Escavações na Praça Mauá trouxeram à tona a Santos subterrânea (Vanessa Rodrigues/ AT) Santos, 26 de julho de 1988. Em meio ao trabalho pesado dos operários que preparavam a construção dos futuros banheiros públicos da Praça Mauá, o subsolo resolveu contar uma história. Enquanto máquinas revolviam a terra durante as obras de reurbanização, uma descoberta interrompeu a rotina do canteiro: restos mortais de antigos santistas voltavam à luz. Eram de um tempo em que os mortos eram sepultados nas igrejas ou ao redor delas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Durante séculos, Santos conviveu com uma tradição que hoje parece distante. Antes da criação dos cemitérios públicos, era a Igreja Católica que acompanhava o ciclo da vida, registrando batismos, casamentos e óbitos, e acolhia os fiéis em seu descanso definitivo. Assim, sob as pedras do velho Centro, havia uma segunda cidade, cuja memória o crescimento urbano apenas ocultara. Escondida As escavações na Praça Mauá permitiram redescobrir parte do antigo cemitério da segunda Igreja da Misericórdia, instalada no local a partir de meados do século 17. Documentos históricos já indicavam que enterros ocorriam naquela área, próxima ao futuro (e hoje extinto) banheiro público da praça. Anos antes, outras intervenções urbanas reforçavam essa realidade. Em 1978, durante obras na Praça da República, foram encontrados 24 esqueletos humanos, no local onde existiu a primeira Matriz. Em 2000, escavações para implantação dos trilhos do bonde turístico voltariam a localizar novos vestígios ósseos, na esquina das ruas do Comércio e José Ricardo. Tais descobertas mostravam que a arqueologia urbana possui uma característica singular: ela não precisa de ruínas monumentais para entender o passado. Bastava abrir uma vala para instalação de uma tubulação, restaurar um prédio antigo ou reformar uma praça para que fragmentos de louça, fundações de edificações, objetos cotidianos ou restos humanos reaparecessem. Antigos cemitérios Pouca gente imagina que o Centro Histórico funcionou, por mais de 300 anos, como um grande conjunto de áreas funerárias. Nos últimos 30 anos, historiadores locais identificaram pelo menos nove cemitérios associados às antigas igrejas que existiram entre o Valongo e o núcleo inicial da povoação. O maior deles teria permanecido sob a atual Praça da República, onde foi construída, em 1543, a primeira Igreja Matriz, juntamente com a Santa Casa de Misericórdia. Estima-se que cerca de 15 mil pessoas tenham sido sepultadas ali por séculos. Quando a Misericórdia foi transferida para a Praça Mauá, em 1665, o cemitério da Irmandade também mudou de lugar. A partir daí, novas gerações passaram a ser enterradas junto ao novo templo, prática que se manteve até meados do século 19. Mas os vestígios não se limitaram às praças. Sob ruas tradicionais, como a João Pessoa, também existiram áreas de sepultamento. Próximo à Praça Rui Barbosa localizava-se o adro da Igreja do Rosário. Na Rua Antônio Prado, a Igreja de Jesus, Maria e José. As igrejas de Santo Antônio do Valongo e de Nossa Senhora do Carmo também mantinham espaços funerários. Muito além dos ossos A arqueologia costuma levantar novas perguntas. Quem eram aquelas pessoas? Como viviam? De quais doenças morreram? Qual era sua origem? Que costumes preservavam? Cada fragmento encontrado precisa ser interpretado em conjunto com documentos, mapas antigos, relatos e pesquisas históricas. E é justamente nessa integração entre áreas do conhecimento que reside uma das maiores riquezas da arqueologia. Ela complementa a História escrita. Quando um documento informa que determinada igreja possuía um cemitério, a escavação pode confirmar sua localização. Quando um mapa desaparece, o próprio solo torna-se um arquivo. O patrimônio invisível Talvez o maior desafio da arqueologia urbana seja proteger aquilo que ninguém vê. Um casarão histórico desperta admiração por sua fachada; um sítio arqueológico, porém, muitas vezes permanece oculto sob o asfalto, sob uma calçada ou sob uma praça movimentada. Sua preservação depende de planejamento, pesquisas preventivas e acompanhamento técnico durante obras públicas e privadas. Nas últimas décadas, Santos passou a incorporar cada vez mais esses cuidados em intervenções no Centro Histórico. Afinal, qualquer escavação realizada na área mais antiga da cidade pode revelar informações inéditas sobre a antiga vila. Escavar para compreender Celebrado em 26 de julho, o Dia do Arqueólogo lembra uma profissão de ciência e paciência. Cada centímetro escavado pode representar décadas ou séculos de ocupação humana. Em Santos, essa realidade é ainda mais evidente. Sob o piso das praças, o traçado das ruas coloniais e os alicerces dos edifícios históricos, repousa uma cidade que continua esperando para ser redescoberta. Uma cidade silenciosa, construída não apenas por paredes e monumentos, mas também pelas pessoas que viveram, rezaram, trabalharam e foram sepultadas onde hoje seguimos nosso caminho sem imaginar o que existe alguns metros abaixo de nossos pés. A arqueologia ensina que o passado nunca desapareceu. Apenas permaneceu esperando o momento certo para voltar à luz. Parabéns aos arqueólogos! *Sergio Willians é jornalista e pesquisador da História de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br