Fórum integra celebrações dos 480 anos da Cidade e aponta ao futuro, com foco em planejamento de longo prazo para as próximas décadas (Alexsander Ferraz/AT) A Prefeitura de Santos deve realizar, ainda neste ano, um inventário de emissões de gases de efeito estufa do Município. Também almeja criar um observatório de mudanças climáticas, ambos no contexto de atualização do Plano Municipal de Ação Climática de Santos (Pacs). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A informação foi dada pelo secretário adjunto de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade de Santos, Gabriel Miceli, que participou do segundo encontro do Fórum Santos 500+, realizado nesta terça-feira (24) no auditório do Grupo Tribuna. O encontro é resultado de uma parceria entre Prefeitura, Governo do Estado, Brasil Terminal Portuário (BTP) e Grupo Tribuna. Faz parte da programação pelos 480 anos do Município e, ao mesmo tempo, aponta para o futuro, com foco em planejamento para daqui a duas décadas, quando Santos completará 500 anos. Segundo Miceli, o inventário servirá para um entendimento do quanto de carbono e outros gases são emitidos na Cidade. “A importância do inventário está atrelada à própria existência do Pacs, para a gente poder ter indicadores e metas”, argumenta. Uma empresa será contratada, com “pessoas capacitadas e que poderão fazer essa análise dentro de rigores e protocolos determinados em nível internacional”. Sobre o observatório, o secretário adjunto explica que ele será instituído em um espaço da secretaria. “Nosso objetivo é reunir os segmentos que já fazem essa análise de dados. Nós não queremos inventar a roda. Nós sabemos que a Defesa Civil tem uma expertise muito grande. Nós sabemos que o Porto de Santos tem uma expertise muito grande na coleta de dados. A gente precisa que esses dados realmente se condensem”, explica Miceli. De acordo com ele, o observatório será aberto para a sociedade civil e a universidades, mas, sobretudo, servirá de apoio para adoção de políticas baseadas em evidências. “Enquanto nós não trouxermos como agenda o combate às mudanças climáticas, como o próprio Pacs, acaba se tornando letra morta, uma lei que não pega. Para implementar o combate às mudanças climáticas, adaptação e resiliência, é preciso o envolvimento dos vários setores.” Justiça climática Gabriel Miceli entende que um ponto-chave para agir diante das mudanças climáticas é fazer justiça com quem não age para que elas ocorram, mas acaba sendo impactado. Um exemplo é a necessária realocação de pessoas, caso do projeto Parque Palafitas, no Dique da Vila Gilda. “É um projeto que, em toda a sua dinâmica, tem a sustentabilidade como componente presente. Há uma quantidade muito grande de moradores, e, enquanto uma solução definitiva não vem, a gente precisa pensar em outras soluções que garantam a justiça climática”, pontua o secretário adjunto. Eventos extremos Segundo o professor Ronaldo Christofoletti, da Unifesp, dados disponibilizados em bases públicas do Governo Federal apontam a ocorrência de apenas dez eventos climáticos extremos em Santos nos últimos 30 anos, dos quais o mais recente se deu em 2023. O diretor da Defesa Civil de Santos, Daniel Onias, reconhece haver subnotificação desses eventos na plataforma federal. “Nessa questão dos dados de desastres, há um problema muito sério. Nessa plataforma do Governo Federal, os municípios lançam os dados apenas quando é declarada situação de emergência ou calamidade pública, para obter recursos da União. Mas há outros tipos de ocorrências, como ressacas e inundações nesse período. Talvez uma forma de melhorar isso seria captar as informações até mesmo do noticiário, ou implementar um sistema mais acessível.” Onias assegura, no entanto, que, na esfera municipal, existe um mapeamento amplo e constante das ocorrências ligadas ao clima. “Registramos todas, não só ligadas à Defesa Civil, mas também de outras características. O ideal seria que os sistemas locais, do Estado e do Governo Federal se comunicassem, com compatibilidade para transferência de dados de forma mais simples e mais rápida”, complementa. Planejamento urbano também ajuda a enfrentar mudança climática (Alexsander Ferraz/AT) Professor sugere dados públicos A tarde foi aberta com uma apresentação de Ronaldo Christofoletti, que está na Antártida, em pesquisas na Estação Comandante Ferraz (EACF). O professor ressaltou a importância da ciência no enfrentamento das mudanças climáticas. “É preciso investimento, monitoramento desses dados sobre o clima, e que eles sejam públicos, que permitam que a ciência possa fazer a sua parte. É levar e chamar a sociedade a entender o que está acontecendo, a discutir. E se a gente pensa na adaptação, vai ter que estar aberto a mudanças.” Professor da Escola Politécnica da USP, Rafael Pileggi reforça a necessidade de uma cidade mais resiliente também quanto às construções. “As cidades têm que ser pensadas também do ponto de vista aerodinâmico. Você não faz mais uma cidade só edificando. Elas têm que ser pensadas do ponto de vista de distribuição de água, luz e energia. E a gente está vivendo um mundo de eletrificação da economia. Em alguns locais, será preciso repensar o zoneamento.” Investimentos Diretor-presidente da Sabesp, Carlos Piani reforçou os investimentos da empresa para além da universalização dos serviços de água e esgoto, prevista para 2029. Ele lembrou a necessidade de melhorar a reservação de água na Baixada Santista. “Uma das nossas obrigações, após a privatização, é um plano de segurança e resiliência hídrica. Vivemos um cenário de escassez de chuvas nos últimos anos, e antecipamos investimentos para permitir maior liberdade operacional”, declarou. O superintendente de Governança, Riscos e Compliance da Autoridade Portuária de Santos (APS), Cláudio Bastos, ressalta dados que ajudam na operação portuária. “O Porto já é monitorado, mas pode melhorar. Um projeto interessante é o VTMIS (Sistema de Informação de Gerenciamento de Tráfego de Navios, na sigla em inglês), que vai fazer a gestão do tráfego de navios do Porto e, conjugado a soluções de inteligência climática, pode trazer respostas para a série de tomadas de decisão.” Barreiras devem ser expandidas O projeto piloto de proteção costeira por meio de geobags (barreiras submersas) vem cumprindo seu papel e deve ser expandido. É o que afirma o professor da Unicamp, Tiago Zenker Gireli, que é coordenador da iniciativa na Ponta da Praia. “Aquela região perdia mais ou menos entre sete e dez metros de praia por ano entre 2010 e 2017. Hoje, ganhou sete metros de praia, em média. O problema é que não enxergamos isso, pois está acumulada abaixo da linha da maré”, explica. “Além disso, a área contemplada pelo projeto piloto, de cerca de 300 metros, é pequena diante de um problema que se estende por quase três quilômetros.” Segundo ele, há perspectiva de ampliação para todo o trecho da orla que está em erosão a partir de onde se encontra o piloto, em direção ao Canal 4. “É parecido com o projeto piloto, submersa, a uma certa distância da praia, mas que diminui a energia das ondas.” Para Gireli, a Ponta da Praia não corre o risco de “desaparecer” com um possível aumento no nível do mar. “É um nível que a gente não espera alcançar, pelo menos até 2100. Em alguns eventos extremos, o cidadão vai ter que conviver com transtornos.”