Santos, 30 de agosto de 1878. A cidade ainda cabia em poucas ruas, comprimidas entre o Porto e os morros, mas já sentia os primeiros sinais das grandes transformações que mudariam sua paisagem. A ferrovia ligava o Litoral ao Planalto havia pouco mais de uma década, o café descia a Serra em quantidades crescentes e, nas vias próximas ao cais, carroças, comerciantes, marinheiros, trabalhadores livres e escravizados dividiam uma Santos que avançava economicamente sem abandonar antigas estruturas sociais. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele cenário, estudar permanecia um privilégio distante para boa parte da população. Foi então que surgiu a Sociedade Filantrópica Auxiliadora da Instrução, criada com a finalidade de oferecer ensino gratuito. A proposta carregava uma ideia simples, mas poderosa para aquele tempo: quem não pudesse pagar também deveria aprender. Em uma cidade ainda pertencente a um Império escravista, abrir um livro diante de determinadas pessoas podia representar muito mais do que ensinar letras e números. Uma escola para quem não podia pagar A Auxiliadora nasceu da mobilização da própria sociedade santista. Comerciantes, profissionais liberais e cidadãos ligados à vida pública colaboraram para manter a iniciativa, que dependeria durante anos de contribuições, doações e eventos beneficentes. Em 1883, a instituição funcionava na Rua Santo Antônio, nº 56, atual Rua do Comércio. Em setembro daquele ano, passou a oferecer aulas de Desenho Linear para pessoas livres e de primeiras letras para escravizados. A divisão revelava com clareza o mundo em que aquela escola estava inserida. Todos podiam estar diante das mesmas letras, mas não chegavam à sala nas mesmas condições perante a lei. Para que um escravizado frequentasse as aulas, exigia-se autorização escrita de seu senhor. A própria exigência carregava uma contradição difícil de ignorar: ensinava-se alguém a ler enquanto a legislação ainda permitia que aquele aluno pertencesse juridicamente a outra pessoa. Letras antes da liberdade Em 1885, três anos antes da Lei Áurea, Santos mantinha apenas duas escolas públicas, com seis cadeiras de ensino. Foi naquele ambiente de oferta educacional bastante limitada que a Auxiliadora ganhou uma característica excepcional. Registros históricos apontaram a instituição como a única escola da cidade que mantinha alunos escravizados entre seus matriculados. A cena merecia ser imaginada. Dentro de uma sala santista, homens e meninos ainda sujeitos à compra e à venda aprendiam a reconhecer letras, juntar sílabas, escrever palavras e realizar contas. Do lado de fora, a escravidão permanecia legal. Dentro daquelas paredes, porém, o conhecimento ultrapassava uma fronteira que a sociedade brasileira ainda demoraria alguns anos para derrubar. Santos já caminhava para ocupar posição importante no movimento abolicionista. Nos anos seguintes, receberia escravizados fugitivos das fazendas do interior, acompanharia o fortalecimento das campanhas pela liberdade e ficaria marcada pela existência dos quilombos do Jabaquara e de Pai Felipe. A experiência da Auxiliadora não explicava sozinha aquela transformação, mas fazia parte de uma cidade em que novas ideias começavam a disputar espaço com estruturas antigas. Uma escola que mudou de endereço A instituição também acompanhou fisicamente as mudanças de Santos. Depois do período na Rua Santo Antônio, apareceu instalada, em 1890, na Rua do Rosário, nº 45. A cidade já havia deixado de ser imperial, a escravidão terminara dois anos antes e a República acabara de ser proclamada, mas o desafio de ampliar o acesso à educação permanecia. Foi na Rua do Rosário que a Auxiliadora atravessou parte daquela transição entre dois séculos. Santos cresceu depressa, recebeu milhares de imigrantes, ampliou o movimento portuário e viu sua área urbana avançar para além do antigo núcleo colonial. A necessidade de escolas acompanhou esse crescimento. Prédio da Auxiliadora da Instrução localizado na Rua Sete de Setembro (Reprodução) Uma nova mudança ocorreu em 19 de janeiro de 1904. A Sociedade Auxiliadora da Instrução passou então a funcionar na Rua Sete de Setembro, esquina com a Braz Cubas. O endereço se tornaria um dos mais importantes de sua trajetória e marcaria a fase que antecedeu sua incorporação definitiva ao ensino público municipal. Da filantropia ao Município A Auxiliadora atravessara a Abolição, assistira ao fim do Império e entrara no século 20 ainda ensinando. Também mantivera cursos noturnos, ampliando as possibilidades de estudo para pessoas que trabalhavam durante o dia. Em 1º de agosto de 1914, aquela experiência iniciada 36 anos antes ganhou uma nova dimensão. O patrimônio e o mobiliário da Sociedade Auxiliadora da Instrução foram entregues ao Município, e suas classes passaram a integrar o Grupo Escolar Municipal Auxiliadora da Instrução. Nascia, a partir daquela longa iniciativa filantrópica, a primeira escola municipal de Santos. Foram organizadas oito classes diurnas, distribuídas em dois períodos, destinadas principalmente às famílias que não possuíam condições de pagar pelo ensino dos filhos. A associação desaparecia como mantenedora, mas deixava o nome e a história como herança. Da Sete de Setembro ao Macuco A escola permaneceria durante décadas ligada ao endereço da Rua Sete de Setembro. Ali atravessaria diferentes administrações, mudanças pedagógicas e sucessivas transformações da própria cidade. Em 1950, uma nova etapa começaria. A Auxiliadora deixou a região central e foi transferida para um prédio na antiga Praça do Mercado, na área das casas populares da Bacia do Macuco, posteriormente denominada Praça Rubens Ferreira Martins. Gerações de crianças passariam por suas salas sem imaginar que a origem daquela escola remontava a uma Santos de carroças, trapiches e escravidão. Em 2006, a instituição receberia oficialmente a denominação de UME Auxiliadora da Instrução e seguiria integrada à rede pública santista. Quase um século e meio depois daquele 30 de agosto de 1878, permanecia uma história que ia muito além das mudanças de endereço. Da Rua Santo Antônio à Rua do Rosário, dali para a Sete de Setembro e finalmente ao Macuco, a Auxiliadora atravessara diferentes Santos. E, em todas elas, carregara a mesma ideia que justificara seu nascimento: numa época em que estudar ainda estava longe de ser um direito ao alcance de todos, havia quem acreditasse que abrir uma escola significava também abrir caminhos. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR