O Rei Momo de Belém (PA), Mário Alberto Valério Coelho, o mais pesado da turma, com 211 quilos, no Congresso de 1966, ao lado da rainha do Carnaval de Santos, Arlete Marília Castro (Reprodução) Santos, 14 de fevereiro de 1963. O verão lançava um brilho especial sobre a baía, enquanto a cidade ostentava o título de capital do Carnaval paulista, com folia superada apenas pela do Rio de Janeiro, segundo os jornais. Bailes lotavam salões, blocos coloriam as ruas e a patuscada Dona Doroteia, Vamos Furar Aquela Onda? animava os foliões. No trono da alegria reinava havia uma década Waldemar Esteves da Cunha, soberano do riso e da fartura na terra dos Andradas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Foi sob esse reinado que nasceu a ideia de reunir, pela primeira vez no Brasil, os Reis Momos das principais cidades. A iniciativa partiu do jornalista e memorialista Bandeira Júnior, integrante do Conselho Municipal de Turismo, que buscava valorizar a figura do Momo e projetar Santos nacionalmente. Assim surgiu a 1ª Convenção Nacional de Reis Momos, realizada em 14 e 15 de fevereiro de 1963, transformando a cidade num reino festivo de coroas e alegria. A primeira edição Com habilidade diplomática e entusiasmo carnavalesco, Bandeira Júnior conseguira o apoio da companhia aérea Cruzeiro do Sul, que ofereceu as passagens para trazer à cidade os monarcas da folia. Vieram Abraão Abdalla Haddad, da Guanabara; Octávio Martins Belmonte, de Minas Gerais; Nilton Ferreira da Silva, da Bahia; José Taranto, do Rio de Janeiro; Vicente Rao, do Rio Grande do Sul; e Haroldo Rego, do Maranhão. De carro chegaram Salvador Militelo, de São Paulo; Eurico Ferrão, de São Vicente; e, naturalmente, o anfitrião santista, Waldemar Esteves da Cunha, já celebrado como decano dos reis. Hospedaram-se todos no Palace Hotel, no José Menino, onde hoje está o Edifício Universo Palace. Ali realizaram a sessão plenária, entre discursos solenes e gargalhadas. Visitaram o prefeito José Gomes, percorreram pontos turísticos e posaram para fotógrafos que se acotovelavam para registrar o desfile da nobreza carnavalesca. Santos se enchera de jornalistas vindos de todos os cantos do País, curiosos diante da reunião de majestades, cada qual trazendo no peito a faixa de sua terra. O sucesso fora tão retumbante que a cidade se sentira ainda maior. Afinal, o Carnaval santista mostrava que tinha importância e sabia se promover. Assim, ficou decidido que a experiência se repetiria. Registro do passeio de Reis Momos de vários estados brasileiros na praia de Santos (Reprodução) Praia como passarela Três anos depois, a Praia do Gonzaga viu-se tomada por uma trupe que fugia completamente à rotina balneária. Treze homens que juntos somavam 1.702 quilos saíram em cortejo pela orla, como se a faixa de areia se transformasse, por instantes, em tapete real. Eram, novamente, os Reis Momos reunidos para a 2ª Convenção Nacional, e sua passagem provocou curiosidade e o disparo incessante das câmeras fotográficas, enquanto a cidade exibia ao País sua monarquia carnavalesca. Desta feita, o Hotel Atlântico converteu-se em palácio temporário daquela corte singular. Entre os dias 11 e 13 de fevereiro, discutiram-se questões de “substancial importância”, como a dualidade de poderes momísticos na Capital paulista. O debate central, contudo, pairou sobre pergunta mais profunda: seria o Rei Momo figura apenas burlesca ou artista sério, investido de responsabilidade cultural? Eles próprios responderam com altivez, afirmando-se homens comprometidos com a alegria popular e guardiões de uma tradição que exigia disciplina, carisma e entrega. No primeiro dia de trabalhos, decidiram proclamar Salvador Militelo como único e soberano Rei Momo Paulistano, até que abdicasse ou partisse desta vida, encerrando a polêmica instaurada em São Paulo. Também marcaram a terceira convenção para o estado da Guanabara, que acabou não acontecendo. Depois das resoluções, entregaram-se ao que consideravam a mais legítima das reivindicações: comer, confraternizar e celebrar. Segunda Convenção Nacional dos Reis Momos foi realizada em Santos em 1966 (Reprodução) Os destaques Entre os presentes, destacara-se Mário Alberto Valério Coelho, de Belém (PA), com seus 211 quilos, considerado o mais pesado da trupe. Seu cardápio incluía tartaruga ou pato com tucupi, sabores da Amazônia que ele evocava com saudade. Sua cama precisara ser reforçada, assim como a de outros colegas. Vicente Rao, de Porto Alegre, aos 57 anos, era o mais veterano, carregando no olhar a experiência de muitos Carnavais. Vieram nesta segunda edição ainda Abraão Haddad, José Taranto, Haroldo Rego, Belmonte, Ferreirinha, Hilton da Silva, Paulo Maux, Chico Tomás Neto, Mário Carvalho e outros soberanos da alegria, todos recepcionados por Waldemar, eterno rei santista. A imprensa os seguira como quem acompanha uma corte medieval reinventada sob o sol tropical. Cartaz da primeira convenção de Reis Momos, realizada em 1963 em Santos (Reprodução) Agenda real A programação fora intensa. À noite, foram à boate El Morocco, na Boca de Santos, onde assistiram a um desfile de fantasias e espetáculo dedicado aos momos. No dia seguinte, almoçaram no Tortuga Clube, acompanharam o bloco Agora Vai na Praça Mauá e participaram de coquetel no Clube Sírio-Libanês. No domingo, confraternizaram-se na barraca do Grêmio A Tribuna, saboreando frutos do mar. Seguiram à Fortaleza da Barra Grande e ainda prestigiaram a tradicional Dona Doroteia. À noite, no ginásio do Clube Atlético Santista, participaram da coroação da Rainha do Carnaval de 1966, Arlete Marília Castro, ao som dos Chorões Santistas. A ceia de despedida, no Salão Verde do Atlético Santista, encerrou a convenção com pompa e satisfação estampada nos semblantes de cada soberano. À mesa, entre brindes e discursos, selou-se não apenas o fim do encontro, mas a consagração de uma cidade que soubera transformar irreverência em evento histórico. Santos reafirmava, mais uma vez, seu título de capital festiva, orgulhosa de ter reunido sob o mesmo teto a mais pesada, e talvez a mais alegre. monarquia do país. As Convenções Nacionais de Reis Momos não voltariam a acontecer. Ficaram, porém, como capítulos dourados de uma época em que os santistas ousaram institucionalizar o riso. Restou a Santos essa marca singular, típica de uma terra que sempre vivera o Carnaval como identidade, vocação, espetáculo e memória. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.