Rancho Verde Gaio anima a tradição com cantorias e danças em Santos (Arminda Augusto/AT) Entre risos, cantorias e pés imersos em quilos de uvas brancas ou rosadas, uma tradição portuguesa ganha vida todos os anos em pleno Morro Santa Terezinha, em Santos, no litoral de São Paulo. É ali que, sempre no dia 25 de abril, ou bem perto dele, o médico Antônio Leal, nascido em Portugal mas vivendo no Brasil desde os 12 anos, transforma o quintal de casa em cenário de celebração, reunindo amigos e conterrâneos para reviver a pisa das uvas, ritual que atravessa gerações e mantém vivas as memórias de sua aldeia. O resultado vai além do vinho artesanal dividido entre os presentes: é um brinde coletivo às origens e à saudade da vida simples nas aldeias, mas que encontrou na Baixada Santista um novo lugar para florescer. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Antônio Leal nasceu na pequena aldeia de Chãs, interior de Portugal, parte do concelho de Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, sub-região do Rio Douro, uma das mais tradicionais e importantes regiões vinícolas de Portugal e do mundo. Antônio Leal e o lagar ao fundo. Pisa do último sábado reuniu amigos da comunidade lusa (Arminda Augusto/AT) O Douro é conhecido principalmente pela produção do vinho do Porto, mas também por vinhos tintos e brancos de alta qualidade. E foi nesse pequeno pedaço de Portugal que Antônio Leal se criou até os 12 anos, quando veio sozinho para o Brasil, a convite dos tios que já viviam em Santos. “A época da vindima (colheita das uvas destinadas à produção do vinho) era muito esperada por todos. Não era só trabalho, mas confraternização e alegria”, lembra. Lagar e tradição Atualmente, o processo de fabrico do vinho não se utiliza mais da pisa das uvas como antigamente, mas Leal quis trazer para o quintal de sua casa um pedaço da antiga tradição. Entre árvores e jardins, construiu um lagar, o local onde se colocam uvas selecionadas para serem pisadas durante horas, formando o sumo que depois se transformará no vinho após o processo de fermentação. Uma vez por ano, Leal compra uvas de produtores do Sul, que são entregues em sua casa. No último sábado, 820 quilos de uva moscatel, importadas da Argentina, chegaram logo cedo. Com a ajuda dos amigos da comunidade portuguesa de Santos, as uvas foram colocadas no lagar e, durante toda a manhã, ajudaram a manter viva a tradição da pisa. Caixas de uvas moscatel foram importadas da Argentina: 820 quilos (Arminda Augusto/AT) Todos os anos, o Rancho Folclórico Verde Gaio, do Centro Cultural Português, embala a pisa com músicas portuguesas e seus membros trajados adequadamente para a ocasião. “Não é pelo vinho que estamos produzindo, é pela oportunidade de revivermos aquele momento tão importante das aldeias e das nossas vidas”. Emocionado, lembra do dia em que deixou Portugal e chegou ao Brasil, em 21 de maio de 1970. “Deixei meus pais e minhas duas irmãs, vim para trabalhar e consegui também estudar. Hoje, sei que fizeram isso para que eu tivesse uma oportunidade na vida. Só sinto muito porque meu pai não conseguiu me ver formado”. O vinho O vinho produzido no lagar de Antônio Leal é feito de forma artesanal. Três dias depois da pisa, o sumo da uva que decanta e fica no fundo do lagar é canalizado para os toneis de aço que existem do lado de fora. Ali, permanecerão por dois ou três meses antes que possam ser consumidos. Dos 820 quilos de uvas, cerca de 500 litros de vinho serão gerados. “Depois de pronto, dividimos o vinho entre todos. Fica como recordação desse momento”. Depois de três dias, o sumo que fica no fundo do lagar é levado para toneis de aço, onde permanecem por dois ou três meses (Arminda Augusto/AT)