[[legacy_image_64259]] Santos, segunda-feira, 18 de setembro de 1950. O fim do dia havia, enfim, chegado, dando lugar a uma noite tranquila, de céu límpido, naquele finzinho de inverno. A maior parte dos santistas já havia se deitado para que pudesse acordar cedo no dia seguinte, uma terça-feira como qualquer outra de trabalho. Mas, na residência do delegado Leonel Ferreira de Sousa, situada na aprazível Avenida Siqueira Campos, 666, bem pertinho da praia, ninguém ousara ir para a cama. Afinal, naquela casa, se tornara praticamente proibido deixar de lado a oportunidade de testemunhar um fato histórico sem precedentes no País: o início das transmissões televisivas oficiais no Brasil, com a inauguração de sua primeira emissora, a PRF-3 TV, que ganharia o nome de TV Tupi. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em dezenas de lojas, restaurantes e serviços! Assim, tanto Leonel quanto sua esposa, Julieta Panzoldo Ferreira de Sousa, e os dois filhos do casal, Hélio e Stela, estavam com os olhos grudados no aparelho receptor General Eletric, instalado havia apenas 11 dias na residência do delegado por técnicos da empresa norte-americana, em conjunto com representantes da loja Galeria do Rádio, de São Paulo, só à espera do espetáculo inusitado. De repente, o relógio da sala começou a soar, marcando 21 horas. Até então estática, a tela receptora da família Ferreira de Sousa mudara, de um desenho em forma de disco, onde se via o prefixo da Tupi (PRF 3TV), canal 3, para uma arte em que se destacava a figura de um indiozinho, que ficaria marcada na história da TV brasileira. Ao fundo, ouvia-se em alto e bom som a voz de uma criança, a atriz mirim Sonia Maria Dorse, de apenas 5 anos, anunciando uma nova era. “Está no ar a televisão brasileira”. Os Ferreira de Sousa estavam extasiados com o que viam, e de certa forma orgulhosos por terem sido os primeiros santistas a conhecer aquela maravilha tecnológica. É que o delegado Leonel foi o primeiro na Cidade a adquirir um dos novos aparelhos, que começavam a se destacar nas vitrines das lojas de equipamentos domésticos da Capital e das principais cidades do Estado. A família santista comemorava efusivamente a chegada da mais alta tecnologia de comunicação daquela época. Era, de fato, um privilégio. O delegado, que dias antes recebera alguns representantes da imprensa em sua casa, ávidos por registrarem nas páginas dos jornais detalhes sobre o primeiro aparelho receptor instalado em Santos, se mostrava esperançoso quanto ao papel que a novidade traria na vida das pessoas. Disse ele aos jornalistas: “Estou imensamente satisfeito por poder proporcionar à minha excelentíssima esposa e a meus filhos mais essa formidável distração que, estou certo, será um veículo de civilidade e magníficos princípios construtivos”. O propósito inicial da TV era, de fato, levar conhecimento e cultura para todo o País por meio de imagens e sons, como fora a expectativa quando do início das transmissões radiofônicas no Brasil, em 1922. Porém, muita coisa aconteceu desde o início desta trajetória e a tal civilidade e princípios construtivos acabaram não sendo, de fato, uma regra na televisão brasileira. Ligação com a TV Antes da transmissão pioneira da Tupi, testemunhada por Leonel e seus familiares, os santistas já haviam tido contato com a nova coqueluche mundial. É que em março, a Cidade teve o privilégio de testemunhar a chegada dos primeiros equipamentos televisivos do Brasil (da norte-americana RCA - Radio Corporation of America), o que foi um grande acontecimento. À época, desceram a Serra do Mar para acompanhar esse momento histórico várias estrelas do teatro, do jornalismo e do rádio, como as badaladas atrizes Lolita Rodrigues, Yara Lins e Hebe Camargo, os atores Cassiano Gabus Mendes e Lima Duarte, isso sem falar do empresário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô, responsável primordial da implantação da TV Tupi (e da televisão brasileira), emissora que passaria a integrar o seu império de comunicações chamado Diário Associados. Assim, ao mesmo tempo em que a notícia sobre a estreia da TV no Brasil se espalhava de Norte a Sul, os paulistas corriam para se tornarem os primeiros a possuírem os desejados aparelhos receptores. A população da Capital logo viria as vitrines das principais lojas da metrópole repletas de televisores produzidos no exterior, principalmente dos Estados Unidos, como o aparelho da General Eletric comprado pelo delegado santista. A empresa estadunidense, inclusive, chegou a promover diversas demonstrações nas principais cidades próximas de São Paulo, incluindo Santos. E não havia quem não se encantasse com aquele aparelho de aparência futurista, digno de figurar como peça de cenário do famoso seriado de ficção científica Flash Gordon. À pioneira televisão de Leonel logo se juntariam outras centenas de aparelhos, encantando as privilegiadas famílias santistas. A empolgação foi tão grande que até uma emissora própria a Cidade chegou a ter, numa experiência que durou alguns meses, entre 1957 e 1958. Era a TV Santos, ligada ao canal 5, das Organizações Victor Costa. Com o passar do tempo, a TV foi se modernizando, assim como tudo na sociedade. Hoje, em pleno século 21, onde transmitir imagens está ao alcance de qualquer pessoa e os aparelhos receptores são inteligentes a ponto de obedecer comandos de voz, as cenas da chegada da primeira TV da Cidade podem parecer jurássicas. Mas, podem crer: ofereceu às suas testemunhas uma experiência única e absolutamente mágica! Sobre o autor - Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site Memória Santista.