Sadao Nakai desiste de concorrer à reeleição e demonstra insatisfação com o PSDB

Em seu terceiro mandato como vereador em Santos, parlamentar promete continuar fazendo política: 'Ninguém pode me chamar de desleal'

Sadao Nakai (PSDB) está em seu terceiro mandato como vereador na Câmara de Santos. Em 2012, foi o parlamentar mais votado da Cidade, com 6.253 votos que o credenciaram para a presidência da Casa, cargo que ocupou no biênio 2013-2014. Foi, ainda, líder do Governo Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) no Legislativo, de 2015 a 2016. Entre janeiro de 2017 e outubro de 2018, assumiu o posto de secretário municipal de Esportes de Santos, atuando também como gestor das praias. 

Apesar dos anos de vida pública e de ter um eleitorado cativo, Nakai não tentará a reeleição. Afirma que é uma decisão pessoal e que não tem relação com o contexto político. Mas demonstra insatisfação com o seu partido, que é controlado pelo prefeito em Santos. Nos últimos anos, foi crítico de projetos que o Executivo enviou à Câmara e chegou a votar contra o Governo.

O vereador pretende se dedicar ao Clube Estrela de Ouro, na Ponta da Praia, e à Associação Japonesa de Santos, entidades que preside. Mas deixa claro: vai continuar participando da vida política da Cidade e em breve pode voltar a se candidatar.  

O senhor já foi o vereador mais votado, presidiu a Câmara, tem um capital político. Por que, então, resolveu não concorrer novamente? 

Foi uma decisão pessoal. Não tem a ver com o contexto político. Foi uma decisão maturada desde a eleição de 2016. Eu já tinha sido o vereador mais votado, o presidente da Câmara, concorri para deputado estadual, fui líder de Governo. Tudo em uma mesma legislatura. Foi tudo muito intenso. E ainda teve a eleição municipal, da qual me submeti. Naquele momento, eu fiz uma reflexão, falei para todos que estavam na minha assessoria: se preparem que é o último mandato e vou fazer intensamente. Só que logo no início do mandato, o prefeito me convidou para ser secretário de Esportes. Eu não queria de jeito nenhum. Mas acabei indo em função da minha intenção de ajudar o meu partido, o Governo, a melhorar as questões.  

Vereador, para ficar claro, qual foi o principal motivo que o fez desistir da reeleição? 

Foi eu ter conversado com minha esposa (risada). Verdade. Havia até a possibilidade de eu sair do partido. Resolvi ficar. Só que no feriado de 7 de setembro, viajei com a minha esposa e conversei com ela. Ela vê as minhas aflições, de ficar insatisfeito de não conseguir resolver alguns problemas, algumas situações. Isso realmente me afeta, quando eu peço alguma coisa para o Executivo. Precisa agilizar processos lá (na Prefeitura), pô. Pequenas coisinhas acabam prejudicando os munícipes, por uma morosidade administrativa. E isso me afeta muito. Falei que pensava em parar e ela falou que seria a melhor coisa a fazer. 

Como foi a experiência na Secretaria de Esportes? 

Foi importantíssima. Fui criticado, algumas pessoas disseram que abandonei o mandato. O papel do vereador não é só produzir legislação. Ele tem que entender toda a máquina pública para conseguir fiscalizar corretamente. Então, era uma oportunidade para conhecer. Tive uma baita de experiência na secretaria, que me deu uma visão ao voltar para a Câmara. Comecei a fazer uma discussão mais aperfeiçoada, por exemplo, nas leis orçamentárias. 

Mas o senhor conseguiu fazer o que queria? Era o que esperava? Pelo o que percebi, o senhor enfrentou várias dificuldades na Secretaria de Esportes.   

Não sou o tipo de pessoa que espera todas as condições para trabalhar. É importante trabalhar com o que a gente tem. Lógico, se tivesse o dobro de orçamento que eu encontrei na secretaria, teria feito muito mais. A gente viveu contingenciamento orçamentário, teve obrigações de cumprir do Ministério Público, em relação aos chequinhos (pagamento de prestadores de serviços em cheques, de forma irregular). A gente tinha que eliminar todos os chequinhos.  Não acho que perdi tempo, pelo contrário. Posso ter me desgastado politicamente, porque eu enfrentei uma série de conflitos. Quis regulamentar, deixar as coisas certinhas. É um perfil que eu tenho. Se faltou dinheiro, teve criatividade para fazer as coisas acontecerem. Teve um dia que eu esperei o prefeito, para conversar com ele, das 18 horas até às 22 horas. Porque ele tinha dado um alinhamento de cortes. Eu tinha um orçamento aprovado e ele disse: contingencia 15%. Fiquei lá, esperando. E ele falou ‘tem que cortar’. Falei, então se prepara porque vão aparecer aqui cinco mil munícipes que vão deixar de ter serviço. Isso é bom pra administração pública? Isso é bom para a população? Aí ele disse então faz aí o que você tem que fazer e eu consegui fazer essa transição. Mas é pegar processo debaixo do braço e ir lá. Então, isso desgasta fisicamente, psicologicamente. 

Então houve um desgaste com o prefeito Paulo Alexandre Barbosa? Porque o senhor saiu da secretaria mais crítico ao Governo, votando contra projetos do Executivo. Há alguma mágoa?  

Não, não mágoa. Eu defini que seria um último mandato e faria de acordo com as minhas convicções.  Quando discordei de algumas coisas, foi porque entendia que tinha que ter outra condução. Principalmente em relação às consultas públicas. O grande debate quando eu voltei para a Câmara foi com relação à Ponta da Praia (obras de remodelação). Porque faltou debate. Conversei com o prefeito e disse que não abriria mão da minha condição de vereador. Não vou ser desleal no debate, mas vou questionar. Não teve nada de eu fazer as coisas sem o prefeito estar sabendo. 

 Mas o senhor deixou o cargo de secretário por divergências com o prefeito? 

 Não. A minha saída da secretaria teve a ver com o momento dentro da Câmara.  Se eu fosse continuar na Secretaria de Esportes, deixaria de votar orçamentos, emendas impositivas. Não participaria de algumas discussões que estavam ocorrendo. Então, não sai pelo simples fato de estar discordando por falta de recursos. Foi um contexto que eu entendi assim: ‘acho que deu aqui’. Eu já entendi como é o Executivo, vou voltar para o Legislativo porque é lá que eu tenho que cumprir o meu mandato. 

O senhor gostaria de ser candidato a prefeito? 

Nesse momento, nessa condição, não. Para uma candidatura, eu tenho que estar com o plano de governo pronto, sabendo o que vou fazer em quatro anos, e ter uma equipe técnica comigo para executar. No dia em que tiver essas duas condições eu estarei apto para pleitear no partido para ser candidato a prefeito, antes disso é aventura. 

Nunca pleiteou isso, então? 

Não. O que eu fiz, em 2016, foi entender que isso era importante (ter plano de governo e equipe técnica) para ter um debate entre os poderes, entre o Executivo e o Legislativo. Ter um norte para as pessoas, para gente ter produtividade aqui dentro (da Câmara). Não ficar discutindo projetos que são inconstitucionais e ficam sendo conduzidos aqui para o prefeito vetar. Isso é perda de tempo, é levar falsa imagem de produtividade pra população.  

Há uma decepção com os rumos do seu partido, o PSDB, que na Cidade é controlado pelo prefeito Paulo Alexandre Barbosa? 

Decepção, não. A minha vida partidária começou já com o prefeito Paulo Alexandre estando com uma das grandes lideranças do partido. Sempre foi assim. Eu tentei, realmente, em alguns momentos, levar uma discussão mais aprofundada para o partido, dividir experiências da Câmara dentro das reuniões. Mas cada partido tem sua diretriz, sua forma de ser conduzida. A minha insatisfação teve a ver com a conjuntura que ocorreu, porque perdemos tempo nessa briga entre a executiva estadual e o diretório municipal na definição de quem seria o candidato (a prefeito). Isso gerou insatisfação. Porque a gente não sabia quem seria o candidato. Houve uma insegurança. 

Vai sair do partido? 

Não sei, nesse momento eu não penso nisso. Mas também não vou dizer que ficarei o resto da vida no partido. Quero focar na minha vida fora. Prefiro me afastar da vida partidária, pública, do mandato, por causa dessa priorização da minha vida privada.  

O trabalho do vereador também é fiscalizar o Executivo. O senhor acha que a Câmara, na atual legislatura, cumpriu esse papel? Vimos muitos projetos do prefeito sendo aprovados de forma veloz

Uma crítica geral, e tenho que concordar, é que muitos projetos que geram polêmica foram mandados com pouco tempo para discussão. Tenho que admitir que realmente o Governo não deu esse tempo de maturação. Usou a prerrogativa de ter uma bancada estendida para aprovar os projetos que tinha necessidade (...). Tenho que ser honesto, não posso deixar virar as costas e te atacar. Lealdade é a gente divergir. Saio com essa consciência. Ninguém pode me chamar de desleal aqui. Todas as coisas que eu fiz as pessoas sabiam que eu faria, eu deixava muito claro. Percebe a diferença de motivação que eu tinha quando o prefeito foi eleito, quando me dediquei de corpo e alma, porque a gente tinha sintonia com o governador do Estado? E esse final, como chega? Então, não dá para dizer que saio satisfeito com o partido, que vou ficar até morrer, defender com unhas e dentes. 

Colaborou Beatriz Araujo 

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