista Selma Soares de Souza, de 60 anos, vai ao Bom Prato todos os dias e diz não saber se terá ceia de natal. “Não tenho certeza ainda, mas acho que não. Estou sem pagamento e meu esposo foi retirado de mim”. “Estou sozinha, prestes a ser despejada e a luz vai ser cortada. Estou a Deus dará. O Ministério Público retirou meu marido de mim e colocou ele em um asilo contra a vontade dele e a minha. Agora eu recebo uma pequena ajuda do meu filho, mas não dá para nada. Estou vivendo praticamente na rua”, relata. Selma é um rosto conhecido na unidade e diz se dar bem com a equipe de colaboradores do Bom Prato. “Toda vez que eles fazem a festa, eles decoram e fica a coisa mais linda, adoro aqui. Não tem coisa melhor. Encontro conforto, carinho e respeito por eles. É muito difícil para quem tem 60 anos e nunca passou por isso. Se não fosse esse bom prato, eu não sei o que seria de mim, porque eu não tenho renda nenhuma”. AuxílioA insegurança alimentar levou um novo público para o Bom Prato. A gerente, Sandra Regina Estevão, de 40 anos, diz ter notado uma mudança no perfil das pessoas que comem na unidade. “Mudou bastante. Eu já trabalho na entidade há mais de doze anos, sempre acompanhei o restaurante. Antes 95% do nosso público eram pessoas em vulnerabilidade social, pessoal em situação de rua mesmo, usuários de drogas”, informa. O cenário de mudança, segundo a gerente, chegou após a pandemia da covid-19. “Mudou totalmente. Antes da pandemia eu não via funcionários de empresas que eu vejo hoje vindo aqui. O pessoal que mora aqui perto, mãe com criança depois que vem depois da aula. Aumentou muito esse público” “Uma vez que eu conversei com um rapaz de uma empresa portuária e perguntei para ele por que eles vinham comer aqui. Ele falou que, além do preço principal ser acessível, um dia de vale refeição dele dava para o mês todo no bom prato e o resto ele ajudava a pagar a alimentação em casa, porque hoje tá tudo muito caro”, comenta. Conforme informado pela gerente, a unidade serve 1.800 refeições diariamente, sendo 1.200 no almoço, 300 cafés da manhã e 300 jantares. Ao todo são 46.800 refeições mensalmente e 506.890 apenas em 2022. [[legacy_image_232191]]