[[legacy_image_179902]] A ideia nasceu em Santos, quando ela ainda era menina, mas ganhou forma, começo, meio e fim do outro lado do mundo, enquanto Victoria Schechter estava finalizando o mestrado em Literatura Modernista e Contemporânea na University of East Anglia, na pequena Norwich, em Norfolk, no nordeste da Inglaterra. O produto final já tem nome, Prismas, um livro que Victoria pretende lançar até o final do ano, pela Editora Patuá, de São Paulo, e que vai contar a história de Isabel, uma jovem deficiente visual e suas rotinas, assim como a própria autora, também deficiente visual desde que nasceu. Nascida em Santos, Victoria terminou os estudos e foi para São Paulo, onde concluiu a Faculdade de Letras na USP e já ensaiava tirar da cabeça os rascunhos sobre Isabel, que até então era só um personagem fruto de suas percepções sobre a deficiência visual. Depois da faculdade, o passo seguinte foi o curso de Formação de Escritores, focado em ficção, no Instituto Vera Cruz, um curso de especialização que representou mais um passo na carreira de escritora que começava a se desenhar. “O curso de escrita criativa que fiz no Brasil e o mestrado aqui foram focados na cegueira como um elemento bastante comum na Literatura. Mas sempre encontrei escritos que tratavam da deficiência de uma maneira trágica. Isabel nasceu dos meus escritos de quando eu tinha 15, 16 anos, e foi se consolidando durante o tempo. Era algo meio instintivo, que eu escrevia justamente por não encontrar na literatura pessoas como eu. É uma questão de representatividade mesmo”, conta Victoria. Ela diz que o livro não é autobiográfico, mas representa um momento especial da vida justamente por falar de alguém (fictício) que também lida com a deficiência visual. “Colocar a Isabel no mundo é uma responsabilidade grande”, diz. Enredo Victoria não quer dar muitos spoilers sobre Prismas, que será lançado pela Patuá no Brasil até o final do ano, mas antecipa que o enredo começa com a personagem fazendo uma viagem longa, e está grávida. Durante a viagem, as memórias e pensamentos de Isabel foram surgindo nos capítulos, como uma espécie de reflexão, em que a vida vai e volta no tempo, sem muita linearidade. “São pensamentos dela que vão da infância ao momento atual, mas sem uma cronologia definida”. Isabel cresceu no interior e se formou professora de Música e cantora. A proposta do livro, conta Victoria, é abordar a questão do preconceito que existe em relação às pessoas com deficiência, estereótipos e a aceitação por parte da família. “Quis tratar o tema de uma forma real, porque poucas vezes vi um retrato preciso de uma pessoa com deficiência visual. O que encontro na Literatura é sempre uma tragédia, uma história de superação. Não tem nada de superação. Deficiência não é uma coisa que você supera. É algo que você aprende a viver com”, enfatiza a jovem escritora. E por que o nome Prismas para a obra? “Porque existem vários pontos de vista sobre a Isabel. Ela fala sobre ela, mas outras pessoas que convivem com ela também vão falar: as amigas, a babá da infância, um ex-namorado, a irmã”, explica. A rotina Victoria tem deficiência visual desde pequena, e só 5% de visão em cada vista, mas com o uso da tecnologia a rotina acontece com bastante autonomia. “Leitura, escrita, chamadas de vídeo, tudo tem o uso da tecnologia, com leitores de tela e aplicativos específicos. Eu até sei braile, mas só uso para elevador, bula de remédio. Hoje em dia, há muitos sites com acessibilidade, muitos recursos que você pode baixar no seu celular. Os leitores de tela têm as vozes eletrônicas, que falam o que está escrito, e isso facilita muito”. Os livros convencionais, que ainda não têm na versão de audiolivro, são escaneados e transformados em áudios. “E assim vou me virando. Excepcionalmente peço ajuda. Se eu vivesse em outra época, sem tecnologia, tudo seria bem mais difícil”. Para quem quiser acompanhar mais reflexões de Victoria sobre a cegueira, sobre Literatura Modernista e Contemporânea, é só seguir seu Instagram, @filapreferencial, também disponível no YouTube.