Fábio Siqueira, confeiteiro, foi vítima de discriminação no ambiente profissional (Sílvio Luiz/AT) Nas últimas décadas do século 20, Santos carregava um incômodo apelido: capital nacional da aids. Em 2001, segundo a Prefeitura, o índice era de 45,26 para cada 100 mil habitantes. Avanços na detecção, no cuidado e na prevenção, amparados na boa relação entre o Poder Público e entidades que atuam na causa, fizeram Santos virar o jogo contra o vírus HIV. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos últimos dez anos, a redução no número de casos da doença ficou ainda mais evidente. Em 2014, por exemplo, foram 122. A curva descendente prossegue até este ano, quando se registraram 53 infectados. E não houve gestantes com HIV em 2024. De acordo com a coordenadora do Centro de Controle de Doenças Infectocontagiosas de Santos, Michelle Cunha, há fatores que explicam a mudança de panorama. “Santos sempre foi protagonista em relação às políticas públicas relacionadas às pessoas que vivem com HIV. À medida que as tecnologias foram se aperfeiçoando, com o teste rápido, vieram outros tipos de prevenção, como a Prep (profilaxia pré-exposição) e a PEP (profilaxia pós-exposição). A gente começou com o diagnóstico precoce, porque, antes, as pessoas chegavam meio doentes. Há a oportunidade de saber bem antes e poder tomar o medicamento no tempo certo, se tornar uma pessoa indetectável e, com isso, intransmissível. Assim, a gente quebra essa corrente de transmissão”, descreve. A Prep combina dois medicamentos (tenofovir + entricitabina) para impedir que o HIV se estabeleça no organismo. A PEP consiste na ingestão, o mais rapidamente possível, de medicamento após relação sexual desprotegida ou violência para evitar a infecção pelo HIV. Ela tem duração de 28 dias, e o tratamento deve ser iniciado, no máximo, em 72 horas. “Além disso, muitas mulheres descobrem o HIV durante o pré-natal. Nele, é obrigatório o teste. Tem ginecologista que, durante a vida toda, não pede o exame. Mas, na gestante, é obrigatório”, reforça. A preocupação, contudo, recai sobre os jovens, que, segundo ela, não têm se mostrado atentos aos métodos de prevenção da doença, como o uso da camisinha. “Fazer o teste de HIV também é um modo de prevenção. Muita gente não faz o teste com medo do resultado, do tipo ‘quem procura acha’. De um modo ou outro, vai descobrir: logo no início, quando vai se tratar e nunca ter uma intercorrência, ou já doente, o que vai ser muito mais difícil. Fazer o teste é um modo de prevenção. É importante o trabalho que a Prefeitura faz, porque, em muitos lugares do Brasil, não é assim”, lembra a coordenadora de Marketing do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa-BS), Mariana Alonso. Luta também é contra preconceito Um inimigo antigo do combate ao HIV é o preconceito. Ainda há situações de exclusão de pessoas com o vírus, gerando demissões ou questionamentos sobre o simples uso de uma toalha. Pois o Gapa, que chega aos 36 anos de existência, busca fortalecer essa luta, dando amparo e acolhimento. “Nascemos para cobrar políticas públicas em relação ao HIV. Englobamos prevenção, cobrança do Estado e acolhimento das pessoas, que ainda sofrem com preconceito. As coisas melhoraram muito. As pessoas têm acesso a medicamento, exames, médicos. Em algumas cidades, um exame positivo pode render uma consulta apenas dois, três meses depois”, relata Mariana Alonso. Após duelos constantes contra a falta de recursos, ela afirma que a situação do Gapa/BS pode ser considerada boa. Atualmente, são assistidas 65 famílias, “Temos distribuição de cesta básica, apoio psicossocial com psicólogas e assistente social, geração de renda por meio de artesanato, grupos de palhaçaria, para se soltarem mais. E, na parte da prevenção, o Município disponibiliza para a gente preservativos e autotestes.” Arte e prevenção A trajetória da entidade chamou a atenção de Felipe Martins, que fez seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) sobre a memória do Gapa. “Me chamou a atenção, durante a pesquisa, a vinculação do Gapa com o teatro, na perspectiva de trabalhar a prevenção do HIV, e ter um núcleo cultural, o TEP (Teatro Experimental de Pesquisa). A possibilidade de realizar o trabalho de prevenção, mas articulado com estratégias que traziam a arte ao debate, com oficinas e apresentações teatrais, por exemplo, deu muito certo.” O sobrevivente Fábio Siqueira dos Santos de 53 anos, trabalha com confeitaria. É craque em bolos e tortas. Pois nem sempre tem portas abertas, e um caso recente ilustra isso. Com o vírus HIV intransmissível, foi “expulso” de um estabelecimento pela dona, mesmo após ela ter se encantado com seu desempenho. “Falou que era uma doença que matava, que era nojenta”, acrescenta o profissional. É mais um capítulo de quem viveu nas ruas na prostituição, rondando as drogas, mas encontrou amparo no Gapa e em sua presidente, Nanci Alonso. “Ela me ensinou a jamais perder minha dignidade.”