A tributação sobre bebida alcoólica está entre as mais elevadas (Divulgação) Neste 13 de setembro, data celebrada como o Dia Nacional da Cachaça, vale contar uma história que há algum tempo desperta a curiosidade de pesquisadores e apaixonados pelas coisas de Santos. Afinal, teria a cidade alguma participação na criação da caipirinha, a bebida brasileira que ganhou bares, restaurantes e praias em praticamente todos os cantos do planeta? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A resposta exige cuidado. Não há elementos suficientes para afirmar que a mistura de cachaça, limão e açúcar tenha sido inventada em Santos. Existem versões que apontam para o interior paulista, especialmente para a região de Piracicaba, onde uma preparação à base de aguardente e limão teria sido utilizada como remédio caseiro durante a epidemia de gripe espanhola, a partir de 1918. A participação santista nessa história percorre outro caminho, particularmente interessante: o nome. Foi o publicitário santista Marco Antonio Batan quem desenvolveu essa tese com maior profundidade. Autor do livro A Terra da Caipirinha: como a caipirinha nasceu, foi batizada e cresceu em Santos, ele procurou reconstruir a relação da cidade com a bebida e ofereceu uma explicação para o surgimento da palavra que acabaria conhecida internacionalmente. O morrão da Nova Cintra Para compreender seu raciocínio é preciso subir o Morro da Nova Cintra e voltar ao tempo em que Santos produzia sua própria aguardente. Ao longo das primeiras décadas do século XX, propriedades espalhadas pelo morro mantiveram plantações de cana e pequenos alambiques. Reportagens antigas registraram dezenas deles na região, responsáveis por uma cachaça artesanal conhecida pelos santistas como “morrão”. O morrão era produto da terra e, segundo os relatos preservados, consumido preferencialmente puro. Ao mesmo tempo, cachaças industrializadas chegavam a Santos procedentes do interior paulista. É justamente nesse encontro entre a bebida do morro e aquela trazida de fora que Batan encontrou a possível origem do nome caipirinha. Segundo sua interpretação, os santistas teriam passado a identificar a aguardente vinda do interior como “cachaça caipira”. Quando ela começou a ser servida com limão, açúcar e gelo, a expressão teria sofrido a transformação natural da linguagem cotidiana. Da cachaça caipira teria surgido a caipirinha. A explicação combina com a Santos das décadas de 1950 e 1960, quando milhares de paulistanos desciam a serra nos finais de semana e temporadas de verão. Hotéis, restaurantes, bares, boates e barracas de praia recebiam visitantes de diversas procedências, enquanto o porto mantinha contato permanente com marinheiros e viajantes estrangeiros. Nesse ambiente, a mistura de cachaça, limão, açúcar e gelo encontrou cenário favorável, servida tanto nos botequins quanto em estabelecimentos elegantes da orla. A tradição recolhida por Batan situa a caipirinha também em conhecidos endereços da vida social santista. Um nome que já circulava O problema para quem deseja conceder a Santos uma certidão definitiva de nascimento da palavra está nos documentos. Pesquisas posteriores encontraram ocorrências anteriores do nome. Em 1948, por exemplo, a revista O Cruzeiro publicou uma receita chamada “Caipirinha”, preparada com aguardente, limão e açúcar. Alguns anos antes, em 1944, Mário de Andrade já havia registrado uma preparação muito semelhante, embora identificada como “batida paulista”. Portanto, o nome caipirinha já circulava antes do período em que Batan situou o seu possível batismo santista. Isso impede que sua tese seja apresentada como fato comprovado, mas não elimina a curiosidade histórica que ela encerra. A cana chegou primeiro É preciso retroceder ao século XVI, quando a região de São Vicente e Santos participou das primeiras experiências de produção açucareira realizadas pelos portugueses no Brasil. Um dos principais testemunhos desse período permanece em território santista: o Engenho São Jorge dos Erasmos, cujas origens remontam à década de 1530. Ali se desenvolveu uma das mais antigas atividades ligadas ao cultivo e processamento da cana no País. O engenho pertenceu posteriormente à poderosa família Schetz, comerciantes estabelecidos na Europa, e integrou uma rede comercial que ligava o núcleo colonial vicentino aos mercados do outro lado do Atlântico. Açúcar, rapadura e produtos derivados da cana fizeram parte daquela economia. A aguardente surgiria nesse mesmo universo produtivo e acabaria incorporada aos hábitos brasileiros. Curiosamente, séculos depois, o Morro da Nova Cintra, situado não muito distante daquele antigo engenho, continuaria mantendo sua própria tradição de cana e alambique. Dos empreendimentos açucareiros do período colonial aos pequenos produtores do morrão, a cidade conservou uma relação com a matéria-prima que está na origem da cachaça. Uma história sem certidão de nascimento A caipirinha acrescentou outro capítulo a essa história. Piracicaba possui sua tradição e seus argumentos, São Paulo teve papel importante na circulação do drinque e o Rio de Janeiro oferece registros impressos antigos. Santos, por sua vez, reúne os engenhos, os alambiques da Nova Cintra, o morrão, a cultura dos bares e da praia e, graças às pesquisas de Marco Antonio Batan, uma interessante hipótese sobre a maneira como o nome “caipirinha” teria sido compreendido e utilizado por aqui. No fim das contas, mais interessante do que perguntar se a caipirinha nasceu em Santos é tentar compreender que papel a cidade desempenhou para que ela se tornasse caipirinha. Essa, sim, ainda rende uma boa rodada de histórias. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.