Ideia se destaca neste Dia da Consciência Negra, que lembra Zumbi (Vanessa Rodrigues/AT) No próximo ano, Santos concederá um selo para empresas parceiras da igualdade racial para quem tiver, pelo menos, 20% do quadro de funcionários composto por negros. A certificação é uma forma de incentivar as instituições a darem mais oportunidades no mercado de trabalho e a combater o racismo estrutural na sociedade. O assunto se evidencia neste dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O selo Empresa Parceira da Igualdade Racial visa a estimular empresas a oferecer cotas para afrodescendentes de forma já adotada em serviços públicos e autarquias da Cidade. As empresas que pretendem pleitear a certificação deverão entrar em contato com a Prefeitura por meio da Secretaria da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos. Responsável pela Coordenadoria Municipal de Promoção de Igualdade Racial e Étnica (Copire) da Prefeitura, Ivo Evangelista vê a ideia como uma forma de garantir a presença de jovens negros em espaços públicos. Em especial, no comércio e nas empresas. “Acho que é extremamente importante salientar que, a partir do momento em que uma empresa é certificada nesse sentido, a comunidade negra como um todo se sente mais confortável para estar entrando naquele lugar e efetuando uma compra”, considera. CELEBRAR O REPRIMIDO O Dia da Consciência Negra marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos símbolos nacionais pela resistência à escravidão e enfrentamento ao racismo. Em Santos, haverá homenagem ao líder quilombola, às 11 horas, no busto localizado na Praça Palmares, no Macuco. Ocorrerão apresentações da Banda da Polícia Militar, de capoeira e xirê dos orixás — ritual do candomblé, religião de matriz africana, para comemorar o nascimento de um adepto ou homenagear um orixá. Esta quarta-feira, portanto, é dia de celebrar o que já foi recriminado, especialmente durante a escravidão. “O negro tinha sua existência criminalizada; ele não podia cultuar seus orixás, não podia fazer sua cultura, seu samba, sua música, não podia dançar e não podia treinar capoeira. Então, a morte para a população negra se dava no direito de existir”, afirma o professor de ciências políticas e serviço social Odair Dias Filho, mestre em Serviço Social e Políticas Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). SÉCULOS DE OPRESSÃO No papel, a escravidão acabou em 13 de maio de 1888. Porém, a assinatura da princesa Isabel, por si só, não deu fim a séculos de opressão. “É preciso lembrar que a gente tem mais tempo de escravidão que de liberdade”, afirma o professor Odair Dias Filho. Mas a dívida não é somente pelos anos de trabalho forçado: ela existe também por causa dos anos de liberdade em que o racismo não deixou que ser livre sobrepusesse a condição de ser negro. Dias explica que, na escravidão, os negros eram o “produto e os produtores” da riqueza dos senhores, e isso foi a base para se formar uma sociedade baseada na exploração. No entanto, após a abolição, os ressarcidos foram os escravocratas. Os escravizados recém-libertos foram deixados à própria sorte e, por anos, viram o racismo ser institucionalizado por meio de leis que proibiam suas práticas culturais. “A capoeira já foi crime previsto no Código Penal. Os negros saem das senzalas e vão para as ruas sem perspectivas de acesso ao mercado, sem terra, sem casa e sem acesso às políticas públicas, que já eram ruins, inclusive para os brancos pobres”, afirma o professor. Esse panorama histórico serve para mostrar que, embora a escravidão tenha acabado formalmente, o racismo não. “São mais de 300 anos que não vão ser revertidos assim, de uma hora para outra. Nós sofremos a consequência da escravidão. E, ainda que um branco não seja racista, ele colhe privilégios deste processo. Um jovem negro que mora na periferia é criminalizado duas vezes: pela cor da pele e pelo CEP”, comenta Dias.